Rio 2016: A beleza tática do futebol feminino

Nesta sexta-feira, duas partidas definiram o pódio do futebol feminino. Em São Paulo, o Canadá venceu o Brasil por 2 a 1, conquistou seu segundo bronze consecutivo e se consolida cada vez mais na modalidade. Já no Maracanã, Alemanha e Suécia travaram um duelo estratégico na disputa pelo ouro, onde mais de 70 mil pessoas presenciaram um jogo estudado, tático, com gols e duas seleções fazendo história: as alemãs conquistaram seu primeiro ouro, as suecas conquistaram sua primeira medalha. E que medalha.

Depois de uma primeira fase titubeante de sua seleção, que passou como uma das melhores terceiras colocadas, a técnica sueca Pia Sundhage repensou seu jogo e arrumou a defesa. A ordem era se posicionar atrás da linha da bola num 4-5-1 e manter as duas linhas (de quatro e cinco jogadoras) intáctas. Ataque só em saídas rápidas com Schelin, Bleckstenius e Hammarlund. Foi assim que elas conseguiram o primeiro gol contra os EUA, partida que depois venceram nos pênaltis. Foi assim que tentaram surpreender o Brasil , mas a ótima dupla de zaga composta por Rafaelle e Mônica não deu grandes chances e a partida foi decidida nos pênaltis, também a favor da Suécia.

Para a decisão, elas vieram com a mesma postura, mas as alemãs também tinham sua estratégia. A técnica Silvia Neid veio com a proposta de tocar a bola para encontrar espaços entre as linhas defensivas das adversárias. Colocou a meia Marozsan com liberdade total para circular, seja buscando a bola na defesa, seja aparecendo no ataque apoiando a centroavante Popp. Apesar do 0 a 0 do primeiro tempo, elas tiveram boas chances de abrir o placar, como postei durante o jogo.

Apesar da falta de gols do primeiro tempo, o plano tático da Alemanha deu resultados logo no começo do segundo. O que faltou para EUA e Brasil não faltou para as germânicas, que abriram o placar em uma das raras saídas da Suécia para o ataque. Na recuperação alemã, elas aceleraram o jogo e pegaram a defesa sueca desarrumada e voltando. A bola foi mal cortada, sobrou no pé de Marozsan e aí já era. Golaço!

Sair na frente do placar foi crucial para a Alemanha. A Suécia tentou manter o esquema, mas alguns espaços começaram a aparecer. Foi assim que surgiu a falta que originou o segundo gol (contra, em um erro grotesco da zagueira Sembrant). Depois disso a Suécia se mandou para frente, diminuiu e teve chance do empate. Não conseguiu. Ficou o gosto agridoce da prata, da conquista que veio com uma derrota. Mas que não tira a história que fizeram ao eliminar os EUA e a seleção da casa.

A história também foi escrita pela Alemanha, com a sensação bem mais agradável da vitória, como descreveu a zagueira Josephine Henning.

Ainda dá tempo

Ao assistir duas partidas direto no estádio, ficou ainda mais clara para mim a evolução tática do futebol feminino. Se houve um tempo em que o Brasil ganhava com a habilidade de Marta e a canhota calibrada de Cristiane, não existe mais. O mundial de 2015 no Canadá já havia demonstrado isso. As Olimpíadas do Rio deixaram mais evidente: ainda temos o melhor pé de obra, mas precisamos de tática.

Para isso, não basta pegar um técnico do masculino e colocar entre as mulheres. O esporte é o mesmo, mas as características são diferentes. Além disso, se no masculino o Brasil não está servido de bons técnicos, por que um deles deveria dirigir a seleção delas? Por que não tentar desenvolver um trabalho com quem conhece? Que tal desenvolver uma escola brasileira no futebol feminino?

É difícil pensar positivo com a CBF no comando. É difícil pensar positivo quando elas não têm o mínimo de estrutura nem campeonatos decentes. Porém, são questões que merecem atenção e isso as Olimpíadas proporcionaram. Que tal começar atendendo a um pedido da rainha? No país que se diz “do futebol”, isso deveria ser tido como uma ordem.

Foto destaque: Andre Borges/Agência Brasília

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