O racismo nos EUA pelo olhar de um negro norte-americano

Monterill Dupree Anderson Jr., 25 anos, de Seattle, Washington. Mais um dos atletas dos Estados Unidos que vieram para jogar no FABr. Hoje no São José Istepôs, Monte (como é chamado pelos amigos) sabe bem como é o racismo nos EUA. Tanto no esporte como em sua vida pessoal, ele lidou com questões raciais desde pequeno.

Como tantos outros atletas da NFL, ele também já se negou a ficar de pé no hino nacional e entende que a discussão atual nos EUA é de suma importância. Se quisermos entender como o preconceito existe por lá, e como o racismo no esporte se consolidou, nada melhor que ouvir de quem viveu ele na pele.

Conte sobre a sua vida. O racismo se fez presente nela?

Martin Luther King racismo no esporte
Martin Luther King. Foto: via Visual hunt

Sim, principalmente vivendo nos EUA. Crescendo em Seattle, Washington, existe uma mistura, mas a maioria das pessoas são brancas. O que você vê é uma grande quantidade de pessoas que nunca tiveram contato com afro-americanos, então eles usam o que conhecem da mídia, música e filmes como padrão para todos os negros, todo mundo que é mais escuro que eles. Você cresce ouvindo piadas raciais, pessoas que te tratam diferente porque têm uma pré-concepção sobre você.

Eu lembro de uma vez que eu e meus amigos estávamos saindo da biblioteca, a noite, e um rapaz que vinha na direção oposta cruzou a rua quando nos viu. Da perspectiva de uma pessoa que nunca teve contato com diferentes cores, ele podia estar pensando “ah, eles vão me roubar, me machucar”. Se via muito isso na faculdade, apesar de que a faculdade onde eu estudei ter uma grande diversidade, filipinos, asiáticos, mexicanos. Você encontrava um pouco de tudo.

Agora sobre o kneeling, é porque nos EUA, nos últimos 5 ou 6 anos, você ouve sobre assassinatos de jovens afro-americanos que não estavam fazendo nada de errado. Tanto pela polícia como por brancos, e eles dizem que foi legítima defesa. Mas existem evidências que essas pessoas não faziam nada, não estavam envolvidos com gangues. Mas o assassino sai livre. As pessoas estão tentando chamar atenção para isso.

A minha opinião é de que as pessoas não sabem seguir, e todos querem liderar. Se você voltar ao Civil Rights, todos colocaram suas diferenças de lado por um mesmo objetivo, então quem era o melhor orador, que possuía a melhor plataforma, era o líder. Martin Luther King, Malcom X, grandes oradores, eles tinham a visão e as pessoas seguiam. Eu acho que o que acontece hoje é bom, mas se as pessoas não se unirem na mesma ideia, não pensarem o mesmo sobre injustiças raciais, isso tudo vai quebrar como já aconteceu no passado.

Então você acha que as pessoas buscam o mesmo objetivo?

Eu acredito que a NFL é a melhor plataforma para essa discussão, porque na essência todos fazem o mesmo: ajoelhar e não ficar de pé para um país que não protege você como uma pessoa negra. Só que as pessoas precisam entender que existe algo maior em jogo, que não fazem isso pela atenção pessoal ou da mídia.

Donald Trump já se pronunciou contra o movimento. Existe espaço para esse diálogo ou teremos mais Kaepernicks na NFL?

Eu vejo que há espaço para o crescimento, mas é como jogar num time de futebol americano. Se o objetivo não é disputar o título, se um jogador do elenco não estiver com esse ideal em mente, tudo vai abaixo. Eu acredito que o poder nos EUA tem medo. Se os negros na NFL podem protestar e manter seus ótimos empregos, o que impede alguém na Casa Branca, por exemplo, de fazer o mesmo?

Monte Anderson racismo nos EUA
Monte jogando nos playoffs escolares. Foto: arquivo pessoal

E como você vivenciou o racismo no esporte?

Na faculdade, o racismo foi o motivo que me levou a parar de jogar. Nosso técnicos deixavam os jogadores falarem a palavra com N em campo e isso nos incomodava. Só que nós sempre saíamos como os vilões porque brigávamos, reclamávamos. Era um grande projeto, o da minha faculdade. Mas, a falta de suporte da equipe era indicação suficiente de que a gente não deveria estar lá.

