Dos jogos escolares às Olimpíadas: qual a real situação do handebol brasileiro?

Para a maior parte dos alunos de escolas básicas do Brasil, a aula de educação física é sinônimo de uma quadra de concreto poliesportiva. Nela, os professores incentivam os alunos a praticar futsal, basquete, vôlei e handebol. De forma geral, podemos dizer que estas são as quatro modalidades “básicas” – se contarmos o futsal como uma variação do futebol – da formação esportiva brasileira. Mas por que de todas elas o handebol é a que menos ouvimos falar?

Tirando o período das Olimpíadas, em que basicamente todo mundo passa a acompanhar esportes que jamais cogitaria assistir em outras épocas, o handebol é um esporte extremamente marginalizado. Vemos o futsal brilhar nas manhãs de domingo, o vôlei de alto nível com diversas atletas de seleção brasileira na Superliga e até a NBB (Novo Basquete Brasil) rende bons públicos no ginásio – sem contar os brasileiros que chegaram até a NBA. O que há de errado então com o handebol?

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Das aulas de educação física para as Olimpíadas

O que ninguém vê no atleta que joga handebol pelo time de colégio e depois chega na seleção brasileira para disputar as Olimpíadas é uma realidade muito mais triste do que o esperado. A verdade é que o handebol “desaparece” entre a fase de jogos abertos da escola e partidas oficiais e televisionadas entre países. Você já ouviu falar da Liga Nacional de Handebol ou dos jogadores que estão brilhando pelo mundo na modalidade?

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Secretaria do Esporte e Lazer do Maranhão via Visualhunt / CC BY

Se a resposta para a pergunta foi não, a culpa não é exatamente sua. Apesar de amplamente praticada na “base” e com resultados expressivos na categoria principal, o handebol ainda é um esporte que sofre com a falta de consolidação política da modalidade. Sem grande atenção da mídia e, consequentemente, a falta de bons patrocinadores bancando as equipes, o cenário do handebol profissional do Brasil beira o amadorismo. Tirando alguns poucos clubes, a maior parte dos times são equipes bancadas por prefeituras e com elencos de atletas que precisam conciliar os treinos com alguma outra profissão.

A história começa justamente nos colégios. O aluno que se destacava nos jogos entre escolas e chamava a atenção era imediatamente chamado para compor categorias de base dos times da cidade. Com sorte, o atleta então começa a ter um pouco mais de visibilidade nacional e chega aos olhos dos principais clubes de São Paulo. Eles oferecem bolsas de estudos, estrutura adequada de treino e auxílio com despesas básicas de sobrevivência. Vendo a chance de continuar a praticar o esporte em um nível competitivo e de conquistar um diploma de ensino superior, muitos encontram no esporte uma maneira de completar os estudos.

É neste período que a maioria “some”. Refém dos compromissos com a faculdade e com os clubes, atletas com potencial de serem verdadeiros astros da modalidade se vêem praticando um esporte que não traz o devido retorno para suas carreiras. Atualmente, existem jogadores de nível de seleção brasileira jogando e estudando em São Paulo que pegam diariamente o metrô e se camuflam na multidão como pessoas quaisquer. O handebol no Brasil não traz reconhecimento, muito menos glória e fama.

Europa é o destino para quem quer melhorar de vida

Em busca de uma carreira sólida, os principais talentos brasileiros vão para a Europa. Com falta de uma liga estruturada e com visibilidade no Brasil, os times europeus oferecem para os jogadores brasileiros salários decentes e competições com melhor organização e nível de competitividade. Nesse momento, muitos chegam até mesmo a largar os estudos em busca de condições melhores de vida e de competição, além de conhecer e viajar pelo Velho Continente.

13 goals victory👏🏻👏🏻👏🏻 Bravo csajok!!! Mosonmagyaróvári KC SE 23 x 36 Gyori ETO KC #hungarianleague #goodjob

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O principal destino dos brasileiros é a Espanha. Hungria, Alemanha e França também possuem boas estruturas e conseguem atrair bons jogadores do Brasil. Recentemente, quatro brasileiras estiveram na final da Champions League de Handebol entre Bucareste (Romênia) e Gyori (Hungria) – três pelo time romeno e a armadora Duda Amorim pela equipe húngara.

