Por que Rafael Nadal é o rei do saibro?

O intuito desse texto não é reverenciar Nadal como o melhor tenista de saibro de todos os tempos. Essa discussão deve levar em conta fatores muito subjetivos que não me arrisco a opinar com propriedade e de maneira definitiva, como o estilo de jogo antes da Era Aberta, a técnica de outros tenistas históricos ou a dominância em sua época. É incontestável que Rafa é um jogador fantástico, isso todos assumimos e reverenciamos. Seu título de “rei do saibro” também faz jus ao tênis do espanhol. A ideia dessa análise é apontar algumas das razões pelas quais Nadal é tão dominante no piso e apresenta um tênis impecável jogando na superfície vermelha.

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O estilo de jogo de Nadal foi construído e aprimorado ao redor do saibro. Desde o início de sua carreira, ele aprendeu a jogar nessa quadra. Coincidentemente, os dois torneios do circuito ATP na Espanha são no piso. Em ambos, ele é o maior vencedor — em Barcelona, são dez títulos e, em Madrid, cinco desde que o campeonato passou a acontecer na cidade, no ano de 2002.

números Rafael Nadal saibro títulos
Arte: Gabriela De Toni

Ao ver todos esses números impressionantes, tem-se mais convicção de que Nadal é o cara da superfície de terra. São feitos extraordinários que certamente durarão por muito tempo (se chegarem a ser quebrados ou igualados). Os impressionantes CINQUENTA E DOIS títulos no saibro dos 72 totais em todos os pisos, então…

A pergunta que faço é: como Nadal conseguiu isso?   

características Rafael Nadal
Arte: Vinicius Schmidt e Gabriela De Toni

Vou começar analisando de onde uma partida literalmente começa, no saque. No saibro, esse fundamento não é tão crucial no jogo como em outras superfícies. Na quadra dura, um saque de alta velocidade quebra a recepção do adversário e facilita muito o ponto para quem está iniciando o game. Federer é um tenista marcado por seu estilo de jogo ofensivo, pelo saque-e-voleio, por se utilizar com propriedade do saque para pressionar o adversário. Já o Nadal que conhecemos nunca foi destaque por seu saque. Na verdade, esse é talvez seu fundamento mais inconsistente. Por muitos anos no circuito, Nadal treinou — e muito — para aumentar a velocidade do saque e se equiparar ao resto dos tenistas de elite no circuito. Porém, no saibro, essa disparidade de “nível” do saque cai por terra.

A quadra vermelha, por seus componentes, é mais lenta que outras superfícies. Na grama, após o quique, a bola tende a subir menos que nos outros pisos. Na quadra dura, os mísseis de saque mantém sua velocidade após tocar no chão. No saibro, a bola sobe mais e diminui sua velocidade. Portanto, ponto para Nadal, que não tem o saque mais rápido do circuito. Suas chances de quebrar o saque do adversário são maiores no saibro que nas outras superfícies.

Além disso, o equilíbrio que o saibro dá na potência do saque dá vantagem a Rafa por ele ser ótimo defensor. Assim, ele consegue confirmar seu saque mesmo sem forçá-lo e sem passar por apuros — na verdade, a característica do espanhol de manter o serviço acontece em qualquer tipo de quadra, mas é evidenciada no saibro. Para o adversário, que não vai poder forçar o saque e não é tão bom defensor como Nadal, a situação é mais complicada. Rafa se beneficia.

Aliando o saibro ao estilo de jogo

O próximo ponto também conta com a consistência do saibro para facilitar o jogo de Nadal. O espanhol tem um trabalho de pés fantástico e um forehand reconhecidamente considerado um dos melhores dos últimos tempos. Aliado a isso, o estilo de jogo de Nadal procura esticar a troca de bolas para contra-atacar o adversário, dando o bote na busca do ponto. Pois é, o saibro casa muito bem com a maneira de jogar de Nadal.

Primeiramente, no saibro ele tem mais chances de “fugir” para a direita e bater na bola do jeito que prefere. Com seu trabalho de pés e maior tempo de reação por conta do piso, Nadal escolhe o que vai fazer com a bola, assume o ponto. Tudo isso jogando na linha de fundo, onde ele gosta de ficar. Assim, o espanhol aumenta a troca de golpes, até atuando de maneira defensiva, mas conseguindo controlar o adversário, para se posicionar e contra-atacar de forma perfeita para levar o ponto.

No vídeo acima, isso fica nítido. Em diversos pontos, é possível ver o movimento de Nadal para fugir do backhand e bater com uma mão só. Ele tem tempo para fazer isso. Também é visível como ele “troca” bolas até encontrar o momento perfeito de atacar. E, além disso tudo, ele mantém seu jogo no fundo da quadra mandando seu adversário para trás através do top spin, próximo ponto a ser abordado.

O top spin que desequilibra

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Curva na bola, o quique alto que joga o adversário para longe da quadra, o movimento do pulso que explora toda a superfície da bola e fornece mais rotação para ela. É esse o top spin avassalador de Nadal, uma bela receita de sucesso. Vale citar que o forehand de top spin do espanhol é canhoto, um dos poucos no circuito. Ainda mais curioso é o fato de que o espanhol escreve com a mão direita, mas joga com a canhota.

Rafa tem como marca registrada sua estratégia de como bater na bola. O top spin talvez seja mais eficiente no saibro que em outras superfícies. Nadal joga seu oponente para longe da quadra, fazendo com que ele percorra mais distância entre uma bola e outra e canse mais rápido. Aliado a troca de golpes extensa, ao seu trabalho de pés e ao seu estilo de contra-ataque, essa é uma combinação mortal. 

Se o adversário tentar permanecer rente à linha de fundo, ele ficará em uma posição de bater a bola desequilibrado, para trás, pois o top spin fornece mais rotação à pelota e ela naturalmente quica mais alto e vai mais esticada. É difícil ser agressivo devolvendo essa bola. Jogar no voleio, então, talvez em seu game de saque. Então sim, você vai acabar entrando no jogo de Nadal, pois é extremamente difícil contestar o top spin próximo da quadra. Quando você ver, estará longe da linha de fundo, trocando longos pontos, com um Nadal do outro lado fugindo do backhand e metendo a mão na bola, te deixando ainda mais longe da quadra. Até o momento do espanhol achar a chance do ponto e meter uma bola vencedora muito longe de onde você está. Você caiu na estratégia de Rafa.

O backhand eficaz no plano de jogo

A análise do forehand pode ter te levado a pensar que, por fugir do backhand, a bola de duas mãos de Nadal é menos técnica que o forehand canhoto do espanhol. Na verdade, seria quase um oposto disso: tudo o que Rafa aplica com seu top spin só é possível através do trabalho conjunto com o backhand altamente eficaz e defensivo. É através desse golpe que ele angula as bolas para poder devolver um forehand vencedor. A jogada de duas mãos de Nadal serve como sua bola de segurança, pois ele erra pouco e ainda assim consegue forçar um ângulo difícil para o adversário. Ele usa isso para ganhar o ponto na segunda bola, pois a devolução deve vir em um local da quadra onde ele irá conseguir fugir da bola e enfiar a mão de forehand.

Mas também não é apenas defensivamente que ele usa sua bola de duas mãos. O backhand de Nadal é angulado, mas também pode ser uma pedrada na paralela, uma largada fantástica depois de uma longa troca de bolas, um slice defensivo ou uma passada quando o adversário vem para a rede tentar matar o ponto. Nunca no meio. A capacidade do espanhol de trabalhar com todas as possibilidades no backhand é o que o dá segurança de definir os pontos no forehand. Os dois funcionam juntos e se complementam perfeitamente. Olha a classe:

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Que adversário difícil, não é mesmo? Mas ainda não acabou, tem mais um fator dominante que é válido citar: a personalidade de Nadal.

A garra pela vitória

Pode parecer clichê citar como Nadal é perseverante em um jogo. Afinal, que jogador de tênis não demonstra garra dentro de quadra? Porém, acredito que a mentalidade de Nadal está acima de vários outros profissionais.

Rafa foi criado para jogar tênis. Sua vida foi moldada ao redor dessa ideia. Aos 15 anos, conquistou sua primeira vitória como profissional. Antes dos 20, já estava na segunda colocação do ATP — e se não existisse um suíço chamado Roger Federer, sabe-se lá se ele não chegaria ao topo antes. Aos 24, já havia vencido todos os Grand Slams, entrando em um grupo de com apenas outros sete tenistas. Também nessa idade (em 2010), foi o único na história a vencer três Slams em três superfícies diferentes. E sim, ele é o maior vencedor de torneios de saibro na história, com os 52 títulos que mencionei no início desta análise.

Isso é diretamente ligado ao seu treino físico (que o mantém em forma para manter esses feitos), ao praticar por mais de quatro horas, seis dias na semana. E, claro, tudo também é consequência de sua forte mentalidade. O psicológico de Nadal é sólido como uma pedra e sua auto confiança é alta. Pode ser que nos últimos anos do circuito a gente tenha visto apenas relances do Nadal sobrehumano, principalmente por conta de lesões que consumiram parte de seu jeito inabalável de ser. Mas o espanhol ainda demonstra um forte psicológico.

Ele acredita em si mesmo jogando contra qualquer jogador em qualquer quadra a qualquer momento. Rafa se garante. E são poucos os jogadores que conseguem chegar em um nível de conquistas e confiança como esse. Federer entre 2002 e 2007 e Djokovic na temporada perfeita de 2011 e nos anos de 2014 a 2016 são exemplos igualmente memoráveis de uma junção espetacular entre psicológico, físico e estilo e nível de jogo. E, quando se chega nesse patamar, a pressão psicológica fica toda no adversário. Antes mesmo de entrar em quadra, se for um torneio no saibro, Nadal continua sendo o favorito do confronto.

A linguagem corporal do espanhol passa todo esse efeito. Se ele está inteiro depois de um rali longo, pronto para o próximo ponto, colocando bolas inacreditáveis em lugares extraordinários, aos poucos a confiança de quem está do outro lado da rede vai sendo minada. Ele passa essa impressão de ser uma máquina — e isso entra na cabeça do oponente. Nadal comemora os pontos gesticulando, sempre está de cabeça erguida e não demonstra desânimo. Ele tem o próprio ritual de ajeitar o shorts, mexer no nariz e colocar o cabelo para trás antes de sacar ou receber a bola — e assim você entra no ritmo dele.

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Ao meu ver, é aí que a partida começa. O tênis é um esporte psicológico — a ponto de que uma bola pode mudar um jogo. Estar com a mente confiante é tão importante como estar fisicamente apto para aguentar uma partida profissional — e aí Nadal sempre é perseverante e um grande desafio ao oponente. Esse é mais um dos truques de Rafa. 

Todas essas incríveis habilidades convergem para que Nadal seja um monstro (ou um gênio?!) no saibro. Porém, seu talento transcende a superfície. Eu posso ter destacado todos esses pontos, mas eles perpassam a terra vermelha. Nadal também vence no cimento, na grama e ouso afirmar que em qualquer outro tipo de quadra. Suas conquistas dão base para essa constatação. São 72 títulos, 52 no saibro, mas outros 20 em outras superfícies — inclua aqui dois Wimbledon, dois US Open e um Australian Open. Acha pouco?

Acredito que não são apenas os títulos que confirmam o que eu digo. Assista a qualquer partida de Nadal. É claro que no saibro tudo fica mais interessante (como vimos aqui), mas qualquer jogo vale a pena. Você verá a genialidade do rei do saibro. Não só um mestre na superfície, mas possivelmente um dos melhores jogadores da história pelo conjunto de sua obra.

Foto de capa: Marianne Bevis via VisualHunt / CC BY-ND

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