Você trabalhou em um projeto social na faculdade?

Sim, eu comecei a Black Students Union (União dos Estudantes Negros), que estava sem atividades fazia mais de 15 anos. Nós tínhamos alguns problemas raciais na faculdade, então montamos esse programa. Era para ser um lugar para afro-americanos virem e relatarem seus problemas no dia a dia, as coisas pequenas. Era um respiro para todo mundo, falar com alguém que passa os mesmos problemas que você passa.

O projeto ficou tão popular que várias pessoas passaram a acompanhar as reuniões: asiáticos, mexicanos, havaianos. Até mesmo brancos queriam estar lá, somente para ouvir as histórias e entender o que nós estávamos passando. Fiz isso durante dois anos, era bom ver um espaço em que ninguém te enxerga pela aparência, mas apenas querem te ouvir.

Monte Anderson Black Students Union racismo no esporte
Monte e seus amigos da BSU. Foto: arquivo pessoal

Você acha que o racismo transcende os indivíduos, é algo maior que uma pessoa apenas?

Nos EUA, eu sinto que o racismo está preso no jeito das pessoas. Você é ensinado, desde muito novo, a odiar e julgar as pessoas. E não são só os brancos. Crescendo eu via estereótipos como “todo asiático é inteligente, bom em matemática”, “todo mexicano come burritos”, “nenhum branco sabe dançar” (risos). Alguns são mais pesados que outros, especialmente no sul dos EUA.

Muitos estão presos nesses pensamentos de que o país precisa ser branco, que pessoas de outras cores deveriam ir para sua terra natal. Eu nasci nos EUA, essa é a minha terra natal. A única forma de mudar isso é se as pessoas tomarem a decisão de que não querem mais viver dessa forma, mas é difícil. Quando você é ensinado a odiar negros desde pequeno, quando chegar aos 30 anos vai ter dificuldades de pensar diferente.

Donald Trump racismo no esporte
Donald Trump e suas redes sociais. Foto: Photo credit: cornstalker via Visualhunt / CC BY

Qual o papel de Donald Trump nisso?

Ele representa que ficar preso no mesmo pensamento é bom. E as pessoas aceitam isso. Sinceramente, de várias formas ele está piorando a situação. Ele está permitindo essas ideias raciais serem mais abertas.

Donald é muito aberto, ele é o único presidente que está no twitter a cada duas horas. Ele faz parecer legal, que você pode falar o que quiser desde que não haja violência. Ele é permissivo, faz com que ideias e discursos racistas simplesmente circulem, como se fossem uma conversa normal.

Te assustou o suporte que ele ganhou quando se candidatou?

Não, na verdade eu falei que ele ia vencer. Se você não vive nas grandes cidades dos EUA, você provavelmente pensa como Trump. As pessoas antes tinham medo de falar coisas racistas, de parecer racista. Agora, com Donald, eles dizem o que querem e chamam isso de liberdade de expressão.

A eleição de Trump tem algum peso na sua mudança para o Brasil?

Um pouco, sim (risos). Eu não queria ser parte daquilo. Quando eu estava crescendo, eles obrigavam a gente a fazer a promessa de aliança (pledge of allegiance) à bandeira, e eu nunca fiquei de pé para isso. Quando te ensinam história nos EUA é sempre pela perspectiva branca e eu tive um professor que mudou isso. Falou de asiáticos, negros, mexicanos, e, claro, de brancos também. A partir daí eu pensei “por que eu vou prometer aliança para um país que sistematicamente oprimiu povos, e prova todo dias que não há igualdade?”. Os professores me diziam que eu não tinha razão, que eu devia estar de pé porque meus antepassados foram escravos e agora eu não sou, e isso é igualdade. Mas não é!

Monte Anderson racismo no esporte
Monte Anderson e seus irmãos. Foto: arquivo pessoal

Foto destaque: arquivo pessoal

Um comentário em “O racismo nos EUA pelo olhar de um negro norte-americano

  • 7 de novembro de 2017 em 12:23
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    MUITO boa a abordagem sobre o tema , otimas questões levantadas….o que nos leva a refletir…Parabéns

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