Ter um “supertime” como o Sada Cruzeiro é bom para o futebol americano no Brasil?

A história do futebol americano no Brasil ainda é bastante recente e muitos dos acontecimentos são tão próximos que fica difícil enxergar eles como ‘passado’. Mas mesmo assim, é possível identificar padrões e encontrar os pontos vitais para contar essa história. Você leu no Time de Fora neste mês sobre os times mais campeões do FABr, aqueles que se destacaram por desempenhos regulares e dominaram por um período de tempo as suas regiões ou país. Hoje, quando se fala em futebol americano do Brasil, um dos times mais comentados é o Sada Cruzeiro. E é a inserção desse “supertime” no cenário atual que tentaremos analisar.

Leia mais: O que a BFA pode aprender com a história do futebol americano no Brasil?

Como se formou o Sada Cruzeiro?

Começou como GET Eagles, um time de Belo Horizonte que tinha uma boa relevância regional e competitividade em campeonatos menores. Depois, tornou-se BH Eagles, já trazendo uma cultura de aquisição de jogadores com a chegada do seu quarterback Álvaro Fadini, que veio de um time da elite nacional (Vila Velha Tritões) e prometendo muito para a temporada 2016.

Nesta temporada, o BH Eagles já demonstrava fortes sinais de que queria pertencer à elite do futebol americano brasileiro. E isso não só por disputar a Superliga, mas por querer ser competitivo à altura dos melhores times do Brasil. Assim, no começo de 2017, a equipe anunciou sua parceria com o Cruzeiro (um dos maiores clubes de Minas Gerais) e com o renomado Sada – conhecido no mundo esportivo por patrocinar o time homônimo de vôlei.

Alvaro Fadini - Quarterback do Sada Cruzeiro
Quarterback do Sada Cruzeiro, Alvaro Fadini, em ação na final da Copa Minas (Crédito de foto: Chiarini Junior)

 

Se o negócio estava bom fora de campo, dentro do time a coisa não era diferente. Além de Álvaro e o treinador Dan Levy, o time da capital mineira contou com reforços renomados do FABr. Dhiego “Gordo” Taylor (OL), Igor Mota (LB), Victor Hugo “Mega” (WR), Kawan Pivatto (DL/LB), Rapha Cruz (DB) e Rodolfo Santos (DB) foram alguns dos nomes de peso que surgiram no começo de 2017, todos com passagem pela Seleção Brasileira de Futebol Americano.

Depois, ainda contrataram o MVP do título do Timbó Rex no ano passado, o running back Well Garcia, e anunciaram a contratação do wide receiver destaque pelo Santa Maria Soldiers no campeonato gaúcho, Clinton Greenaway III. No lugar do ex-NFL Nic Harris, chegou o também americano Charles McCrea (RB). Certamente, um dos times com mais estrelas do Brasil é o que defende as cores celestes.

O que o elenco trouxe de bom?

Foram apenas quatro jogos neste ano, mas já dá pra sentir o nível que jogará este super time. Na partida de estreia, na Arena Independência e com público de mais de 4 mil pessoas, o Sada Cruzeiro venceu o Juiz de Fora Imperadores por 26 a 8. Foi a primeira partida da temporada – muitos destes reforços ainda nem estavam atuando pela equipe – e o resultado mais modesto em número de pontos.

Na sequência, venceu os próximos dois jogos por placar elásticos: 109 a 0 contra o Betim Bulldogs (terceira maior pontuação da história do FABr) e 76 a 6 na semifinal contra o Araxá Red Wolves. Na final da Copa Minas, sagrou-se campeão pelo placar de 57×0 contra o Juiz de Fora Imperadores, mesmo time que enfrentou no início do campeonato.

sada cruzeiro - campeão copa minas 2017
Jogadores do Sada Cruzeiro comemoram o primeiro título da equipe (Crédito de foto: Chiarini Junior).

 

Apesar da taça estadual, esta fase da equipe mostrou uma coisa muito importante para o resto do Brasil: o Sada é um time que pontua. Em apenas quatro jogos, foram impressionantes 268 pontos feitos e apenas 14 sofridos. Na Superliga passada, o grande destaque da equipe campeã (Timbó Rex) foi justamente ter uma defesa muito sólida, então o confronto entre esse ataque eficiente e as defesas sólidas dos demais times promete grandes partidas em 2017.

O que aconteceu com os times que perderam estes jogadores?

