Rio 2016: Os dois lados do basquete brasileiro

Foto Destaque: FIBA/Divulgação

As seleções brasileiras vivem dois momentos distintos no basquete olímpico. Entre os homens, vemos frutos de um bom investimento durante dois ciclos de quatro anos, conquistando uma vitória importantíssima sobre os espanhóis, atuais campeões europeus e vice olímpicos. E, mesmo perdendo para a Lituânia, mantemos a possibilidade de classificação e retomamos a confiança para buscar uma medalha. No feminino, o oposto. O sentimento é de desesperança após a terceira derrota em três confrontos e a virtual eliminação.

Quem acompanha as partidas por cima, pode imaginar que a análise é fácil: somos bons no masculino e ruins no feminino. Porém, é possível compreender como as diferenças não se encontram no talento, mas na organização.

Os fundamentos coletivos

Clarissa, Joice e Damiris na derrota contra Belarus (Foto: FIBA)
Clarissa, Joice e Damiris na derrota contra Belarus (Foto: FIBA)

É um erro (e um pecado) dizermos que nosso basquete feminino é ruim. Érika, Clarissa, Damiris, todas atletas que merecem reconhecimento e respeito. Possuímos sim uma equipe forte e competitiva nos elementos individuais, o problema está no coletivo.

As questões de grupo no basquete, como o pick n’ roll, o bloqueio de perímetro, a dobra de marcação, são pontos que distinguem uma equipe entrosada ou não, são os medidores que acabam por diferenciar um time mediano de um time bom. São fatores do jogo coletivo essenciais e que colocam um time em condição de disputar medalhas ou  apenas de participar.

Quando estas atletas talentosas estão inspiradas, conseguimos fazer frente a fortes equipes – fizemos contra a Austrália, por exemplo. E então é fácil dizer que Iziane (que não citamos ali em cima) é uma grande jogadora, talvez a nossa melhor. Ela faz sim uma grande diferença quando seu jogo está a mil. E quando a bola não cai?

Bom, daí entra a estratégia. É para isso que se treina como equipe, para que o conjunto facilite a capacidade individual e supra os problemas do que está difícil. Um bloqueio no perímetro pode liberar alguém para um chute mais tranquilo, uma dobra na marcação pode anular uma adversária que esteja pegando fogo. Não vemos as pivôs subindo para trocar a marcação de quem está com a bola, procurando um duelo individual melhor no garrafão. Nossa defesa na área pintada falha ao fazer o box out, o movimento onde a atleta protege o rebote jogando o corpo contra a adversária. Vemos poucas trocas de passes diretas entre pivôs e alas, buscando espaço de infiltração.

O que ainda falta para elas?

Quando dizemos, então, que não somos uma equipe forte nestes fundamentos, queremos dizer que nossa equipe falha ao tentar colaborar coletivamente, muito por falta de preparação. Tudo sempre se resolve no individual. Me dê a bola, eu resolvo. Marco quem eu devo e você faz o mesmo. Somos cinco atletas numa quadra com o mesmo uniforme, não um time.

Não queremos aqui apontar erro da equipe técnica, das atletas, ou que faltou treinamento. Isso não se aprende de uma hora para outra ou se bota e tira conforme quiser. Tais fundamentos se consolidam conforme as atletas competem em alto nível, conforme elas se consolidam como melhores jogadoras com o tempo. O que se treina são os detalhes, mas o macro vem quanto mais competitivas elas possam ser.

O que falta, então, é ter competitividade. Aqui dentro, no Brasil, tivemos o mesmo problema no masculino, até a criação do NBB e toda reformulação do basquete nacional. Sem um bom campeonato feminino brasileiro, seguiremos nestes problemas.

A obediência tática dos homens

No masculino, por outro lado, temos muita tática. Somos aplicados sempre à nossa estratégia, muito coordenados defensiva e ofensivamente. E isso se paga quando vemos que a poderosa Espanha teve dificuldades de encarar nossa solidez nos dois lados da quadra.

Somos perfeitos então? Jamais! Por sermos tão ligados a um esquema específico de jogo, acabamos esquecendo do improviso no basquete, elemento fundamental. Em diversos momentos do confronto contra os espanhóis faltou criatividade ofensiva ao Brasil, conseguíamos defender muito bem, porém sempre sem pontuar porque não havia espaços e nosso 1 contra 1 é fraco. Contra a Lituânia, fomos encostar no placar somente quando Raulzinho e Leandrinho resolveram botar a bola embaixo do braço e acelerar o jogo. Como não se pode construir um bom time somente com individualidades, também é necessário ter quem queira a bola quando o coletivo é marcado.

Seleção comemora vitória sobre a Espanha (Foto: FIBA)
Seleção masculina brasileira comemora vitória sobre a Espanha em jogo apertado (Foto: FIBA)

Assim, podemos dizer que as seleções masculina e feminina se completam. Temos uma falta de protagonistas entre os homens, daquele cara que coloca a bola de baixo do braço e pontua sozinho, aliviando um momento de forte marcação do adversário.

Pensamos demais em ser pragmáticos, seguir o programado, e acabamos sendo previsíveis, principalmente no ataque. Leandrinho tenta ser um cara mais explosivo, tentando impressionar os adversários, mas comumente recorre ao ordenado na parte ofensiva.

Falta o ímpeto feminino na estratégia masculina para termos uma seleção de ponta, como podemos ter. Ainda assim, nossos fundamentos coletivos no masculino mostram como é importante ser bem estruturado e como o mínimo investimento dá resultados. Aliás, vamos investir no feminino, CBB?

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