Além disso, um grande motivo do sucesso do Brasil nas Olimpíadas é o incentivo estrangeiro. Na seleção masculina, o espanhol Jordi Ribera foi responsável por uma revolução no modo de jogo do Brasil (implementação da defesa 5-1) e um bom acompanhamento nacional da base de jogadores para o futuro através de acampamentos regionais. Na seleção feminina, o dinamarquês Morten Soubak liderou as meninas para o título do mundial de seleções em 2013 e as quartas-de-final nas Olimpíadas.

Confira a representatividade de atletas jogando na Europa nas seleções convocadas para o Rio 2016:

Enquanto isso, no Brasil…

Tanto o handebol feminino quanto o masculino possuem os mesmos moldes de competições no Brasil. As equipes disputam a Liga Nacional para conquistar o título de campeã nacional e jogar o Pan Americano. Se vencer a etapa continental, disputa o mundial de clubes – objetivo máximo de qualquer time.

Na Liga Nacional masculina, 29 times disputaram a edição 2016, divididos em três conferências: Norte (8), Nordeste (13) e Sul-Sudeste-Centro (8). As principais forças estão no estado de São Paulo: Taubaté e Pinheiros foram os finalistas e também são os destinos para os jogadores que querem se profissionalizar no handebol sem sair do Brasil. As duas equipes protagonizam as finais desde 2014 e junto com a Metodista somam o maior número de títulos – Metodista (8), Pinheiros (6) e Taubaté (3).

Já no feminino, as conferências são as mesmas, mas o número total de participantes é menor: 19 equipes. São 5 times na Sul-Sudeste-Centro, 6 na Nordeste e 8 na Norte. Porém, o domínio paulista também permanece, dessa vez muito mais polarizado em um time. São Bernardo/Metodista é a equipe detentora de nove títulos e é disparada a maior campeã. No ano passado, o Pinheiros foi o clube vencedor – conquistando a competição pela primeira vez.

Escândalos e problemas fora das quadras prejudicam crescimento

Se o handebol brasileiro ainda precisa de apoio para finalmente decolar, as polêmicas administrativas não ajudam em deixar o esporte mais atrativo. Passada a visibilidade dos Jogos Olímpicos de 2016, as seleções de handebol viram seus dois principais patrocinadores diminuírem o apoio. A Asics, fornecedora de material esportivo, abandonou o patrocínio completamente, enquanto o Correios diminuiu para um terço o seu apoio financeiro.

Já com a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), as coisas não vão nada bem. Após serem revelados diversos escândalos envolvendo a entidade, o até então presidente em atividade há 28 anos Manoel Luiz Oliveira foi impedido pelo STJD de continuar no cargo. Ele agora briga na justiça pela sua permanência no poder. Segundo denúncias feitas por uma reportagem no canal ESPN, a CBHb teria fraudado licitações, desviando 6 milhões de reais do dinheiro público. A entidade ainda teria apresentado irregularidades em eleições, incoerências em prestação de contas a patrocinadores, acumulado dívidas com a Federação Internacional de Handebol (IFH) e até pedido um suposto aumento para o salário do treinador da seleção feminina em nome do treinador da seleção masculina.

Conversamos com o jogador Rudolph Hackbarth, ponta direita do Pinheiros e da seleção brasileira. Ele já passou pelas equipes de Blumenau, Itajaí e Londrina e é convocado para a seleção desde a categoria juvenil, passando pela júnior e atualmente na adulta. Ele contou como é a trajetória de um atleta de handebol, falou sobre a estrutura do esporte no Brasil e também sobre como os jogos Olímpicos da Rio 2016 interferiram na modalidade.

O que acontece na vida desses atletas que brilham nos tempos de escola e depois só vai aparecer de novo nas Olimpíadas?