Por outro lado, se o Sada Cruzeiro somou reforços, isso significa que outros times perderam atletas. A começar pelo Cuiabá Arsenal, que sem seu capitão e referência defensiva Igor Mota, acabou ficando de fora pela primeira vez da decisão estadual e apenas assistiu o Sorriso Hornets levar a taça.

Além dele, outro tradicional time do FABr que também ficou de fora pela primeira vez de uma final em seu estado foi o Coritiba Crocodiles: acabou derrotado pelo Brown Spiders na semifinal e viu o Paraná HP conquistar o bicampeonato. Tudo isso sem a ajuda de Dhiego Taylor em sua linha ofensiva.

No Corinthians Steamrollers, a coisa é um pouco diferente, já que mesmo com os esforços do WR VH Mega, a equipe já não vinha apresentando grandes resultados nos últimos anos. Mesmo assim, perde sua principal referência no ataque.

Victor Hugo Mega - Wide Receiver do Sada Cruzeiro
WR VH Mega anotou 3 touchdowns na final da Copa Minas 2017 (Crédito de foto: Chiarini Junior)

 

De uma forma geral, o que podemos afirmar é que o Sada Cruzeiro foi atrás de grandes e consolidados nomes. Com o desenvolvimento de atletas como plano a longo prazo, a equipe comandada por Daniel Levy vem sendo formada por nomes importantes e que chegam prontos para jogar e brilhar a curto período de tempo — mesmo que isso signifique o enfraquecimento dos demais times do país. Vale lembrar também que o futebol americano é um esporte extremamente coletivo, então estamos analisando estes resultados de maneira parcial, levando em conta apenas os talentos perdidos e não o conjunto da equipe e demais fatores.

Isso é bom para o desenvolvimento do esporte?

Este é o ponto crítico do texto e que está aumentando as discussões em diversos grupos de futebol americano: como considerar ruim o desenvolvimento profissional de uma equipe em um esporte ainda tão amador? É óbvio que todo mundo sonha com o futebol americano cada vez maior no Brasil, com os atletas sendo remunerados e valorizados pelo seu esforço e talento. É inquestionável que este é o objetivo comum.

O problema é que a existência de um time tão bem estruturado e tão descolado do contexto geral pode acabar causando alguns problemas. Nos últimos dois anos, vimos o Timbó Rex conquistar dois títulos estaduais e dois títulos nacionais perdendo apenas uma partida. Treino, trabalho, dedicação e esforço. Mesmo assim, a equipe se tornou uma potência tão elevada em relação ao resto, que tudo contribuiria para que a dinastia Rex durasse anos e o esporte em Santa Catarina ficasse cada vez mais concentrado na equipe de Timbó.

Não foi o que aconteceu, mas é o que poderia ter acontecido. Agora, com a chegada do Sada Cruzeiro na capital mineira, podemos avaliar que a existência da equipe como um “supertime” elevou ainda mais essa desigualdade no país. Como que você irá tentar convencer um atleta seu muito talentoso a ficar em um contexto amador se existe uma grande equipe disposta a oferecer tudo que ele sempre quis em outro lugar? Ninguém pode julgar uma pessoa por correr atrás do sonho dela.

O que acontece é que, aos poucos, o futebol americano de Minas Gerais vai se desfazer. Independente de problemas políticos na gestão/criação de uma competição estadual, as demais equipes “satélites” ao Sada Cruzeiro vão ter cada vez menos espaço justamente pelo time ter condições de disputar melhor os talentos da região. Assim, a torcida e aquele local serão voltados a um único e forte time — muito mais próximo da relação de franquias/cidades na NFL do que com o contexto brasileiro.

A régua pode ser puxada para cima, sim. Mas a partir do momento que uma equipe possui muito mais poder financeiro que outras para se estruturar em um contexto amador, a disputa começa a ficar injusta. Ou você acha que os tetos salariais da NFL existem por acaso?  

Claro que há pontos positivos. O mais claro é a qualidade de vida dos atletas que embarcam nesta equipe, que possuem todo o direito do mundo de viver intensamente seus sonhos e serem valorizados por isso. Além disso, a Seleção Brasileira de Futebol Americano também se beneficiaria bastante com tantos atletas de nível tão alto treinando e criando entrosamento diariamente.

