Os estranhos fatos no doping de Sharapova – e qual será seu futuro?

Se passaram mais de três meses desde o anúncio de Maria Sharapova a respeito do teste positivo de doping para a substância Meldonium, que aconteceu no dia 07 de março. Após esse período de investigação, foi dado o veredicto: dois anos de suspensão para a tenista russa, começando a contar desde janeiro de 2016, quando ela realizou o teste. O que isso quer dizer? Oito Slams, uma Olimpíada e mais dezenas de campeonatos sem competir. Aos 29 anos, será que a russa pode se dar ao luxo de ficar tanto tempo fora do circuito e voltar disputando o topo do ranking?

Antes de chegar a fundo nessa questão, vale citar fatos que apareceram no relatório da investigação que são, no mínimo, estranhos. Além de informações que já se tinham antes da sentença – como o fato de que Sharapova usou a Meldonium por um período de dez anos quando o recomendado é de três meses -, foram revelados detalhes sobre o uso da substância. Como este nas anotações de seu médico, Anatoly Skalny:

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“Uma pílula antes de treinamentos. Uma hora antes de uma competição, 2 pílulas. Em jogos de extrema importância, 4 pílulas uma hora antes da partida” (retirado da página 6 do relatório do caso)

Houve comprovação de que a substância reduziu os problemas que a russa estava tendo desde 2005, um ano após ganhar o Wimbledon. Entre eles, estavam gripes e dores no abdômen. A droga também foi receitada devido ao histórico de doenças cardíacas e diabetes na família de Sharapova. Portanto, pode-se afirmar que a substância foi utilizada para melhora da performance, dado que a dose aumentava em torneios.

Esse procedimento foi seguido até 2012, quando Sharapova decidiu parar de tomar tantas pílulas – de acordo com o médico, além da Meldonium estavam em receita mais 17 medicamentos – e contratou um nutricionista, Nick Harris. Apesar de terminar seu contrato com Skalny, a tenista continuou fazendo uso de três substâncias prescritas por ele sem apoio médico. A russa ainda afirmou que não contou a seu nutricionista que continuou tomando estes medicamentos.  A única excecão desse período 2012-2016 foi quando ela teve uma consulta com Sergei Yasnitsky, médico da equipe russa para a Olimpíada, e informou a ele do uso. Além dele, só seu pai e seu empresário, Max Eisenbud, sabiam. Seu treinador, seu técnico e seu fisioterapeuta não. No ano de 2015, cinco testes da tenista deram positivo para a Meldonium.

Mais um fato estranho: O empresário de Sharapova, que era quem checava a lista de substancia no Programa Anti-Doping, não fez isso de 2015 para 2016. Eisenbud afirmou que geralmente fazia isso quando viajava para o Caribe nas férias. Como em 2015 ele se separou, não viajou e, consequentemente, não checou a lista (!).

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Detalhe da fala do empresário (página 19 no relatório)

A Federaçao Internacional de Tênis (ITF) decidiu pelo banimento da tenista por dois anos, considerando o fato de que a conduta foi não intencional. Os advogados da russa irão recorrer da decisão. De qualquer maneira, essa mancha que vai ficar na sua carreira não vai se reverter. É possível que nunca mais vejamos a russa entre as melhores colocadas no ranking – sem pontos conquistados, com 31 anos em 2018… Seria mais fácil pensar nesse cenário – e a sua fama de “antipática e sem amigos” no circuito influencia para uma visão negativa geral. Porém, há motivos para pensar que a história da russa no tênis ainda não acabou.

Projetando um possível cenário para 2018, podemos pensar que Serena Williams já vai estar aposentada. A americana não tem nada a provar e já estará com 36 anos. Victoria Azarenka terá apenas 28, mas já vem sofrendo com lesões recentemente. É provável que a espanhola Garbiñe Muguruza esteja em seu auge – talvez até no topo do ranking. Pensando no circuito hoje, é totalmente viável que Simona Halep, Petra Kvitova e Agnieszka Radwanska continuem brigando lá em cima. Com dois anos de “descanso” (isso se a russa não ganhar na apelação), Sharapova terá tempo para curar todas as lesões e problemas físicos e mais tempo ainda para focar na sua volta triunfal (ou não). Não acredito que estejamos no final da carreira de Maria Sharapova.  

Se existe um fato bom em toda essa história é que o doping não vai mais ser visto como algo inatingível para os maiores jogadores. Quando lançou sua autobiografia, André Agassi contou que foi instruído a negar ter conhecimento de ter ingerido substâncias ilícitas, apesar de isso ser mentira. Alguns anos depois, essa já não é a realidade. Se o teste der negativo ou capturar alguma coisa, isso vai ser positivo para todo o circuito – que terá punição para quem quer que seja.   

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Crédito foto principal: jccchou via Visual Hunt / CC BY-NC-ND

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