O teto salarial no rugby union em 2017

O rugby union virou um esporte profissional há apenas 22 anos, em 1995. Quatro anos mais tarde, em 1999, já se tinha notícia da criação de um teto salarial no rugby union (o salary cap) na Inglaterra. Uma mudança rápida se comparada às ligas dos EUA, por exemplo, que levaram em média 50 anos. Resultado da profissionalização em uma era global, com muitos patrocinadores, marketing e direitos de transmissão disponíveis.

São cerca de 10 países que possuem campeonatos fortes, economicamente falando. Número inferior a quantidade de nações que disputam o campeonato mundial da modalidade, que são 20. A tendência é pensar que, neste caso, há mais oferta de jogadores bons do que a demanda, certo? Errado. Como falamos no EsporteCast #11, quando se trata de esporte, muitas vezes a emoção sobrepõe a razão. E na hora de montar o seu “time dos sonhos”, alguns abrem os cofres sem pensar no amanhã.

Leia mais: Como funciona o Television Match Official, TMO, no rugby


Explicando din-din por din-din

Como é possível ver no gráfico acima, os maiores salários (por ano) do rugby mundial ainda não são os mais altos do esporte mundial. Mas estão ficando cada vez mais inflacionados, pesando na conta das ligas. Especialmente naquelas comandadas pelas federações nacionais.

De forma geral, existem dois modelos na gestão profissional da modalidade. O primeiro com clubes privados, sem qualquer ligação com as uniões (no rugby, as federações são chamadas de uniões). O segundo com times regionais, administrados por entidades locais. Ou seja, a União define que os jogadores de tantas cidades vão fazer parte de uma equipe. Para trazer ao nosso contexto, é como se atletas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul formassem um único time no campeonato brasileiro. Paraná e São Paulo fazem outro. Minas e Rio mais um. E assim por diante.

Se você olhar novamente o gráfico, observará sete dos dez mais bem pagos atuando na França. Em times independentes. Não é à toa.


Àqueles que (quase) perderam o controle

Vamos começar pelos países com teto salarial e que não regionalizaram seus times profissionais: França e Inglaterra. Vale destacar que existem outras ligas que seguem este modelo de clubes privados, mas sem o teto salarial. São os casos da SuperLiga da Romênia, da Rugby Premier League da Rússia e da agora extinta Pro Rugby dos EUA.

França

Implementado em 2010, o salary cap do Top 14 (primeira divisão francesa) é o maior do planeta. Tudo por conta de contratos de TV exorbitantes e donos dispostos a gastar fortunas. Além disto, o campeonato tem inúmeras facilidades na folha salarial. Para cada jogador que atua na seleção francesa, são acrescentados 200mil euros ao limite. Ou seja, se o time tem um “jogador de seleção”, ele pode gastar acima do teto. Imagina com quatro ou cinco convocados?

Outra facilidade é que a soma de dois tipos de contratos de jovens jogadores libera ainda mais espaço. São pagos até 650mil euros anuais para jogadores do chamado contrato Espoir – contrato de esperança ou aspirante, em uma tradução livre (e melhor explicado no acordo de convenção coletiva entre clubes e jogadores) –  e outros 350mil anuais para jovens atletas que encaixam na categoria Joueurs Issus des Filières de Formation (JIFF) – expressão que quer dizer ‘jogadores de cursos de formação’ ou jogadores formados na base, também tradução livre.

Explicando: o clube pode, por exemplo, gastar 650mil por ano com cinco jogadores Espoir (130mil euros para cada) e outros 350mil com sete atletas JIFF (70 mil euros para cada) e isso não conta no teto. Se o elenco tem o limite máximo de 35 pessoas, o time do exemplo pode gastar 10 milhões de euros entre 23 jogadores.

Falando nos atletas da categoria JIFF, é necessário compor o elenco com ao menos 55% de jogadores deste tipo. Se habilitam ao JIFF jovens de até 21 anos que já atuaram por três temporadas no clube ou atletas de 23 anos que jogaram por pelos menos cinco anos no país. Só tem um problema nisso: o atleta não precisa ser francês. Alguém pensando em importação precoce de craques? Pois é.


Inglaterra

Como já comentado, a Aviva English Premiership (principal campeonato inglês) estabeleceu em 1999 o seu teto salarial. Contudo, com as recentes investidas através do rugby francês, os clubes ingleses se mexeram para tentar equilibrar a balança, criando algumas regras.

Uma das exceções do teto é o gasto com os chamados “créditos de academia”. Quando um jogador entrou no clube antes dos 18 anos (ou seja, foi da categoria de base – home grown), atualmente tem menos de 24 anos e ganha entre 30mil e 50mil libras, ele não conta no teto. Cada time pode gastar até 400mil libras com essa categoria. Se dividirmos esse valor pelo salário máximo permitido (50mil), são oito jogadores. Além disso, atletas entre 16 e 24 anos e que ganham menos de 30mil libras por ano não contam no salary cap.