Outro ponto positivo é a visibilidade do esporte em si. Afinal, dinheiro é poder (independente do esporte) e o Sada Cruzeiro está conseguindo se vender muito bem para a mídia e patrocinadores para atrair a atenção nacional para o esporte da bola oval. Talvez muitos não percebam, mas um time de muito sucesso que atraia o interesse popular em uma determinada região pode ser exatamente o exemplo que outra região precisava para dar atenção aos seus talentos locais.

De forma geral, é uma discussão longa, que não existe certo ou errado. O futebol americano no Brasil ainda é jovem e muitos de nós estamos vendo a história sendo feita, até que ela finalmente encontre um equilíbrio e comece a se repetir de maneira constante. Até lá, a criação destes “supertimes” e a profissionalização do esporte ainda serão temas muito debatidos e cada vez mais populares.

Crédito de foto: Chiarini Junior

10 comentários em “Ter um “supertime” como o Sada Cruzeiro é bom para o futebol americano no Brasil?

  • 27 de junho de 2017 em 12:10
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    Que matéria esdrúxula:
    1 – O time em questão ganhou o Estadual contra (algumas) equipes que disputarão a 2ª divisão do FA Nacional, assim como a mesma equipe acabou de subir da mesma.
    2 – O Cuiabá Arsenal jogou o Estadual com a Equipe 2, e você resume o fracasso apenas ao Igor ota não estar mais lá?
    3 – No esporte mais coletivo do mundo, você resume o “fracasso” em campeonatos estaduais de equipes com TRADIÇÃO no FA nacional, à contratações pontuais do time em questão?
    4 – Espero que não tenha esquecido que essa equipe não ganhou de nenhum time da 1ª divisão do FA nacional até hoje.

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    • 27 de junho de 2017 em 12:16
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      Oi, Jonas. Tudo bem?
      Então, eu entendo os seus pontos e peço perdão se não ficou claro. Quando escrevo “Vale lembrar também que o futebol americano é um esporte extremamente coletivo, então estamos analisando estes resultados de maneira parcial, levando em conta apenas os talentos perdidos e não o conjunto da equipe e demais fatores” eu estava justamente tentando relativizar isso. A perda de um talento individual certamente não definirá o sucesso ou fracasso de um time. Foi só uma circunstância que utilizei para analisar como perder um grande talento pode ser ruim para uma equipe, mas não quis dizer que isso é o motivo de um eventual fracasso/sucesso ou que a atribuição é toda esta.

      Quanto ao fato do Sada Cruzeiro só ter ganhado de equipes “mais fracas”, isso é verdade, mas é relativo. Não existem muitas equipes no Brasil que conseguem disputar vários jogos durante o estadual contra times da elite. Por isso, o resultado do estadual delas pode ser equiparado quando pensamos que os estaduais sempre foram de um nível técnico mais baixo – independente da região. O que é inegável, e isso que eu quis deixar claro no texto, é que a base do Sada é composta por grandes nomes do FABr e que é um time em que se colocam muitas expectativas e que desequilibrou bastante a maneira como enxergávamos as contratações no futebol americano nacional.

      Peço perdão se você se sentiu ofendido com algum aspecto da matéria, mas tentei deixar claro que ela é toda relativizada e que o importante era o debate sobre a existência singular de uma equipe assim em nosso contexto atual.

      Abraço

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      • 27 de junho de 2017 em 13:09
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        Uma questão que deve ser levantada na verdade é a regulamentação dos gastos das equipes. Com o tempo, o esporte não se autossustentará mais. Pra acontecer o que aconteceu com Corinthians e o Torneio Touchdown, com escândalos envolvendo até mesmo corrupção, a CBFA e os Clubes deveriam se regulamentar para termos um campeonato mais equilibrado e mais vistoso à todos (público, patrocinadores, mídia, etc.

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        • 27 de junho de 2017 em 13:11
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          Você acha que essa iniciativa de regulamentação deve vir das próprias equipes? Porque, ao que me parece por enquanto, as entidades responsáveis pela organização do esporte (CBFA e demais federações) ainda são muito “frágies” politicamente para conseguir implementar isso de maneira funcional.

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  • 27 de junho de 2017 em 12:52
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    Hoje no Brasil, estrutura, planejamento e organização fazem times ganhar de 100 x 00, ás vezes nem precisa trazer jogadores.

