Rio 2016: A dúvida boa nos meios de rede

Todo técnico, independente da modalidade, vai passar pelos momentos de “dor de cabeça”. Um craque sai por lesão, outro pede pra não ser convocado, o time tem uma peça essencial em falta, tem pouco jogador no banco, e por aí vai. No nosso vôlei, tanto masculino como feminino, a dor de cabeça é na parte central. Porém, é uma daquelas dores boas, que mostra como a gente evoluiu no curto período de preparo olímpico e realmente se estabeleceu como favorito ao ouro.

Zé Roberto e Bernardinho têm a sua disponibilidade três meios de rede de elite e apenas duas vagas na equipe para encaixar.

centrais feminino
A dor de Zé: bloqueio ou ataque?

No feminino, as opções são Thaísa, Juciely e Fabiana. Deixemos claro, a dúvida está entre Jucy e Thaísa, Fabi é titular absoluta. Assim, as opções são: bloqueio forte e regularidade ofensiva ou poder total no ataque.

Juciely é uma atleta que já recebeu elogios por aqui durante o Grand Prix por sua habilidade inumana de ler a levantadora adversária e sempre (é sempre mesmo) tocar na bola de ataque, facilitando, claro, nossa defesa. Ganhamos assim mais volume, mais segundas chances de virar ou primeiras de contra-atacar, num estilo que nos diferencia bastante das atuais equipes das Olimpíadas. Jucy também é uma boa atacante, regular em suas conclusões, principalmente na china atrás.

Thaísa, porém, é um monstro ofensivo. Também já foi lembrada aqui, também durante o Grand Prix, onde se consolidou como nossa principal arma ofensiva, mais acionada até que Sheilla e Natália em alguns momentos. Ela marca seus pontos de bloqueio também, mas este fundamento de sempre incomodar a atacante adversária não é muito presente em seu leque de habilidades, o que coloca mais peso na nossa linha de passe. Ainda assim, o alívio que Thaísa traz no ataque compensa, tirando a responsabilidade de virar as bolas mais difíceis somente das costas das pontas e da oposta.

Zé deve optar por colocar Thaísa, que retorna de lesão e precisa de ritmo para estar bem nos playoffs. Durante toda a preparação, foi ela quem assumiu a titularidade, mas não me impressionaria Juciely aparecer em alguma partida onde nossa defesa esteja sofrendo.

Assim, Fabiana e Thaísa devem ser as titulares.

centrais masculino
A dor de Bernardinho: momento ou… momento?

Entre os homens é briga geral. Maurício Souza, Éder e Lucão passam todos por ótimas fases, e a dor de cabeça aqui será mais aguda. Um saca, outro bloqueia e outro ataca, dava até de montar um time só com eles.

Maurício Souza foi protagonista de uma comemoração geral após a sua convocação, tanto da torcida como dos atletas brasileiro, pela grande Liga Mundial que fez. Machucado, o central agora se recupera e deve estar disponível no próximo confronto do Brasil, sendo mais uma vez o foco da história. Bloqueador nato, lembra muito o estilo de Jucy e foi justamente esta constância dos toques na rede que tranquilizou nossa complexa linha de passes. Agora parece que arrumamos bem a recepção e a defesa, porém nunca é demais contar com volume de jogo – é ele quem define o ritmo e, hoje, vôlei masculino é puro ritmo.

Éder passou a ser uma arma essencial para nossas campanhas. Seu saque é o momento onde nós comumente abrimos o placar (ou encostamos quando estamos atrás) e além de toda potência, seu serviço vem mostrando regularidade. Contra México e Canadá foi possível perceber como o (de novo) ritmo da titularidade melhorou este fundamento do meio de rede e o fez consolidar outras ferramentas, como o ataque e o bloqueio, que cresceram demais nas últimas semanas.

Lucão era o cara que vinha mostrando o voleibol menos consistente. Ele nos preocupou após sentir o joelho contra o México e o que quer que tenha sido feito com ele durante a recuperação funcionou. Aquele Lucão que brilhou na Superliga, nas Ligas Mundiais, e encantou a torcida estava novamente presente no Maracanãzinho contra os canadenses. Altíssimo aproveitamento de ataque, saque calibrado e bloqueio ágil, um central que deu gosto de ver e acirrou a briga pela vaga na equipe principal, por ser justamente um atleta completo, elite em todos os fundamentos.

O momento era todo de Maurício Souza antes da lesão, mas a situação agora é para qualquer um. Com Éder e Lucão temos um saque muito forte, o que libera os outros atletas para não arriscarem tanto neste fundamento e buscarem um ritmo melhor. Com Lucão e Maurício temos muita solidez em quadra através de ataques e bloqueios, porém perdemos em força de serviço, colocando responsabilidades nas mãos ou de Lucarelli ou de Wallace – uma opção aqui é trabalhar com Éder somente no serviço, inserindo ele no lugar de Maurício quando ele passar pelo fundo de quadra (uma ótima opção). Com Éder e Maurício (minha formação preferida), conseguimos o saque forte de um e o colocado do outro, bloqueio e ataque regulares, mas perdemos a genialidade e o entrosamento de Lucão com toda a equipe – principalmente Bruninho.

Assim, a decisão fica totalmente nas mãos (e na cabeça) de Bernardinho, de utilizar as melhores armas em cada circunstância.

Conclusão disso tudo? Temos, nas duas seleções, os melhores corpos de centrais das olimpíadas, passando as dores de cabeça de verdade para os nossos adversários.

Fotos: CBV

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