Os atletas que se destacam nas escolas costumam receber oportunidades nos clubes de São Paulo, lugar onde são um pouco mais visados. Porém, há poucas opções e muitas crianças acabam tendo que largar o handebol por falta de time. Os times encontram dificuldade para encontrar apoio financeiro, tendo em conta que o retorno da liga nacional é muito baixo. Somente as quartas de final, semi e finais da liga são transmitidas pela televisão. Tem pouca mídia, pouco apoio. A CBHb está sendo investigada por desvio de dinheiro. Os atletas brasileiros cada vez mais estão buscando espaço na Europa para conseguir se manter em alto rendimento por conta da falta de equipes com estrutura dentro do Brasil.

Quais seriam as equipes aqui do Brasil que tem essa estrutura?

O Pinheiros tem a melhor estrutura do Brasil, com trabalho do mirim ao adulto. E o Taubaté tem a melhor verba para salário na categoria adulta. São as duas equipes que figuram entre as estruturadas, o resto luta para montar time competitivo. Aí em um ano consegue, no outro já perde verba, e assim vai.

Qual seria a faixa de salário dos jogadores nessas equipes? Como seria a comparação com a Europa?

Depende o nível do jogador, mas as equipes costumam dar moradia, alimentação, bolsa na faculdade e uma base de uns R$ 1.500,00. Tem uns que ganham uns 5 mil reais e tem uns que não ganham nem mil. Os atletas aqui do Brasil são dependentes do programa bolsa atleta do governo. Já na Europa, os brasileiros costumam receber entre 1.000 e 1.500 euros como primeiro ano de contrato.

Os Jogos Olímpicos da Rio 2016 deram maior visibilidade dos atletas brasileiros para o mercado europeu?

Na verdade, em 2011, um técnico espanhol assumiu a nossa seleção masculina (Jordi Ribera) e um dinamarquês assumiu a feminina (Morten Soubak). Eles conseguiram resultados mais expressivos em mundiais e começaram a exportação de jogadores. Hoje toda a Europa acompanha nossos jogos e todos os anos jogadores vão pra lá. Recebi quatro propostas da Europa ano passado e esse ano devo receber de novo. Então essa visibilidade na Europa já vinha de antes das Olimpíadas. Achamos que poderia melhorar a situação do esporte dentro do próprio país, com uma liga melhor, mas não houve melhora e depois do fim dos jogos ainda piorou. O governo cortou verba do Ministério dos Esportes e inclusive inventaram uma previdência sob o nosso bolsa atleta, cortando 20% de cada parcela. Todas as modalidades tiveram investimento reduzido após as olimpíadas. As prefeituras estão quebradas. Tem atleta nível de seleção sem clube para jogar ou jogando por menos de mil reais.

Quais são os motivos para atletas como você não irem para a Europa, já que aqui o retorno é tão baixo?

Primeiro que, do jeito que a coisa está feia, estar no Pinheiros é um privilégio para mim. Tenho toda uma estrutura enquanto tem bastante gente passando dificuldade. Eu, particularmente, prefiro estar formado antes de ir para a Europa. Porque senão o atleta vai lá, joga dez anos e volta para o Brasil fazer o que? A maioria não dá bola para isso, mas é algo que eu valorizo. Então só saio do Brasil se for uma proposta que me faça querer muito ir.

Como é o público da Liga Nacional aqui no país?

O público gosta bastante de assistir, mas a divulgação é ruim. Televisionaram as quartas de final da Liga Nacional entre times ruins, mas não transmitiram a final do paulista que foi um jogo de nível técnico muito maior. Erraram na mão. Tem jogo que dá bastante público, outros o ginásio está vazio. O povo simpatiza com o esporte, a culpa é da organização, não do público.

Como é o nível da seleção brasileira se comparada a outros países do mundo?

Nas finais do Pan, sempre tem jogo bom contra a Argentina nas finais. Nas Olimpíadas, nós (seleção masculina) ganhamos da Alemanha, que é uma das maiores potências, da Polônia e perdemos nas quartas para a França, que é o melhor time do mundo. Material humano para seleções boas nós temos até 2024. O problema são as coisas externas: Liga, salário e estrutura.

Crédito de capa: Cinara Piccolo/Photo&Grafia no site da CBHb

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