    O que o Sada Cruzeiro fez foi acelerar o processo de evolução da equipe. Trouxe atletas da seleção para auxiliar na implantação de uma nova cultura e um HC americano acostumado com o Brasil (dirigiu o Tritões).
    Em cima de uma cultura vencedora eles podem ir longe, mas hoje eles apenas ganharam de times novos na copa Minas.

    Se você for olhar pra Flamengo, Espectros e Vasco que são times que desde sempre levam 4-8 jogadores pra seleção brasileira com pratas da casa o Cruzeiro montou um time competitivo para o campeonato justamente por ter subido. Agora é ver o desenvolvimento do resto do elenco para ver a força do time na BFA.

    Sem dúvidas vai ser muito bom ver a que nível estarão.
    No quesito MKT e captação eles tem o privilégio de ser o time pioneiro nesse aspecto assim como o REX foi com as contratações e estrutura favorável para trazer atletas de outra região.

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  • 27 de junho de 2017 em 12:58
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    A equipe do Coritiba Crocodilles foi eliminada pelo Brown Spiders na semi-final e não pelo Paraná HP (que ganhou na fase regular).

    A equipe do Cuiabá Arsenal jogou o estadual com sua equipe de desenvolvimento.

    Enfim, apesar da intenção da matéria ter sido algo que é muito debatido nos corredores do FABr, sua matéria foi muito “pesquisa de gabinete”, deixando as subjetividade e internas do FABr de fora, algo fundamental no jornalismo esportivo.

    Essa crítica é pra ajudar a mídia de FA no Brasil, “vivam” o FABr no campo e não por internet.

    Abraço!

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    • 27 de junho de 2017 em 13:07
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      Obrigado pela sua crítica construtiva, Marck. Apesar de não ter deixando claro, ouvi algumas pessoas de dentro do FABr para escrever o texto. Vou corrigir a informação errada e pode ter certeza que levarei o que você falou em consideração para futuras publicações.

      Obrigado pelo feedback!
      Abraço

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  • 27 de junho de 2017 em 23:38
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    Achei uma boa matéria, mas acho que precisa acompanhar mais de perto pra poder estabelecer algumas afirmações que foram feitas no texto:

    primeiro: importante dar créditos ao Juiz de Fora Imperadores cuja diretoria também tá fazendo um excelente trabalho de contratações e desenvolvimento do esporte. O time formou-se pela fusão de duas equipes locais e tem um projeto sensacional de desenvolvimento de vários esportes no local, e a equipe de FA deles contava com uma penca de contratações de peso, inclusive jogadores de seleção brasileira. A diferença de trabalho entre ambos, no caso, é justamente trazer o benefício dessas contratações pra fora do campo, não só dentro dele. Ter os atletas no dia-a-dia de treino, acompanhar a evolução dos atletas de base e dos próprios contratados, incentivar a competitividade entre os atletas de forma que favoreça a evolução deles e da equipe e uma rotina intensa de treino, treino e mais treino.

    Segundo e mais importante: a equipe do cruzeiro sempre pensou, desde que era o Get Eagles, e ainda pensa hoje profundamente no desenvolvimento de atletas, seja de atletas sub-18, seja de atletas mais velhos que só descobriram o esporte tardiamente. Já desde o ano passado a equipe possui seu time de formação (que continua usando o nome de BH Eagles), que durante boa parte do primeiro semestre teve a chance de adquirir conhecimentos transmitidos por jogadores e comissão técnica da equipe principal. Só esse ano já foram feitas duas seletivas de peso, e uma série de atletas novos integraram o elenco vindo da base, além de inúmeros jogadores que estavam no time principal ano passado e continuam sendo parte dele esse ano, muitos como titulares, inclusive tendo atuações destacáveis pela equipe tanto nesse ano quanto em 2016 e demonstrando uma evolução física e técnica absurda desde a chegada do Coach Dan Levy e dos atletas contratados, que também acumulam muitas vezes a função de coordenador de posição, de forma que possam ajudar o restante do elenco a evoluir.

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  • 28 de junho de 2017 em 16:20
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    O Sada Cruzeiro so vai provar que esta a um nivel superior quando comecar a disputar a BFA. Na copa minas 4 dos 6 participantes eram estreantes. O Betim Bulldogs, so tem 1 ano de vida, 6 meses de treinos fullpad, a maioria so tinha acesso ao esporte pela tv. E mesmo essa semana ganhanos do Bh eagles em amistoso.

    Vamos aguardar e ver se o Sada e tudo isso que voces tem dito.

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