Como o Golden State Warriors chegou a três finais da NBA consecutivas

Se há cinco anos qualquer um falasse que o Golden State Warriors conquistaria seu terceiro título seguido da Conferência Oeste, ninguém acreditaria. Que buscaria seu segundo título da NBA, menos ainda. Pois é, a equipe que até 2012 tinha apenas uma ida aos playoffs em 18 temporadas chega a três finais da NBA consecutiva e, junto com o Cleveland Cavaliers, faz história.

Uma equipe, que até então tinha suas maiores glórias nos anos 1970, voltou a conquistar um título quatro décadas depois. Por isso, voltamos dez anos no tempo para contar como o Golden State chegou em 2017 sendo uma das maiores forças da NBA e um time que revolucionou o basquete.

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2006-2010: Os últimos anos de Don Nelson

Foto técnico lendário Don Nelson
Don Nelson encerrou carreira nos Warriors em 2010 (Foto: Sean P. Anderson/ CC)

Vamos começar a história recente do Golden State Warriors com a última glória antes da geração atual. Há dez anos, a temporada 2006-07 marcou o retorno de um antigo ídolo à franquia. O lendário técnico Don Nelson chegou com a missão de classificar os Warriors para os playoffs pela primeira vez desde 1994, quando também era o técnico do time.

O elenco contava com bons talentos como Baron Davis, Stephen Jackson e Jason Richardson. Além deles, haviam Al Harrington, Matt Barnes, Mickael Pietrus e um Monta Ellis em seu segundo ano. Don Nelson desenvolveu o segundo melhor ataque da liga, mas a pior defesa. Retornou aos playoffs, mas na oitava posição com uma campanha 42-40. Enfrentaram o poderoso Dallas Mavericks, vice-campeão da temporada anterior e com o MVP da temporada, Dirk Nowitzki.

A derrota certa se tornou uma das maiores zebras da história dos playoffs da NBA. Baron Davis chamou a responsabilidade e o Golden State Warriors venceu por 4 a 2. Perdeu para o Utah Jazz na semifinal de conferência. O futuro parecia promissor, mas não foi o que aconteceu.

Mesmo com uma campanha de 48 vitórias no ano seguinte, a equipe ficou fora dos playoffs de 2008 e logo começou o desmanche. Em 2010, restavam apenas Monta Ellis e Stephen Jackson. Aquele também foi o último campeonato da carreira de Don Nelson depois de 30 anos. Encerrou sua história no basquete como o técnico com mais vitórias em temporada regular na história da NBA (1.335). Porém, ele não foi embora sem deixar um presente que mudaria a história do Golden State Warriors.

2009-2011: Curry, novo logo e a reconstrução dos Warriors

Logotipo Golden State Warriors temporadas 1997 2010
Logotipo do Golden State Warriors entre 1997 e 2010

No draft de 2009, Don Nelson e o então general manager, Larry Riley, tinham a sétima escolha. Do basquete universitário vinham bons talentos como Blake Griffin, James Harden, Ricky Rubio, DeMar DeRozan e outros que hoje não são tão conhecidos do público. Curry estava cotado para ser um dos dez primeiros e seu agente queria que ele fosse para o NY Knicks no oitavo pick.

Porém, Nelson e Riley ficaram com o camisa 30, algo reconhecido no discurso do primeiro troféu de MVP do craque, em 2015. “Riley viu potencial em mim no universitário e, junto com Don Nelson, tomou aquela decisão. Vocês são a grande razão por eu estar aqui ao darem a chance para uma criança baixinha e magricela. Louco o quão longe chegamos em seis anos, mas obrigado, cara [Riley]. Eu não consigo te agradecer o suficiente por aquela decisão”.

O primeiro ano de Curry foi o último de Don Nelson. Foi também o último com o logotipo antigo. O time foi comprado por novos donos que queriam novos rumos. Nova cara e novos caras. Os decadentes Stephen Jackson, Raja Bell e Corey Maghette foram dispensados. David Lee chegou para ser o dono do time junto com Monta Ellis. Curry seguia evoluindo.

Os especialistas não esperavam muito da temporada 2010-2011, mas a nova diretoria sim. A campanha de 36 vitórias e 46 derrotas foi o suficiente para mandar o técnico Keith Smart embora em seu primeiro ano. Era hora de continuar a reconstrução, mas por outro caminho.

2011-2014: Mark Jackson e a base do Golden State atual

Mark Jackson comandou GSW entre 2011 e 2014 (Rosa White/ CC BY-SA 2.0)

O novo técnico saiu das cabines de TV para a beira da quadra. Mark Jackson foi um armador com 17 anos de carreira e passagem por oito equipes que se aposentou em 2004. Era comentarista da ABC até ser chamado para comandar a equipe da Califórnia. Chegou com o discurso de montar uma defesa forte, mas sofreu com as contusões de Ellis e Curry.

A temporada 2011-12 foi encurtada por causa da greve de atletas e o time terminou com campanha de 23 vitórias e 43 derrotas. A perda de alguns jogadores foi fatal para o futuro dos Warriors. Em vista da necessidade, a equipe ainda conseguiu desenvolver um calouro de 11ª escolha e com bom arremesso: Klay Thompson.

O garoto respondeu tão bem que Monta Ellis foi trocado para a temporada 2012-13. Quem chegou do Milwaukee Bucks foi o pivô Andrew Bogut. Da sétima escolha no draft veio o ala Harrison Barnes. A defesa se acertou, Curry parou de sofrer com seu tornozelo e virou protagonista. Os Warriors se classificaram para os playoffs pela segunda vez em 19 temporadas com uma campanha de 47-35. Chegaram às semifinais da Conferência Oeste, mas perderam para o San Antonio Spurs por 4 a 2.

