Primeira Liga deve olhar para MLS e A-League

No último EsporteCast debatemos a possibilidade da Primeira Liga organizar o Campeonato Brasileiro a partir de 2017. É bem verdade que esse cenário ainda é improvável. Mas nada impede que, de fato, o torneio nacional passe a ser organizado pelos clubes em 2018 ou 2019 (assim espero).

E se os times desejam tomar conta do próprio campeonato, a esperança é que o modelo adotado não se torne, simplesmente, um “Brasileirão da CBF 2.0”. E para não nos esquecermos da história, não queremos também uma nova versão da vergonhosa Copa João Havelange de 2000. Mas que formato escolher? Não custa buscar inspiração em outros países.

Exemplos para a Primeira Liga

Desde o 7 a 1 na Copa de 2014, foram publicadas muitas matérias sobre o sucesso do modelo alemão ou de como a Bundesliga se tornou um dos melhores campeonatos do planeta. E com as recentes disputas entre Globo e Esporte Interativo pelos direitos de imagem dos times, também aumentou a quantidade de publicações simulando o modelo de contrato da Premier League no cenário brasileiro.

É inegável que tanto o inglês quanto o alemão se tornaram campeonatos gigantescos, recheados de craques, com popularidade mundial e com os cofres cada vez mais cheios. Mas será mesmo que vale a pena a Primeira Liga se espelhar nestes campeonatos para fazer seu próprio Brasileiro? Acredito que não.

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E antes que se evoque a frase “se você quer ser o melhor, aprenda com o melhor” para me corrigir, vamos citar rapidamente a situação do futebol brasileiro: clubes ainda mais endividados, times com dificuldades de fechar patrocínios e os “melhores” jogadores do campeonato indo embora cada vez mais cedo e para lugares não tão tradicionais (ainda que o país siga liderando o ranking das exportações).

Ou seja: apesar de toda a tradição e paixão pelo “jogo bonito”, estamos longe de termos as condições mínimas para reestruturar o Brasileirão “dos sonhos”. Onde buscar inspiração, então? Simples. Nos EUA e na Austrália, países que não tem (ou não tinham) tradição no futebol. Mas que, pacientemente, criaram campeonatos estáveis e que vem crescendo ano após ano.

Jogador Del Piero com camisa do Sydney FC. Campeonato australiano pode servir de exemplo para a Primeira Liga.
Del Piero atuou na A-League pelo Sydney FC entre 2012 e 2014 – Crédito de foto: Marco Estrella (Flickr IMG_2818), via Wikimedia Commons

Para gringo torcer

Imagino que a Major League Soccer já deixou de ser um campeonato estranho para o público brasileiro, ainda mais com o aumento das transmissões dos jogos desde o ano passado. Nomes como Kaká, Gerrard, Pirlo e Drogba chamam a atenção dos noticiários. Ao mesmo tempo, dão a falsa impressão de que a MLS é uma “liga de aposentadoria”. Talvez até seja, mas só para essas figuras carimbadas do futebol mundial. Internamente, o trabalho de desenvolvimento de atletas e preservação financeira das franquias é digno de prêmio.

Desde sua criação, em 1996, a MLS tem um teto salarial. Para 2016, cada time pode gastar, no máximo, $3,66 milhões de dólares anuais. O salário mínimo é de $51,5 mil dólares por ano e o máximo de $436,250 mil. Exceto para os “Jogadores Designados” – como Kaká e cia – que merecem uma explicação detalhada em outro post. Além disso, também existe um limite de jogadores no elenco: 28 por time. Como os contratos de transmissão, estabelecidos em 2014, giram na casa de $90 milhões anuais para a liga, cada equipe pode receber até $4,5 milhões de dólares. Ou seja: já são pequenas as chances de dívidas, só levando em conta os salários e o contrato de TV.

Não é só importação

Importante lembrar que, desde 2007, todas as equipes passaram a criar as “academias de futebol” (espécie de categorias de base) que tem sido fundamentais na descoberta de novos talentos para os times e consequentemente para a seleção. Só para se ter uma ideia, dos 23 convocados para o jogo contra a Guatemala no último dia 29 de março (pelas Eliminatórias da Concacaf), 16 jogadores iniciaram sua carreira profissional na liga e 13 ainda estão jogando por lá. É verdade que as Eliminatórias da Concacaf não são tão competitivas quanto as da Conmebol, mas os EUA não deixaram mais de ir às Copas do Mundo.

No outro lado do mundo

Desde a reoganização da sua própria liga, a Austrália é outra que virou figura constante no mundial. A Hyunday A-League foi criada em 2004 e conta atualmente com 10 times. Assim como a MLS, foi criada em um formato de franquias e controla todos os aspectos. O teto salarial é de $2,6 milhões de dólares anuais e cada clube deve gastar, no mínimo, 87,5% deste valor.

Os elencos devem ter entre 20 e 26 jogadores e os salários mínimos não passam dos $41 mil dólares. Os contratos de transmissão, atualmente, são de $40 milhões anuais (ou seja, $4 milhões para cada time), mas podem dobrar a partir do ano que vem. E, como você pode perceber ai em cima, a liga vendeu seus “naming rights” que complementam o faturamento do campeonato (mesmo que os valores não sejam de conhecimento público).

Para o futuro

Bom, o caminho que a Primeira Liga deve trilhar para assumir o Campeonato Brasileiro ainda é longo, fato. É preciso abraçar equipes de todo o Brasil antes de pensar em qualquer coisa. Mas se chegar o dia da união de todos os times brasileiros (ou dos principais, mas não me venham com um novo “Clube dos 13”) espero que outros modelos mais “periféricos” sejam levados em conta. É bom sonhar com a estrutura de uma Premier League ou de uma Bundesliga, claro. Mas a execução precisa ser um pouco mais pé no chão, assim como a MLS ou a Hyunday A-League.

Foto de capa: amil.delic via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA

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