O que as torcedoras do Boa Esporte têm a falar sobre a contratação de Bruno

A contratação de Bruno Fernandes de Souza (o goleiro Bruno) pelo Boa Esporte Clube, time de Varginha (MG), reverberou pelas redes sociais e pela mídia. Em 2013, o goleiro foi condenado em primeira instância pela justiça brasileira por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver de Eliza Samúdio, além de ter sido condenado por sequestro e cárcere privado de seu filho com a vítima. Bruno ficou preso por seis anos e sete meses da pena total de 22 anos e três meses e recebeu o habeas corpus em uma liminar concedida pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello O ministro alegou que o goleiro estava preso sem culpa formada (ou condenação definitiva) e seu exame de segundo plano mostra bons antecedentes. Mesmo com a decisão do ministro e a ação do clube, a situação de Bruno está longe de ser unanimidade entre os torcedores.

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Desde a contratação, diversas equipes de TV se instalaram no triângulo mineiro para cobrir a sua chegada. Entrevistas diárias com o atleta e o presidente do Boa Esporte eram veiculadas em rádios, canais de televisão e portais da internet em uma cobertura que priorizou mais as falas de ambos do que das outras partes envolvidas.

Na intenção de ouvir opiniões que não foram mostradas, o Time de Fora conversou com quatro torcedoras do Boa Esporte por meio de redes sociais. A equipe perguntou a respeito da situação da equipe de Varginha, que suscita discussões a respeito de ressocialização de ex-detentos, culpabilidade da justiça brasileira no caso e a reinserção de Bruno tratada como um espetáculo. A redação não procurou emitir opinião de outro perfil de fonte além desse. As posições foram ouvidas, respeitadas e reproduzidas.

Apenas um negócio

Desde 2011, quando o Boa passou a ter sede em Varginha – a equipe se transferiu de Ituiutaba, cidade cerca de 700 quilômetros distante –, Flavienne Ribeiro de Assis vai aos jogos. Com a melhora de desempenho nos campeonatos, o time passou a usar o estádio municipal de Varginha para suprir os requisitos das competições nacionais. Flavienne vê a contratação como um bom negócio justamente pelo calendário de torneios do Boa, que foi campeão da Série C em 2016. “Sou a favor da contratação de Bruno, recebi a chegada dele no time como um profissional e não pela vida particular. Não sou a favor do crime, mas acho as críticas ridículas, pois o que está mais falho na situação dele é a justiça. Já que pela justiça ele pode ser solto e voltar a trabalhar, o que tem demais ser no Boa? Se não contratasse, outro time contrataria… Vou aos jogos frequentemente e torço para o time, não vai ser por causa disso que vou deixar de ir”.

Já a auxiliar administrativa Kenya Ponciano Chagas, nascida e criada em Varginha e fã da equipe desde que o time fixou sede na cidade, vê a situação como algo negativo para o clube. “Considero que a contratação do Bruno foi uma jogada de marketing do Boa. No entanto, acredito que esse tiro saiu pela culatra. O time está perdendo patrocínio, torcedores e adquirindo repulsa de muita gente Brasil afora.  Sou varginhense e ‘era’ torcedora do Boa. (…) O pior de tudo isso é saber que ele não cumpriu sua pena por ter dinheiro e ser famoso e que vai ser ressocializado nos melhores hotéis, restaurantes, ganhando bem, dando autógrafos e tirando selfie. (…) Aí dizem ‘é a profissão dele’. Ele é goleiro, um dos melhores por sinal, mas espera aí… Quantas pessoas honestas e esforçadas não esperam diariamente uma oportunidade dessa pra mostrar que são tão boas ou melhores que ele? Isso foi um marketing desnecessário e que reforça o quanto o brasileiro é manipulável. E eu, como mulher e mãe, jamais me prestaria ao papel de ir ou deixar minha filha ir a um jogo que vai ter contribuição para o enriquecimento de um cara inescrupuloso como o ‘fantástico’ jogador de quem falamos.”

Quantas pessoas honestas e esforçadas não esperam diariamente uma oportunidade dessa pra mostrar que são tão boas ou melhores que ele? Isso foi um marketing desnecessário e que reforça o quanto o brasileiro é manipulável. E eu, como mulher e mãe, jamais me prestaria ao papel de ir ou deixar minha filha ir a um jogo que vai ter contribuição para o enriquecimento de um cara inescrupuloso como o ‘fantástico’ jogador de quem falamos.

Perda de patrocínio e repercussão negativa

Até o momento, o Boa Esporte teve prejuízo financeiro com a vinda de Bruno. Após assinar com o goleiro, o patrocinador master do time rescindiu contrato,alegando divergência de opinião no caso. Além desta, outras três empresas encerraram sua ligação com o clube pelos mesmos motivos. A prefeitura de Varginha, que cede o estádio municipal para as partidas da equipe, continua o acordo com o Boa.

A torcedora Camila Cruz vê a rescisão dos patrocínios como uma perda das empresas e não do clube. Ela morou em Varginha por dez anos e hoje reside em Alfenas, cidade vizinha, mas continua indo aos jogos e acompanhando o time de perto. “Quem perde são eles. Por preconceito vão deixar de ter sua marca estampada no acesso para a série A”. Ela crê que o time fez certo em pensar na formação de uma equipe competitiva. “Sou a favor que a justiça seja feita, porém o Boa não soltou o Bruno. O interesse do clube é o bom futebol do atleta, que é inquestionável. Como apaixonada pelo time, sou a favor da contratação de um bom atleta que pode render lucros com uma possível venda e só. O interesse é no futebol dele (…). É meu amor ao Boa que me faz ver as coisas de outra forma, o Bruno como um bom reforço. E a justiça que cuide do resto”.

O interesse do clube é o bom futebol do atleta, conhecimento de todos que é inquestionável. Como apaixonada pelo time, sou a favor sim da contratação de um bom atleta (…). É meu amor ao Boa que me faz ver as coisas de outra forma, o Bruno como um bom reforço.

No dia que Bruno foi oficializado como jogador do Boa, 26 mulheres protestaram na Praça da Concha Acústica, localizada no centro da cidade. Contra a contratação, elas usaram cartazes onde acusavam o clube de fazer uma jogada de marketing. O caso de Marcella Ramos vai de encontro à manifestação feita na praça e Marcella passou a apoiar o time após a vinda do goleiro. “Eu não ‘torcia’ pelo Boa até essa reviravolta acontecer, mas sabia da existência e dos campeonatos que participava. Resumindo tudo isso que está acontecendo, só acho que estão pegando pesado demais por causa dessa contratação. Totalmente desnecessários os julgamentos, pois se ele está lá é por competência profissional. (…) Acredito que o time tem a crescer e que todos os patrocínios perdidos serão recuperados. Logo menos esquecem do passado e passam a frequentar o estádio, pois acho que o time agora tem grandiosas chances de subir!”.

A página oficial do Boa Esporte Clube anunciou que, mesmo com a repercussão negativa e perda de patrocinadores, manterá a decisão de ter Bruno na sua equipe em 2017. O contrato tem duração de duas temporadas e coloca Bruno com o maior salário do clube (em torno de R$30 mil). O jogador já treinou e realizou exames físicos, porém ainda não foi divulgada a data de sua primeira partida.

Crédito da foto principal: jeso.carneiro via Visualhunt / CC BY-NC

Um comentário em “O que as torcedoras do Boa Esporte têm a falar sobre a contratação de Bruno

  • 22 de março de 2017 em 17:04
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    Eh isso ai Marcella, está certíssima estou com você. E vamos que vamos 👊👊👊 Como dizem, bola pra frente!

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