O último show de Kobe

Arte: Guido Rossetto Moraes

11’25” do 1º quarto – Ele tenta da linha dos 3 pontos… e erra

Quando cheguei para valer no mundo da NBA, na temporada 2007/2008, só se ouvia falar dele. Seus feitos eram citados em toda e qualquer conversa de basquete. “O cara que fez 81 pontos”, “o cara que brigou com Shaq”, “o cara que enterrou na cabeça daquele chinês gigante”. O cara.

Era quase uma lenda urbana, todos tinham uma história para contar dele. Jogava num dos times mais tradicionais da liga e tinha sido tricampeão há alguns anos. Diziam que lhe faltava time nas últimas temporadas, mas que agora, finalmente, ele tinha chance de brigar por mais títulos.

10’43” do 1º quarto – Ele vai no jump shot… e erra

Eu queria apenas acompanhar o esporte, não tinha pretensão de torcer para ninguém, mas se fosse para secar, seria o poderoso Los Angeles Lakers, time do tal cara. Nunca gostei dos mais fortes. Por mais que admirasse seus feitos, torceria contra ele.

Na final daquele mesmo campeonato contra o Boston Celtics, comemorei cada um de seus arremessos que encontraram o aro, cada bola perdida, vibrei com sua derrota. No ano seguinte, lá estava ele decidindo o título de novo, dessa vez contra o Orlando Magic. Sequei em vão. Os arremessos que deram aro na decisão anterior viraram pontos nessa. Os erros de 2008 foram os acertos de 2009. O cara voltou mais forte depois da derrota. Ali entendi quem era Kobe Bryant.

7’40” do 1º quarto – De costas para o marcador, Ele gira, arremessa… e erra

Vídeo: Youssef Hannoun

Kobe construiu sua carreira perseguindo a perfeição e qual seria a melhor forma de alcançar isso, senão imitando os maiores?! Não tinha medo de admitir que baseou seu jogo no melhor de todos os tempos. Mesmo adulto, queria ser igual Mike. Logo aos 18 anos foi campeão do torneio de enterradas, nada comparado aos tempos de Jordan e Wilkins, mas talvez ele só quisesse imitar seu ídolo. Terminou a carreira como o terceiro maior cestinha de todos os tempos, superando Mike. Porém, faltou um título para conquistar os seis do ídolo. Mirou no topo e chegou perto, muito perto.

5’34” do 1º quarto – De novo no jump shot… e erra (0/5 para ele na partida)

Isso não seria possível se não fosse sua obsessão pelo basquete. Na melhor seleção do mundo, a 10 era dele, mas isso não o impedia de ser Kobe. Não interessava se a equipe tinha Lebron, Carmelo, Wade e Paul, nem lá ele relaxava. Não importava se o ouro no peito era barbada, ele acordava às 4h da manhã para treinar.

Porém, dentre tantos casos icônicos, Kobe deixou para seu último jogo a alegoria perfeita para descrever sua carreira. Utah vencia por dez pontos a menos de dois minutos e meio para o fim. O clima do jogo era festivo, Kobe tinha 48 pontos e com mais um arremesso faria a festa dos presentes. Adversários e companheiros de time tiraram o pé. Parece que esqueceram de quem se tratava.

2’16” do 4º quarto – Ele vai para a linha de lance livre… e converte as duas cobranças.

1’45” do 4º quarto – Ele vai para cesta, força a jogada… e converte.

1’27” do 4º quarto – Arremesso da cabeça do garrafão… e cesta.

0’59” do 4º quarto – Ele recebe na linha dos 3 pontos… e cesta.

0’31” do 4º quarto – Utah perde o arremesso, Lakers no contra ataque, Ele recebe a bola para virar a partida. Giro, arremesso… e CESTA!

Depois disso, ainda converteu mais dois lances livres. Foram 12 pontos seguidos. Terminou a partida com 60 pontos e quebrou mais um recorde, o de jogador mais velho a conseguir tal marca. Quem acompanhou o jogo de ontem até o fim, viu em quadra o que Kobe Bryant foi na carreira. Errou os cinco primeiros arremessos de quadra. Acertou os últimos oito (incluindo quatro lances livres).

Foi assim que Kobe decidiu a partida. Foi assim que Kobe decidiu construir sua carreira. Foi assim que Kobe decidiu parar.

Foi assim que Kobe decidiu…

Foi assim que Kobe…

Foi assim…

Foi.

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