Como é torcer para um time há 17 anos fora dos playoffs?

Sim, eu torço para o Buffalo Bills e há 17 anos meu time está fora dos playoffs. E este ano pode continuar de fora, claro. Há muitos times que também vivem secas ou estão pagando pelos erros cometidos no passado, mas a quantidade de tempo torna Buffalo o “líder da zica”. Porém, antes de lhe explicar como é vibrar com uma equipe que ‘nunca ganha’, vale definir alguns pontos.

Este texto não será sobre como torcer para time A é mais ‘verdadeiro’ que torcer para o time B. Aliás, este parágrafo será o único que você vai precisar ler, dependendo de como é sua visão sobre a NFL. Isso porque, se você é daqueles que gosta de tirar sarro dos outros por escolher equipe Z ou X, é melhor nem perder seu tempo. Se por acaso tem preconceito com time tal, pare aqui. Não confunda atitude de rival com torcedor nocivo. Ser este tipo de ‘fã’ é um câncer que, infelizmente, vem crescendo na base brasileira. Vá acompanhar outra coisa e não encha o saco de quem assiste o esporte de maneira saudável.

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Por que torcer para o Buffalo Bills?

Assim como gigantesca parte dos fãs de NFL do Brasil, o futebol americano veio muito tarde para mim. No último ano do ensino médio ganhei uma bolsa de intercâmbio para a região de Buffalo e a partir de setembro vivi minha primeira temporada da NFL. Era 2007 e o Bills tinha “só” sete anos de seca. Assisti vários jogos na tevê, acompanhei o sofrimento do meu “pai americano” a cada domingo, tive uma boa alma que pagou o ingresso e me levou ao estádio e, quando me dei conta, já havia escolhido para quem torcer.

Buffalo Bills and here we go

Naquele período, acompanhava muito futebol (o soccer, no caso) e o clube que eu torcia já estava há 10 anos na Série B, sempre batendo na trave para subir. O que eu sentia no futebol, eu conseguia ver com os torcedores do Bills. Ainda que não entendesse bem qual era a conexão, havia muita paixão, muita dedicação por algo que não dava tantas alegrias assim. Será que, como torcedor, ambos gostam de sofrer? Não, acho que tem algo mais…

Era engraçado que naquele ano, Buffalo já fazia parte da lista de playoff drought, mas não era o líder. O Detroit Lions não classificava para a pós-temporada desde 1998. O Arizona Cardinals estava ao lado do Bills, últimos playoffs em 1999. Outras equipes, como o Miami Dolphins, não voltavam há cinco anos. O próprio Houston Texans, criado em 2002, ainda não havia se classificado. Mas a pressão já existia. Eu que não estava muito ligado.

Entendendo o time que não ganha nada

Em 2007 o Bills havia draftado Marshawn Lynch e Paul Posluszny. No elenco estavam Fred Jackson, Kyle Williams, Lee Evans. E era isso o que eu sabia. Exceto por outros dois nomes e uma teoria: “J.P. Losman, Trent Edwards e os quarterbacks que não nasceram/cresceram no frio vão fracassar em Buffalo”.

J.P Losman foi draftado na 22ª posição do draft de 2005 e depois de duas temporadas já era odiado pela torcida. Até eu não gostava dele, mesmo tendo visto só a pré-temporada. Trent Edwards era calouro, mas já não davam muita moral para o jovem quarterback. “Gastaram uma terceira rodada em um cara da Califórnia e que jogou em Stanford, não vai dar certo”. Ele nem havia estreado quando ouvi isso pela primeira vez.

Buffalo Bills One Does Not Simply

Quando questionava a ‘teoria’, sempre escutava algo como “o Bills é tipo o Green Bay Packers, só que sem títulos. É muito frio, cidade não é grande e ninguém quer jogar aqui. Todos os grandes quarterbacks do Bills cresceram ou jogaram com neve. Só assim pra dar certo”. Uma teoria que se aplicava muito à Jim Kelly (Pittsburgh, PA) e Frank Reich (Freeport, NY), os QBs da era prateada dos anos 90. Até mesmo Doug Flutie (Manchester, MD) e Drew Bledsoe (Ellensburg, WA), os bons quarterbacks dos anos 2000, se encaixavam na tese.

É claro que, somente anos depois, descobri que os históricos Jack Kemp (atuou entre 62-69, bicampeão da AFL) e Joe Fergunson (jogou de 73 a 84), ambos QBs do Hall da Fama do Bills, nasceram em Los Angeles e Texas, respectivamente. Mas não importa, a ideia ficou cravada no subconsciente. Hoje, mesmo com mais experiência, ainda me pego pensando “onde esse cara jogou mesmo? Flórida? Vixi…no Bills não vai rolar”.

Torcer para o Buffalo Bills é uma “arte”

Após vibrar com o “Helmet Catch” no Super Bowl XLII e aprender o que significa secar na NFL, terminei o intercâmbio, em julho, pronto para mais uma temporada. Não foi tão simples assim. A ESPN não tinha essa grade completa de jogos, então não me lembro de ver qualquer partida do Bills entre 2008 e 2010. Não conhecia tanta gente que curtia NFL, por isso não rolava nem o clássico debate “Manning vs Brady”.

Me restava aprender sobre a história do Bills e também da NFL. E eu não poderia ter tomado melhor decisão. Entender quem foram os grandes jogadores, as equipes dominantes, as partidas mais espetaculares, a maior virada da história da liga (Buffalo Bills vs Houston Oilers, 1993), as quatro derrotas seguidas no Super Bowl… Imagina se eu tivesse visto tudo isso, ao vivo? E esse aprendizado todo me transformou de um ‘grande simpatizante’ à um torcedor, mesmo.

Buffalo Bills Winter is Here

“Eterno vice”

Aproveitando, vamos tirar o elefante da sala? Sim, Buffalo é o único time a chegar em quatro finais seguidas e perder as quatro. Provavelmente pode ser considerado um dos times mais “amarelões” da história, não tenho dúvida. Mas só assistindo ao “Wide Right” para entender porque aquele time não desistiu, nos três Super Bowls seguintes. Ver a construção da franquia, desde o início da AFL até os anos de sofrimento, me ajudava a entender a paixão de quem é fã dos Bills.

Viver na região de Buffalo, especialmente no inverno, não é fácil. Torcer para o Buffalo Bills nunca foi fácil. Há um nível de excelência em ser “cabeça-dura” pra quem permanece por lá. É ruim, mas muitos não vão embora. Em meio a tanto ceticismo (e até pessimismo) há uma eterna esperança. É piegas, mas é o time da cidade. O nosso time, o meu time. Quem curte esporte entende este sentimento. Fazia todo sentido eu escolher essa equipe, em específico. Coincidências à parte, eu havia nascido uma semana antes do primeiro Super Bowl, em 90. Se era pra sofrer, já teria sido com poucos dias de vida.

Aliás, se você torce para um time mas nunca foi atrás da história (por meio de documentários ou livros), fica a dica. Garanto que você curtirá a próxima temporada de uma forma bem diferente.

10 anos aprendendo como um time erra

O campeonato de 2010 foi aquele que finalmente senti o peso de estar fora dos playoffs. Não que não tivesse noção antes, mas agora era diferente. Eu iria assistir os jogos, de qualquer jeito, e o hype era real. A comissão técnica era nova; a OL parecia melhor com Eric Wood e Andy Levitre; Fred Jackson havia quebrado as 1mil jardas na temporada anterior; draftamos C.J. Spiller; Jaryus Bird e Donte Whitner comandavam a secundária; vários atletas voltavam de lesão, como Posluszny, Stevie Johnson e até o Lynch… Passadas quatro semanas, Marshawn trocado, recorde de 0-4, cabou-se a temporada. É, beleza, não deu esse ano. O Lynch não aguentava mais a cidade, defesa havia trocado de sistema, draftamos mal e ainda não tínhamos QB.

Buffalo Bills What if I told you

Chega 2011 e parece que draftamos melhor… Segundo ano com a mesma comissão, defesa está mais azeitada. Ryan Fitzpatrick vira o quarterback títular e se transforma em “Fitzmagic” na vitória sobre o Raiders (com cinco touchdowns em cinco drives seguidos). Na semana 3, após 15 jogos de freguesia, vencemos o Patriots e Brady, uma virada de 21 pontos. Meu deus! Na oitava rodada estamos com 5-2, então agora vai, é esse ano! Não… Ryan se machuca contra o Redskins, perdemos oito seguidas, adiós temporada.

Buffalo Bills Fitzmagic

Uma hora cansa?

Eu poderia seguir nesse ‘disco arranhado’ em 2012, 2013… Contudo são os mesmos erros se repetindo, com diferentes personagens. Talvez o mais frustrante para um torcedor tão recente, como eu, era ter visto quase 60 picks dos drafts e nem 15 deles ainda atuarem por lá. São muitos erros. Não é possível um time ter tantos olheiros ruins assim né? Talvez seja. Mas há pressão. E a nossa paciência alcança níveis surpreendentes.