Ainda existe a liberação de mais dois atletas que podem ser excluídos da conta, desde que cumpram alguns requisitos. Uma vaga com salário liberado é destinada à alguém contratado de fora do país (não jogava na Inglaterra). Outra vaga para um jogador que atuou dois anos seguidos no clube ou que atuou uma temporada inteira depois de ser “importado” (vide a primeira vaga). Ou seja, os casos de Manu Tuilag e Charles Piutau (quase R$2 milhões de salário, mostrado no primeiro gráfico) se encaixam entre estas exceções.


Àqueles que (ainda) se seguram

Seguindo com as nações que decidiram centralizar o mais alto nível profissional em times regionais. Estão incluídos nesta lista País de Gales, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Irlanda, Escócia e mais recentemente Japão e Argentina.

Galeses e australianos já estabeleceram oficialmente os limites nos salários. Os kiwis não admitem o teto e preferem usar o termo budget (orçamento). Sul-africanos, irlandeses e escoceses têm a folha salarial liberada. Já japoneses e argentinos merecem um post à parte.

País de Gales

Assim como seus vizinhos, os galeses também se profissionalizaram como clubes privados e independentes. Contudo, dificuldades financeiras forçaram a União de Rugby do País de Gales a criar cinco times regionais, em 2003. Menos de um ano depois, os Celtic Warriors faliram e o País de Gales reduziu-se a quatro equipes. O fôlego durou até os anos 2010. Um ano mais tarde, com o crescimento do rugby francês, nascia o teto salarial.

Atualmente, além do cap de pouco mais de R$17 milhões, a Wales Rugby Union busca manter suas estrelas por meio dos 16 National Dual Contract (NDC) – contratos nacionais duplos, em tradução livre – que aliviam as folhas dos times. A União arca com 60% do salário destes 16 jogadores enquanto que as equipes pagam apenas com 40%. Outro benefício é que atletas formados na base não contam para o teto.

Para incentivar a permanência no país, implementou-se uma regra de convocação para a seleção: apenas três jogadores que atuam fora do território nacional podem representar Gales. E jogador que pouco atuou na seleção tem menos chances de ganhar mais.


Austrália

Depois de anos de debates, rumores e boatos, as cinco equipes australianas do Super Rugby passaram a seguir um teto salarial em 2013. Os valores, se comparados a outras ligas, são baixos. Para evitar uma evasão em massa, a Australian Rugby Union aumentou o chamado Gross Player Revenue para 29%. Esse percentual é retirado da conta de patrocínios, direitos de transmissões, eventos, merchandising, licenciamento e outros tipos de fontes de renda obtidos pela união e distribuídos entre os jogadores.

Outra medida foi estabelecer critérios de convocação para jogadores fora do país, antes proibidos. Aqueles que atuaram por no mínimo sete anos na Austrália e tiveram ao menos 60 convocações para a seleção, podem jogar em outras ligas e ainda participar dos Wallabies. Partem os mais velhos em busca do seu pé de meia, ficam os mais novos, reforçando os times locais.


Nova Zelândia

Como os atuais campeões mundiais conseguem manter seus times tão fortes com salários baixos? Aliás, como os All blacks conseguem ser a mais reconhecida seleção de rugby union sem convocar qualquer jogador que atue fora da Nova Zelândia? Às vezes, dinheiro não é tudo. Ou quase.

Apesar de não admitirem utilizar um teto, os neozelandeses são restritos com a folha salarial. Mas nem tanto com os demais gastos. Conforme estabelecido no contrato coletivo entre a associação de jogadores e a New Zealand Rugby Union (NZRU), os atletas e clubes são compensados de diversas maneiras.

Se um jogador for convocado para treinar com a seleção, ele ganha um bônus. Participou de um jogo? Outro bônus. Dependendo do ano de convocações, um all black pode ganhar mais de R$285mil – além do seu salário. Para o time, ceder o jogador também reverte em pagamento, inclusive com seguro. Também há planos de aposentadoria, assistência a ex-jogadores e muitos outros benefícios. Só para 2017, a NZRU deve investir mais de R$50 milhões em incentivos e bônus aos jogadores que atuam no Super Rugby (campeonato internacional, com participação das cinco franquias nacionais). Desse jeito, para que ir jogar fora do país mesmo?

Obs: cotações todas convertidas em 30/03/17. Inglaterra e País de Gales utilizam libras esterlinas, França o euro, Austrália o dólar australiano e a Nova Zelândia o dólar neozelandês.

Matéria atualizada no dia 14 de abril de 2017, às 23h22.

Leia mais: dicas para entender o calendário internacional do rugby union

Foto de capa: Andrea Henk via Visualhunt.com / CC BY-ND

3 comentários em “O teto salarial no rugby union em 2017

Deixe seu comentário: