Rio 2016: A consolidação do judô feminino e uma retratação à Edinanci

Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CBJ

Com o fim das Olimpíadas, o judô fechou como o segundo esporte que mais deu medalhas ao país. Foram 22 (4 de ouro, 3 de prata, 15 de bronze), uma a menos que o vôlei (somando quadra e praia), o que não tira em nada os méritos da galera do tatame.

Desde Munique em 1972, quando conquistamos o bronze com Chiaki Ishii, o Brasil evolui constantemente na modalidade, tanto que, desde Los Angeles 1984, não deixa de subir ao pódio em olimpíadas, desempenho que nos colocou no mapa do judô mundial, sobretudo com as conquistas de Aurélio Miguel em 1988 e Rogério Sampaio em 1992.

Até 2008, essa história era contada apenas pelo homens (ou era o que aparecia), mas desde os jogos de Pequim, as conquistas das brasileiras fizeram do país uma potência também no feminino e protagonizam os últimos capítulos dessa tradição.

Ketleyn Quadros (bronze – Pequim 2008)

Foi ela quem mostrou que era possível, não só para as judocas, mas para todas as atletas. Ketleyn foi a primeira mulher do país a conquistar uma medalha em esportes individuais. O bronze na categoria leve (até 57 kg) foi seguido, dias depois, pelo ouro de Maurren Maggi no salto em distância, o que torna ainda mais relevante a importância da judoca.

Da infância pobre em Ceilândia (cidade satélite de Brasília) ao bronze em Pequim com apenas 20 anos de idade. Hoje ela continua lutando e inspirando atletas. “Isso mostrou para elas que todas são capazes, eu fui fonte de motivação para elas por um tempo e hoje elas são fonte de inspiração para mim e todas crescem juntas assim”, disse em entrevista à EBC.

Sarah Menezes (ouro – Londres 2012)

Quatro anos depois de Ketleyn Quadros conquistar o bronze, Sarah Menezes subiu um degrau. Na verdade foram dois, pois ela conquistou o ouro na categoria ligeiro (até 48 kg). A primeira conquista das mulheres no tatame veio pelas mãos de uma piauiense que representa muito seu estado, que tem o terceiro menor IDH do país.

Sarah e o wazari da vitória em Londres

Sarah não larga o Piauí de jeito nenhum, mesmo com as dificuldades que morar fora dos grandes centros a impõem, da falta de acompanhamento dos treinadores da seleção ao controle do peso. Saiu do estado natal na reta final de preparação para as Olimpíadas desse ano, mas certamente voltará para o lar, afinal ela luta também pela sua gente.

Aliás, na Rio 2016 ela lutou muito. Perdeu nas quartas de final, voltou na repescagem. Lutou e levou uma chave de braço a 20 segundos de acabar a luta, mas, literal e metaforicamente, não deu o braço a torcer. No fim, não conseguiu o bronze, mas seu nome já fora marcado na história do país quatro anos antes e com espaço para mais capítulos.

Mayra Aguiar (bronze – Londres 2012 e Rio 2016)

Ippon garantiu o bronze em 2012

Mayra é a primeira mulher dos esportes individuais com medalha em duas olimpíadas consecutivas. A gaúcha foi bronze em sua primeira participação e também na segunda, incluindo um título mundial em 2014, todos na categoria meio-pesado (78 kg). Hoje, com apenas 25 anos, Mayra coleciona resultados expressivos que vêm desde a prata do Pan do Rio, em 2007, quando tinha apenas 16 e perdeu para Ronda Rousey na final (parece que o Rio faz bem para ela). De lá, cresceu, assim como suas conquistas e deve continuar crescendo. Quem sabe a terceira medalha em Tóquio 2020 não vem de uma cor diferente.

Rafaela Silva (ouro – Rio 2016)

Wazari do o ouro de Rafaela Silva na Rio 2016

A história da judoca da Cidade de Deus já foi contada, recontada e continuará sendo durante muito tempo, afinal de contas, a primeira medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas do Rio veio com ela. Mais do que ter nascido em uma comunidade carente da capital fluminense, ser negra (sofrer com isso há quatro anos) e homossexual torna ainda mais marcante a tarefa de Rafaela, não no tatame, mas fora dele. Apesar disso, o judô – por meio de um projeto social na desenvolvido na sua comunidade – ofereceu a oportunidade e ela agarrou com unhas e dentes. Hoje, Rafa é atleta, estudante de psicologia e medalhista de ouro.

À mestra, com carinho

Quem acompanha o judô, mesmo que apenas a cada quatro anos (como a maioria de nós), certamente já percebeu uma treinadora vibrando e comemorando euforicamente ao lado do tatame e, às vezes, levando uma enquadrada do juiz. Os largos gestos e instruções aos gritos são tão incomuns nos jogos quanto técnicas mulheres e foi justamente a chegada de Rosecleia Campos que mudou o status do judô nacional.

Rosicleia Campos no Mundial 2014

A “Tia Rosi” chegou à seleção em 2006 e o seu impacto foi imediato. Cada uma das conquistas citadas tem a mão dela. Tem também a de outros técnicos da seleção, mas Rosicleia trouxe um algo a mais. “O que tem meu dedo é a unidade. Tenho certeza de que esse é o meu legado no judô. Venho de uma época em que as atletas competiam internamente, torciam uma contra as outras. Hoje nós somos uma equipe unida. Juntas, somos fortes”, contou em entrevista ao Jornal o Dia

Obrigado, Edinanci

Por fim, aproveito o espaço para fazer uma reparação histórica, pois, mesmo não sendo especialista em judô, dá para afirmar que ela foi a maior representante do judô feminino do país durante muito tempo e fonte de inspiração para todas as medalhistas citadas. Inclusive, ela fazia parte do grupo de 2008, o mesmo de Ketleyn Quadros. Foi sua quarta e última participação olímpica.

Edinanci Silva estreia com ippon em Atlanta 1996

Infelizmente, a maioria do público brasileiro não reconhece a importância de Edinanci para o esporte. Aliás, o público a massacrou durante anos por causa de sua intersexualidade, em 1996. As piadas eram recorrentes. Lembro dos adultos, de mim (com menos de 10 anos) e até programas de TV. Talvez por isso, ela preferiu o esquecimento. mas um ótimo texto do site Papo de Homem fez muita gente (eu, inclusive) lembrar e reconstruir a imagem dessa histórica esportista.

Aliás, Edinanci também é Silva. Silva como Rafaela. Silva como o judô. Silva como o Brasil. Brasil que não a respeitou apenas por ser diferente. Quem sabe agora, depois de tantos feitos olímpicos do judô feminino, receba o reconhecimento que merece. Merece antes um pedido de desculpas de todos nós. Antes tarde do que nunca.

Desculpa, Edinanci, e muito obrigado!

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