Rio 2016: Crônica de uma partida assombrada

A rainha do futebol assistia em prantos à última cobrança de pênaltis da jogadora australiana. Ela havia errado, chutado fraco, cobrado mal e toda a pressão de ser a craque do esporte para um Brasil inteiro incomodava. Com o alívio na defesa da goleira, a disputa seguiria em chutes alternados, ela assistindo ajoelhada na linha que divide os campos ao meio no círculo de onde começou aquela partida.

Com certeza passou pela cabeça o momento de pouco mais de um ano atrás: a derrota para a mesma seleção, na mesma circunstância de ter três jogos de fase de grupo convincentes e chegar na primeira partida eliminatória e amarelar. Amarelar? Será que se considera amarelar o fato de nunca ter seu trabalho reconhecido e agora carregar o peso de uma nação nas costas, na cabeça, nos pés? Guerreiras, humanas, mulheres, que nunca dividiram a glória dos holofotes e nem dízimos do R($)econhecimento que os homens receberam, sentindo a pressão por um resultado que elas, e só elas, devem a si mesmas. Depois de lutar para jogar futebol, enfrentar o preconceito e o machismo a cada esquina, ouvir que o seu esporte e o seu talento não serve no nosso país, será que elas devem alguma coisa a nós, torcedores? Só devem a si mesmas, por mesmo assim continuarem sendo uma das melhores equipes do mundo e seguirem na raça e na superação diárias.

Pelo toque no limite dos dedos, a goleira Bárbara reascendeu a esperança no coração de Marta. Então, uma cobrança após a outra. A aflição na torcida a cada jogadora brasileira que pisava no terreno da grande área e a sensação de que todos ali prendiam a respiração. Convertemos todos nossos pênaltis. E elas também. Uma. Duas. Três vezes. Então, na possibilidade de 50%, Bárbara novamente acertou o lado e voou para a bola então confirmando que o fantasma do ano passado não se repetiria. Marta e nossas outras 17 craques avançaram sob os olhos de um Brasil que não merece o futebol feminino que tem.

Será que a nossa hora é agora? Mais cedo no mesmo dia, a notícia de que a única equipe que nunca deixou de estar presente em uma final fora eliminada. O grande Estados Unidos, da melhor jogadora do mundo, das atuais campeãs mundiais, sucumbiram nos pênaltis ao futebol cirúrgico e defensivo da Suécia. A mesma equipe da qual ganhamos na fase de grupos. Que isso se repita. Se for mesmo a nossa hora, ou se também não for, essas mulheres devem receber todo o reconhecimento e o amor do mundo. Elas merecem, não importa se houver uma medalha no seu peito. Ironicamente, na casa onde não as reconheceram, mas finalmente no maior evento esportivo do mundo.

Crédito da foto principal: Mariana Bazo/Reuters

 

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