Rio 2016: Não foi culpa do emocional

O vôlei brasileiro feminino tem um grande problema: o emocional. Na verdade, a dificuldade não está na equipe em si, mas em nós, torcedores. Temos a terrível mania de recorrer, sempre, ao mesmo pensamento quando não conseguimos o resultado esperado. “Foi culpa do emocional”, “faltou psicológico”, “perderam na cabeça”, são os comentários recorrentes. Não, não foi emocional.

O voleibol é, dos esportes coletivos que costumeiramente acompanhamos (tanto na TV como no Time de Fora), o que mais se apoia nesta definição. Não se levanta sem receber, não se ataca sem levantar, não se pontua sozinho, jamais. Fundamentos são, como sempre reforço por aqui, a base estrutural de qualquer equipe de vôlei. Estratégia, então, é o primeiro passo sobre esta base, é o início da construção de uma vitória.

Assim, entramos para encarar a China com uma ideia: volume de jogo, forçar bolas na ponta, matar com o meio quando o passe for A. Funcionou muito bem, tivemos uma ótima recepção e trabalhamos bem o saque-bloqueio-defesa-contra-ataque. Set fácil, 25-15.

Aí veio a maior jogadora de vôlei da história da China. Sentada no banco, Lang Ping mexeu, tirou daqui, botou ali, inverteu posição, desinverteu, fez o cavaco. Buscava encontrar o caminho perfeito e pegou a gente de surpresa. Com um jogo inusitado, três ponteiras e sem oposta, a China passou a proteger melhor a sua pérola, Zhu Ting, na recepção. Ela cobria uma parte pequena da quadra, recebendo sempre em boas condições e saindo para atacar. E virou de tudo. Ela passou a fazer a função de oposta, mas sem necessariamente fugir do passe. Palmas para as chinesas.

Foto: Divulgação/Facebook. Arte: Vinicius Schmidt
Foto: Divulgação/Facebook. Arte: Vinicius Schmidt

Zhu Ting atacava (28 pontos para ela), Zhang Changning (26 bolas salvas) e e Liu Xaotong (77% de acerto na recepção) defendiam. A equipe encaixou, nós quebramos. Nosso jogo sofreu nos bloqueios fortes da central Xu Yunli (18 toques de bloqueio), que passou a estacionar sempre nas pontas. Por quê? Nosso jogo de centrais desapareceu.

Dani Lins vinha fazendo ótimas partidas, elogiei absurdos sua atuação contra a Rússia, mas nos dois sets que perdemos em seguida ela esteve mal. Suas escolhas seguiram uma lógica diferente do que o jogo nos apresentava, a ponta estava superpopulada e a bola seguia indo lá. Nossas meios de rede, o grande trunfo deste time, estavam congeladas no ataque, perderam ritmo e caíram no saque e no bloqueio. Fabiana, nossa atleta mais completa e capitã, recebeu apenas 15 bolas em cinco sets (7 pontos de ataque) – por efeito de comparação, Fê Garay recebeu 41 bolas, Zhu Ting 58.

Nosso pouco uso das meios de rede forçou um jogo óbvio, que foi fácil de marcar, tanto para defesa como para o bloqueio chineses. Deixamos de virar contra-ataques, de ter chance de contra-ataque e, inevitavelmente, de virar até mesmo os ataques. No quarto set, quando a corda girou no pescoço, mudamos a postura. Forçar no meio, aliviar na ponta, crescer no bloqueio. Juciely entrou e aumentou nossa rede, tocando em 8 bolas de bloqueio (Thaísa, que era a titular, tocou somente em 10 com um set a mais jogado). Nosso saque, que vinha sempre caçando Zhu Ting, passou a variar nas mãos de quem sabe forçá-lo, como Sheilla e Fê Garay, quebrando mais o passe das adversárias. Reequilibramos a partida, como havia feito a China no começo, e fomos para o tie break.

O placar de 15-13 no set final corresponde com a igualdade vista dentro de quadra. Erramos em certas decisões, e elas também. Sentimos o emocional? Claro! Elas também. O ponto é: não foi culpa do emocional que perdemos, a parte psicológica afetou as duas equipes. Nós poderíamos ter fechado em 3-0, elas em 3-1, mas ambas tremeram. O diferencial esteve na estratégia, nos fundamentos, nas escolhas. O vôlei não é um esporte onde “somente quem está melhor vence”, é preciso compreender a estratégia de jogo, onde se erra ou se acerta, e como se trabalha com a bola em equipe. As emoções podem nos tirar de um jogo (ou nos devolver para ele), mas desta vez não foi por culpa delas que perdemos. Fomos derrotados no jogo.

Foto: CBV

Um comentário em “Rio 2016: Não foi culpa do emocional

Deixe seu comentário: