Quem dá a mínima se foi falta sem intenção?

Fomos criados sob a monocultura do futebol, esporte que tem grande parte de suas regras baseadas no propósito do atleta infrator. Por exemplo, se uma bola é cortada com a mão ou braço, o árbitro da partida tem que interpretar se foi proposital ou falta sem intenção. Esse é um caso mais corriqueiro, em que o resultado, quando mal interpretado, é “apenas” esportivo. Mas e quando um lance desses pode prejudica diretamente a saúde de outro atleta, deveríamos contar apenas com a intenção? Para mim, não.

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Recentemente tivemos dois casos bem icônicos desse tipo de jogada em esportes diferentes. Na quinta rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol, o zagueiro Wanderson, do Atlético Paranaense, foi atingido por um chute no rosto ao cortar a bola antes de Renato, do Fluminense, dar uma bicicleta. Ele caiu desacordado no gramado, recuperou a consciência ainda em campo e saiu de ambulância direto para o hospital. O jogador foi diagnosticado com uma concussão e está em recuperação.

fluminense atlético pr bicicleta
Wanderson do Atlético-PR foi levado direto para o hospital e está em recuperação

O outro caso foi no primeiro jogo das finais da Conferência Oeste da NBA. O craque do San Antonio Spurs, Kawhi Leonard, subiu para um arremesso da zona morta. Na queda, caiu no pé de seu marcador, o pivô Zaza Pachulia, do Golden State Warriors. Ele cobrou os lances livres da falta, mas a torção o tirou do resto da partida e do campeonato.

Kawhi Leonard Zaza Pachulia contusão tornozelo Spurs e Warriors
Spurs perdeu Kawhi e uma vantagem de 23 pontos no Jogo 1 das finais do Oeste

Falta sem intenção e com intenção, isso realmente importa?

O primeiro lance, claramente foi uma falta sem intenção. No segundo, não podemos afirmar se foi proposital. Isso não deveria importar, mas para punir os infratores a intenção importa. Parece injusto, principalmente se pensarmos que Atlético Paranaense e San Antonio Spurs também saíram prejudicados. O Furacão já tinha feito suas três substituições e jogou com um atleta a menos durante mais de 15 minutos. Além disso, Wanderson ficará de fora da sexta rodada, enquanto Renato tomou cartão amarelo.

Já o Spurs perdeu seu melhor jogador, que já estava com o tornozelo lesionado e agravou a lesão após o lance com Pachulia. Além disso, o time perdeu a partida que vencia por 23 pontos de diferença. Perdeu também a série melhor de sete por quatro a zero. Zaza continuou atuando e está prestes a ser campeão jogando como titular do Golden State Warriors.

O caso foi discutido por toda a comunidade do basquete e prontamente condenado por Gregg Popovich, técnico de San Antonio e da Seleção Americana de basquete. O técnico falou especificamente de Zaza e seu histórico de faltas sujas. “Como ele tem esse histórico, nós não podemos ficar: ‘ele não teve intenção’. Quem dá a mínima para a intenção dele?”. Na continuação da entrevista, bem exaltado, ainda comparou a falta sem intenção a casos de homicídio culposo.

Comparações exageradas à parte, destaco uma fala de Popovich: “quem dá a mínima para a intenção?”. Nesses casos, o prejudicado não foi o time infrator, mas aquele que sofreu a pena. Além disso, a saúde dos atletas foi colocada em risco por uma imprudência. Claro que existem casos em que o “sem querer” deve ser levado em conta, mas as regras têm de proteger a saúde dos envolvidos acima de tudo.

Nesse caso, as regras deveriam prever punições severas a jogadas que podem causar lesões graves. De tesouras e carrinhos por trás no futebol, a pezinhos e cotovelos no basquete, se foi falta sem intenção ou não, isso não deveria contar, mas sim a consequência que esse tipo de jogada pode trazer.

Exemplo do futebol americano

É isso que a NFL faz a cada ano, mudando suas regras para preservar mais a saúde do atleta. Há várias que restringem situações de contato com o capacete, tackles em jogadores desprotegidos, tackles pelo colarinho ou pela grade do capacete. E estas são modificadas ano a ano, inclusive para a próxima temporada que começa em agosto: pancadas na cabeça de jogadores indefesos serão expulsão automática.

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Gol de Luiz Antônio contra o Grêmio pela 5ª rodada do Brasileirão

É com regras objetivas que os atletas vão se condicionando a evitar lances que podem causar risco a seus colegas. Não adianta punir apenas quando a conseqüência é grave, mas quando é importante prevenção para evitar o pior. Por exemplo, no gol de Luiz Antônio contra Grêmio, o carrinho do atacante Wellington Paulista seria passível de punição. Como não atingiu, segue o jogo.

Mas isso não é exclusividade do futebol, no basquete também conta. Dar um carrinho imprudente, uma bicicleta com atletas perto ou colocar pé quando for marcar um arremesso do adversário podem prejudicar diretamente um colega.

“Mas e a intenção?”. Respondo: quem dá a mínima para a intenção?!

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