Rio 2016: Representatividade, inclusão e “superhumanos” na abertura da Paralimpíada

Menos de um mês depois dos Jogos Olímpicos, o Rio de Janeiro recebeu mais um mega evento no Maracanã com a abertura das Paralimpíadas 2016. Shows, fogos e muita música compuseram a emoção do início de um evento deste calibre, mas alguns pontos importantes fizeram falta (ou sobraram) se observarmos a apresentação com o olhar de uma pessoa com deficiência.

Faço, então, um relato vindo desta posição, mas também me colocando como alguém que tenta, ao se relacionar com o tema, ter uma atitude sempre positiva, sempre de crescimento. Assim, já digo: a abertura das Paralimpíadas me incomodou.

Nada de nós sem nós

Esta visão é estritamente pessoal, de alguém que espera ver a mudança acontecer logo. Que mudança? A que os atletas paralímpicos anunciaram no EsporteCast #10 como o maior legado que podemos ter: a inclusão. Já já vou falar mais dela, mas o fato é que foi difícil me reconhecer dentro de toda a festa.

Me reconhecer como pessoa com deficiência, me sentir representado no ápice do evento esportivo que é, por diversas razões, exclusivo para nós. O ponto, na verdade, é este mesmo. Para nós. Quem precisa aparecer, fazer parte, construir e constituir a Paralimpíada são justamente as pessoas para as quais ela se direciona. Logo, como me reconhecer nos diversos momentos onde foram as pessoas sem deficiência que tiveram protagonismo?

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O depoimento acima é de uma amiga e também pessoa com deficiência, psicóloga que, além de trazer a carga de sua vivência, estuda muito sobre esta área. E como é muito presente em seu discurso, e cunhado pelo movimento das pessoas com autismo, me aproprio aqui de uma expressão comum neste mundo: nada de nós sem nós. O que quer dizer isso? Quer dizer que para se falar sobre deficiência é preciso incluir as pessoas que a vivenciam todo dia, que sabem como é enfrentar barreiras, experienciar o estranhamento alheio, conviver em paz com o próprio corpo.

Quando a praia fictícia se lotou de pessoas em sua maioria sem deficiência, não se construiu uma ofensa, mas sim uma falta de lógica. O ponto é que, se a praia é de todos, que estejam então todos nela! Pessoas com deficiência física, intelectual, visual, auditiva, com autismo, em cadeiras de rodas, carregadas no colo, nos ombros, juntos a todas as pessoas sem deficiência. Em nenhum momento onde as poucas pessoas que estavam em cadeiras de rodas nesta cena circularam pelo palco me senti (eu, o Vinicius) representado. Aquela não é minha realidade, mas sim um ideal.

Incluir ou integrar?

Quando se fala sobre ambientes adaptados, rampas, elevadores, pisos podotáteis e afins, estamos falando daquilo que permite o acesso, algo de extrema necessidade e uma forma de chegar mais perto deste tal ideal. Mas vamos aqui fazer um exercício de aprofundamento rápido.

O projeto Bota do Mundo (foto ao lado), que leva crianças com deficiência física a conquistar o poder da caminhada, foi um dos maiores destaques da cerimonia. E com mérito, é realmente uma grande conquista. Porém, segue um caminho diferente da inclusão, busca valores mais próximos à integração.

Foto: Al Tielemans/OIS/IOC
Foto: Al Tielemans/OIS/IOC

Uma explicação breve: a integração é um movimento próximo da educação especial, que procura buscar a presença da pessoa com deficiência no mundo através de processos de reabilitação, seja ela fisiológica ou funcional, num pensamento de adequação da pessoa para enfrentar as adversidades que irá encarar no dia a dia.

A inclusão, por outro lado, quer fazer o caminho reverso de forças: ao invés de se reabilitar e adaptar a pessoa à condição do ambiente, se constrói o ambiente adaptável às diversas pessoas. Neste pensamento, as dificuldades estão na sociedade que, ao estar nos arredores das deficiências, criam barreiras para a vivência livre e completa do mesmo dia-a-dia.

Sim, eu sou um cara pró-inclusão, mas de forma alguma tiro o peso de importância da integração. Agora me pergunto (e a você também, leitor): por que existe a necessidade destas crianças utilizarem botas especiais para conseguirem andar? “Para ter mais liberdade”, é o principal pensamento. Em uma cadeira de rodas também se tem liberdade, mas ela sofre com diversos impedimentos presentes em diversos lugares. Logo, qual situação lhe parece mais coerente: é a criança que deveria andar com os próprios pés, ou o ambiente que deveria a receber, andando seja com pés ou com rodas?

“Superhumanos”: os humanos treinados

Constrói-se, assim, uma sociedade que coloca as pessoas com deficiência na condição de se adequarem sempre, de terem em suas costas o peso de sua própria diferença. A diversidade social, tão defendida atualmente, busca justamente quebrar estes pensamentos que culpabilizam a pessoa apenas por ela ser quem é.

Voltando ao esporte, os atletas paralímpicos sofrem muitas vezes o oposto do que imaginamos como preconceito, como quebra de individualidade. Ao invés de reduzi-los, os aumentam. Carlos Arthur Nuzman, em seu discurso de abertura, utilizou o termo “superhumanos” ao se referir aos atletas presentes na cerimonia. Ledo engano.

O argumento é justamente que eles também são humanos! Não menos, não mais. Não iguais, mas também não tão diferentes assim. Roubando as palavras do craque do basquete Oscar, aplica-se a mesma lógica dele aqui: “que mão santa o que, é mão treinada!”. “Que superhumano o que, é humano treinado”. Elevar um destes competidores ao nível “super”, “maior que todos”, “incrível”, nega por tabela todo esforço que eles colocaram nas horas de treinos, nas dores e sofrimentos que todo atleta de alto rendimento tem. Parece, assim, que essas pessoas têm o dom inato de serem incríveis, quando na verdade elas têm a habilidade construída a partir da dedicação.

Nem tanto pra lá, nem tanto pra cá

“Ah Vinicius, mas foi tão bonita a cerimonia. Como você é pessimista”. Sim, foi incrível presenciar o casal de cegos na apresentação de dança, o duelo máquina versus ser humano, a viagem da tocha pelas mãos das grandes lendas do passado, presente e futuro paralímpicos do Brasil. Não quero diminuir o evento, jamais. Em diversos momentos, como na ascensão de Clodoaldo Silva pelas rampas que surgiram em meio a escadaria que levava a pira, podemos perceber este deslocamento do peso da inclusão para o ambiente.

Quero aqui apenas fomentar discussões que precisam estar em pauta agora, neste momento. Não quero a mudança já, quero a construção da mudança já para que num futuro, quiçá breve, ela se concretize. O não conhecimento das situações que cerceiam os debates sobre deficiência no mundo é mais do que comum, é esperado. Mas que se levante, a partir de aberturas como esta da Paralímpiada, um diálogo sobre como pensar a sociedade com a presença das pessoas com deficiência. Não é uma crítica, é uma maneira de fomentar a curiosidade!

Foto destaque: OIS/IOC

Um comentário em “Rio 2016: Representatividade, inclusão e “superhumanos” na abertura da Paralimpíada

  • 16 de outubro de 2016 em 20:32
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    Vinicius, desculpe-me a ignorância…mas porque se faz dois eventos esportivos, as olimpíadas e as para olimpíadas? Qual é a “lógica”?

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