Além disso, há anos corriam os rumores de que o Bills iria ser vendido e mudar para Los Angeles. E esse medo de ver o time partir só aumentava a ansiedade da ida aos playoffs. Então, em março de 2014, o bom velhinho Ralph WIlson Jr, fundador e dono do Bills, falece. O cara que desde 1959 tinha apostado em Buffalo, havia co-criado a AFL e até chegou a ajudar o Raiders financeiramente, no início da liga. A cabeça dura de Ralph fez com que o Bills fosse o Bills, para as coisas boas e ruins. Uma mudança era necessária e, infelizmente, Wilson teve que partir para isso acontecer. Mas quem torcia para o Bills naquela época, temia: acho que meu time vai acabar…

Vamos zerar a contagem

Buffalo Bills Trust the Process

É claro que o que já estava ruim poderia ter ficado pior. Donald Trump estava na briga para comprar o BillsE antes que você comece um debate político, vamos nos manter no futebol americano e lembrar que o atual POTUS era dono do New Jersey Generals e ajudou a destruir a USFL nos anos 80. Ainda em 2010 eu havia assistido o documentário “Small Potatoes”, então o medo era real. Quem é fã do Rams, Chargers e Raiders, sabe…

Mas foram os Pegulas, também donos dos Sabres da NHL, que ganharam a briga. E eles iam manter a equipe em Buffalo. Foi um alívio. E o mais engraçado de tudo é que os 13 anos de seca perderam um pouco a sua força. Era uma nova franquia que começava, os novos donos não tinham culpa dos erros passados. Em 2014, com o poderoso front seven defensivo do Jim Schwartz, quase conseguimos. Foi um 9-7, primeira temporada vitoriosa em 10 anos. Só que claro, os novos donos também cometeriam alguns erros…

Buffalo Bills It's a Trap

Então, você gosta de perder?

Não, com certeza não. Assim como qualquer torcedor de qualquer esporte, você quer ver seu time ganhar. Na NFL eu ainda não sei o que significa disputar os playoffs, óbvio. Mas torcer para o Bills me proporcionou descobrir um esporte apaixonante. Ser esse torcedor de Buffalo fez com que eu enchesse o saco de muita gente para acompanhar o futebol americano. Para minha sorte, muitos dos amigos aqui do Time de Fora também são fãs da NFL e posso dizer que, um pouquinho que seja, tenho culpa nisso. É a tal ‘cabeça-dura’ que já comentei. Se esse texto, de um simples torcedor brasileiro, ainda não fez muito sentido para você, vale a pena ver o vídeo abaixo.

Nesta temporada temos novo técnico, trocamos muita gente, estamos cometendo até algumas loucuras com draft picks. Para quem já errou tanto, talvez vale arriscar. “Po, mas o time pode ficar 20 anos sem ir para os playoffs!”. É, pode. Mas se no 21º for campeão, será que não terá valido a pena? A chave é sempre ter esperança. Sempre foi. Um dia vai dar. Tem que dar.

Buffalo Bills Draft picks. Draft picks everywhere

Buffalo Bills In Sean we trust

Crédito de foto: domit via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA

5 comentários em “Como é torcer para um time há 17 anos fora dos playoffs?

  • 4 de setembro de 2017 em 20:05
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    Eu havia assistido alguns jogos na Band no inicio da década de 90, mas era menino e nem lembrava quais times eram e nem as regras do jogo. No ano de 2010, junto com a assinatura de tv a cabo, influenciado pelo meu irmão (que futuramente o influenciaria a torcer pros falcons, pois ele não queria torcer pros Bills), comecei a assistir os jogos, e pesquisei todos os times para escolher um pra torcer. Pesquisa feita, escolhi os Packers, pois era um time forte que a comunidade era dona. Mas no decorrer da temporada eu vendo os jogos dos Packers, inconscientemente eu ficava acompanhando os resultados que passam no rodapé da tela, sempre procurando o jogo dos Bills e comemorando quando estava vencendo. Até un jogo dos Bills ser transmitido. Nesse dia, não tive dúvidas, eu era Bills desde criancinha! Hoje, ainda tenho muita simpatia pelos Packers, mas torcer mesmo só pro Bills.

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    • 5 de setembro de 2017 em 11:50
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      Que massa, Rafael! E vou te dizer que também tenho simpatia pelo Green Bay… Seria o fator “cidade pequena”?

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  • 4 de setembro de 2017 em 22:13
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    Admiro todos os torcedores dos bills e é fácil encontrar torcedores d times q vencem ou q venceram.. sou cowboys e me encontro nesse segundo grupo. Seja qual for o motivo pra torcer por um time q tem tantas adversidades e motivos para nao ter torcida, vejo mais ainda a resignação em vcs. Confesso a se os bills tivessem ganho aquele primeiro sb ( dos 4 q disputou em seguida) contra os giants, o mundo seria melhor..

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    • 5 de setembro de 2017 em 11:54
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      Obrigado pelo comentário Rafael! Com certeza seria mais fácil para quem é torcedor… Mas creio que o recorde seria 1-3, não sei se o Bills com confiança tinha time para vencer o Redskins e o Cowboys. Talvez fosse 2-2, com uma vitória para Dallas e outra para Buffalo? Não sei. Os jogos poderiam ter sido mais equilibrados. De toda forma, foi o fim da era sem teto salarial ou ao menos um teto menos rigoroso. Cada fase é uma fase.

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