Para a temporada 2013-14, mais um reforço importante: Andre Iguodala. Os jovens Thompson e Barnes seguiam evoluindo. Bogut e Lee se mantiveram saudáveis e Curry jogou tanto que foi selecionado para o 2º time da NBA. Também vinha do banco um bom jogador chamado Draymond Green, 35ª escolha no draft de 2012. O time queria dar um passo a mais, mas perdeu na primeira rodada dos playoffs para o Los Angeles Clippers por 4 a 3. Poucos sabiam, mas era o fim da linha para o técnico Mark Jackson.

2014-15: Com Steve Kerr no comando, o time que era bom virou o melhor

Das cabines de TV também veio o novo técnico dos Warriors: Steve Kerr. Como jogador, foi campeão da NBA cinco vezes e tem o melhor aproveitamento de chutes de três pontos da história da liga com 45,4% (mínimo de 250 cestas convertidas). Além do novo comandante, peças importantes também chegaram, entre eles, Leandrinho e Shaun Livinston.

O trabalho do treinador foi impactante. Logo na primeira temporada, campanha de 67-15 e o recorde de vitórias para um técnico calouro. Para isso, Kerr adotou um esquema de jogo que atropelou os adversários e mudou a NBA. O small ball tem como características um ataque fulminante com passes e tiros de 3 pontos, além de uma defesa rápida. Não a toa o time se tornou o melhor ataque da NBA com 110 pontos por jogo, ótimo aproveitamento dos arremessos de quadra (sendo o 1º em 3 pontos com 39% e 2º em 2pts com 51%) e uma média de 27,4 assistências por jogo.

Para funcionar, o esquema não precisa, necessariamente, de jogadores altos e fortes. Ele prioriza atletas técnicos, rápidos e com bons arremessos a distância (não a toa, Curry e Thompson ganharam o apelido de Splash Brothers). Quatro jogadores atuam abertos com a opção de arremessar de longe ou infiltrar em um garrafão desocupado. Com isso, um atleta ganhou ainda mais espaço na equipe: Draymond Green. Jogador versátil a ponto de cumprir essa função de pivô em vários momentos do jogo, mesmo com 2,01 metros de altura.

Foi assim que o time derrotou seus adversários nos playoffs e chegou à primeira de suas três finais da NBA. Venceu o Cleveland Cavaliers por 4 a 2 e Kerr se tornou o primeiro técnico estreante campeão desde Pat Riley, em 1982. Mesclando agilidade, velocidade e técnica, o small ball revolucionou a NBA.

2015-2016: A melhor temporada regular da história e o final amargo

No ano seguinte, a equipe comandada por Kerr aprimorou ainda mais esse estilo de jogo, atingindo a histórica marca de 73 vitórias e apenas nove derrotas na temporada regular. A equipe quebrou 25 recordes da NBA nessa edição, dentre eles, o de maior número de cestas de 3 pontos convertidas (com 1.077 e 41,6% de aproveitamento).

Todas as estatísticas que o time já liderava no ano anterior melhoraram: de 110 pontos por partida, o Warriors chegou a 114,9. As assistências passaram de 27,4 para 28,9. O aproveitamento nos tiros de 3 pontos passaram de 39% para 48% . Curry converteu 402 bolas cestas de três, trucidando seu próprio recorde de 285 no ano anterior. No elenco, apenas uma mudança: David Lee saiu e chegou Anderson Varejão.

Parecia aposta certa afirmar que essa equipe se consagraria com o bicampeonato. Porém, nas finais da NBA, novamente contra o Cleveland Cavaliers, LeBron James deu o troco da temporada anterior. Com direito a uma virada histórica e inédita de 1-3 para 4-3.

Como o Cavs parou o small ball que até então era o pesadelo dos adversários? Com um elenco bom e impondo o “velho” basquetebol. Tristan Thompson fez estrago no garrafão com muitos rebotes ofensivos e presença maiúscula na área pintada. Kevin Love e Kyrie Irving dessa vez não estavam lesionados e diminuíram a pressão para cima de LeBron. E James fez o que ele sempre faz: despeja talento quando é requisitado.

2016-2017: O super time ainda mais forte com Kevin Durant

Se não bastasse ser a equipe com o ataque mais potente da NBA, o Warriors se reforçou com um dos melhores jogadores da atualidade. O MVP de 2013, Kevin Durant, levou a frase “se não pode vencê-los, junte-se a eles” no sentido literal e assinou com Golden State. Harrison Barnes e Andrew Bogut saíram para dar espaço salarial ao craque. Saíram também Leandrinho, Festus Ezeli e Anderson Varejão (no meio da temporada). Porém, em compensação, muitos jogadores vieram para reforçar o banco como Zaza Pachulia, Matt Barnes, David West e JaVale Mcgee.

Na temporada regular a equipe melhorou ainda mais o ataque que teve média de 115,9 pontos por jogo. Além disso, é a melhor defesa em aproveitamento, cedendo apenas 43,5% dos arremessos convertidos aos adversários. A campanha da temporada foi tranquila com 67 vitórias e 15 derrotas. Nos playoffs, a equipe varreu todos os adversários (Portland Trail Blazzers, Utah Jazz e San Antonio Spurs) para conquistar a Conferência Oeste pelo terceiro ano consecutivo. Pela frente, mais uma final da NBA contra o Cleveland Cavaliers de LeBron James que tem campanha de 12-1 nos playoffs.  Agora é esperar pelo embate que começa nesta quinta-feira, 1º de junho.

*Texto com colaboração de Gabriela De Toni

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