Por que Roger Federer é o rei da grama?

Com a conquista de Wimbledon 2017, Roger Federer reina absoluto como o maior vencedor (“homem”, como diria Andy Murray) do Slam da grama na história. São oito títulos do torneio mais clássico do tênis. Com a marca conquistada, ressurgiu a pergunta: Federer é o rei da grama? Eu acredito que sim.

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Aqui pretendo explicar os motivos pelos quais eu acho isso. É claro que entram na discussão nomes como Pete Sampras, Bjorn Borg, Rod Laver. Assim como disse no texto sobre Nadal, considero complicado analisar eras diferentes do tênis e especular se, caso esses tenistas jogassem contra em seu auge, qual deles seria dominante. Porém, ainda acho que a discussão é válida e que, bem embasada, pode ser um indicativo.

federer é o rei da grama
Federer e Sampras em Wimbledon 2001 Photo credit: ../Kar via VisualHunt / CC BY-NC-ND

Vale lembrar que Sampras e Federer se enfrentaram uma vez em suas carreiras, na quarta-de-final de Wimbledon 2001. O jogo que chegou ao quinto set, com a vitória do suíço.  Talvez Sampras seja o tenista com o qual façamos mais comparações a Federer, por sua época ser mais recente e também por ele ser reconhecidamente um grande jogador na grama. Tudo isso é coroado por seus sete títulos de Wimbledon e o fato de ser um grande sacador.

O que pretendo discutir aqui é como as características de jogo de Federer, aliadas ao estilo de jogo dominante na grama, o levaram a esse patamar e a uma possível discussão se ele é o grande jogador desse piso na história.

Falando da superfície

Primeiramente, é importante falar que a grama em si já foi muito mais popular no circuito do tênis. O fato de Federer ser apenas o sexto tenista na lista masculina de número de títulos indica isso — ele é o primeiro na Era Aberta. Antigamente, havia muito mais competições neste piso. Se você tem a impressão que em um piscar de olhos a temporada da grama acabou, está certo.

Com o passar dos anos, os torneios mudaram de piso e a temporada da grama ficou curtíssima. Seja por viés financeiro (já que é muito gasto para ter boas quadras) ou mesmo por uma modernização do esporte, o jogo na grama ficou resumido a sete semanas (até pouco tempo eram somente seis). Além disso, elas estão espremidas entre o final dos campeonatos no saibro, com Roland Garros, e os jogos na quadra dura, em preparação ao US Open, e os tenistas tendem a dar mais prioridade a pisos com mais competições. Verdade seja dita, não se tem muito parâmetro para “testes” de quem é melhor na grama em relação a estatísticas de títulos.

federer é o rei da grama
A grama de Wimbledon é palco de constantes discussões por sua qualidade
Photo credit: robbiesnaps via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA

Como se não fossem motivos suficientes, os próprios campeonatos também não são muito chamativos. A grama é o único piso que não tem um Masters 1000 seu. No caso do circuito masculino, são dois ATP 500, em Halle e Londres. E, adivinhe, esse ano eles foram na mesma data! A temporada é tão pequena que você precisa escolher qual torneio jogará. As outras competições na grama são ATP 250, e tenistas top 5 como Federer pouco competem nesse porte.

Portanto, nesse caso específico de comparação entre quem é melhor, é difícil se basear no número de títulos. Apesar de que, pela situação, até que Federer tem bastante. São nove ATP 500 de Halle e oito Wimbledon, totalizando em 17. Sampras tem dez, por exemplo.

federer é o rei da grama
Arte: Gabriela De Toni

Aqui ainda vale a ressalva de que a quadra de grama foi se alterando com o passar do tempo, ficando menos característica por seu terreno irregular, por exemplo. Hoje a grama é de um material mais “tecnológico” que no passado e ficou bem mais curta. A superfície se assemelha ao carpete, que é jogado em alguns outros torneios durante o ano. Faz diferença no jogo, que ficou mais lento e com maior troca de bolas,. Isso permitiu mais competitividade de tenistas com tipos de jogos diferentes. Um ótimo exemplo é ver que Nadal, reconhecidamente um jogador de saibro, pode ser muito perigoso também na grama.

A totalidade do jogo de Federer

Feita essa breve análise, vamos falar sobre o estilo de jogo de Federer. O suíço é dominante a ponto de, em uma época com Nadal e Djokovic, ter chegado a pelo menos cinco finais em todos os Slams. Vale pensar nele como o jogador mais completo da história? Talvez. Porém, o foco aqui é pensar em como esse fato indica que a grama acaba sendo a melhor das superfícies para Roger.

O que torna o suíço o par perfeito do tênis na grama é sua capacidade de fazer tudo. Federer é um dos grandes exemplos de um all-around player, aquele jogador incrivelmente consistente em diversas habilidades.

federer é o rei da grama
Arte: Gabriela De Toni
Photo credit: alphababy via VisualHunt.com / CC BY-SA

O estilo de jogo do suíço sempre foi marcado por sua agressividade. Na grama, mais que nas outras quadras, essa qualidade se sobressai. Os pontos tendem a ser mais curtos, com menos golpes, o que casa com essa maneira de impor seu jogo.

Existe um ponto mais ou menos no meio desses quase vinte anos de carreira de Federer em que podemos “dividir” sua maneira de jogar. É natural que o tenista fique menos móvel com o tempo, devido ao gasto de anos jogando em alto rendimento. Federer só foi fazer uma cirurgia ano passado, mas as lesões são praticamente normais no circuito. No entanto, Roger também ficou mais inteligente por estar calejado e ser veterano.

Podemos dizer que essa agressividade se moldou ao tempo de carreira. Eu diria que, enquanto ele era dominante na ATP (nos anos em que ficou isolado como número 1), Federer tendia a ser mais agressivo na linha de fundo. De 2002/03 a 2011/12, quando ele ainda demonstrava estar muito acima dos adversários, ficar mais tempo em quadra não era um grande problema. Estar na faixa de 25-30 anos obviamente influencia muito.

Com o tênis absurdo de Djokovic, a chegada de Murray, o surgimento de Wawrinka, tanto Federer quanto Nadal ficaram mais “apagados”. Cada um, à sua maneira, adaptou seu jogo. Tanto que 2017 está sendo uma temporada parecida com dez anos atrás, quando os dois brigavam ponto a ponto. Hoje o suíço continua sendo altamente agressivo na linha de fundo. Por outro lado, maximizou essa característica também na rede. Quanto mais curtos forem os pontos, melhor. Menos desgaste para um corpo que já passa dos 35 anos.

Sobre o backhand

É engraçado falar da agressividade e assistir a um jogo de Federer. Por que ele é um gentlemen em quadra, tem o jogo mais “bonito” do circuito (opinião pessoal). Existe um charme em estrangular o adversário e, ao mesmo tempo, ter movimentos graciosos e sincronizados.

Seu backhand sempre foi uma marca registrada. Executado com uma mão, é certeiro e angulado, o que ajuda muito se o tenista pretende matar o ponto em três, quatro bolas. Falando particularmente do retorno bem sucedido em 2017, o próprio Roger declarou que está acertando seu backhand melhor que nunca. Se antes o suíço mesclava slices com o spin, agora ele sente mais a bola e dá mais pancada. Ele ataca em qualquer lugar: numa troca de bolas na linha de fundo, subindo para a rede, e, principalmente, na devolução de saque.

Estou simplesmente apto para pisar em quadra mais facilmente do que nunca. (…) Eu acho que meu backhand na devolução está favorecendo meu jogo, posso dominar os pontos desde o começo”, em uma entrevista no Open Paribas, março.

É claro que isso também tem relação com se “divertir” mais. Não sentir a obrigação de competir todos os torneios e escolher quando se quer jogar, em uma transição para a aposentadoria, deixa o jogador mais leve. O Federer de 2017 está rejuvenescido e encontrou um tênis mais eficiente. Roger consegue aliar sua incrível habilidade com um psicológico menos pesado e, claro, com uma ótima recuperação física. Isso o vinha incomodando nos últimos anos. Me parece que ele escolheu as melhores partes de seu jogo e conseguiu voltar com elas ainda melhores.

Outros fundamentos de jogo

A punhadura de Federer é próxima ao eastern. Bem versátil, o que o permite tanto dar spin como bater mais reto na bola. Além disso, uma transição para a rede é mais rápida, o que facilita no estilo de jogo de Federer. É claro que a eficiência está diretamente ligada à técnica impecável do suíço. Ele prepara o movimento do corpo para bater na bolinha com a melhor eficácia possível. A parte de baixo do corpo, o tronco, os ombros e a raquete se sincronizam para o golpe. Ele chega bem na bola, com uma postura correta, resultando em um forehand veloz, angulado e agressivo. Unindo seus golpes, fica muito difícil de pará-lo.

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É difícil não martelar falando do estilo agressivo de Federer, pois é ele quem molda a maneira do suíço de jogar. Diferentemente de Nadal e Djokovic, que se mantém defensivos, ele busca winners e a linha na maior parte do tempo.

Roger não tem medo de subir à rede, apesar de também trabalhar muito bem na linha de fundo. Ele o tem feito mais nos últimos anos para encurtar os pontos, como já mencionei aqui. Sua presença no “T” é bem posicionada e seus voleios geralmente são certeiros, o que o dá segurança de manter esse estilo de jogo.

Recentemente, Federer chegou à marca de dez mil aces, com uma média de aproximadamente 7,7 por jogo. Não chega tão perto à média de grandes sacadores — Karlovic, tenista com mais aces na história, tem quase 20; Sampras, 11 por jogo. Porém, é uma margem que indica segurança e um bom saque.


Acredito que existiu uma transição de “eras” no tênis: o jogo aos poucos foi ficando mais defensivo e extenso, exigindo mais atleticismo e resistência dos atletas. Consequentemente, mais qualidade em seu jogo defensivo. Ao mesmo tempo, me parece que Federer é um jogador mesclado, que tem como qualidades o melhor desses dois “mundos”. Ele é fisicamente muito bem preparado, joga de maneira agressiva e se deixa levar pela situação de jogo. Pode muito bem trocar bolas por um tempo (tem qualidade para isso), mas vai ser agressivo, acabando por se tornar imprevisível, já que é bom em tudo. Roger escolhe o que quer fazer.

Por que então a grama? Pelas estatísticas e dados? Por seu estilo de jogo? Pelas características da superfície? Sim, sim e sim. Mas, também por ser um casamento que permite um Federer com seu jogo mais forte. Convenhamos, ele joga muito bem qualquer tipo de tênis. Eu vejo Federer como o “rei da grama” por um simples fato. É ali que seu jeito preferido e sua melhor técnica de jogo são maximizados. Mais que na quadra dura, onde ele detém tantos títulos.

A grama é onde ele se sente mais confortável para fazer o que faz de melhor. Um jogo intenso, agressivo e rápido. Se um dos melhores jogadores (ou o melhor?) de todos os tempos já comprova em números sua superioridade na superfície e tem todas as características que o tornam um maestro nela, porque ter medo de coroá-lo com um rótulo que faça jus à sua carreira?

Crédito da foto principal: Simon Tregidgo via Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

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