O sexismo e a baixa presença de mulheres nos eSports

O mundo dos jogos eletrônicos sempre foi dominado por homens. Se você é dos anos 80 ou 90, quando os videogames se popularizaram, e até dos anos 2000, deve ter ouvido a mesma história de que videogame é coisa de menino. Os personagens principais eram homens. O heroi era homem, o vilão era homem. Mas isso mudou.

A Pesquisa Game Brasil 2017 traçou o perfil gamer brasileiro e constatou que 53,6% dos jogadores de jogos eletrônicos são mulheres. Esse número cresceu 12,6% em relação à 2013, quando as mulheres representavam 41% dos gamers. Mas se tem tanta mulher jogando videogame, por que é tão difícil encontrar alguma nos e-Sports?

Imagem retirada da Pesquisa Game Brasil (www.pesquisagamebrasil.com.br)

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Sexismo naturalizado na comunidade de e-Sport

Diariamente as mulheres encaram nas suas partidas onlines ataques pessoais que não criticam seu talento ou suas habilidades, mas sim sua existência como ser humano do sexo feminino. Pergunte para uma amiga que jogue qualquer jogo online se ela já sofreu algum tipo de assédio ou simplesmente acompanhe (se tiver estômago) o chat de streamers mulheres. E isso se reflete no cenário competitivo. A pressão constante e os rages do público sexista dificulta a chegada delas ao cenário profissional.

Um dos casos mais conhecidos é o da jogadora de League of Legends Remi (atualmente Sakuya), ex-suporte do time americano Renegades, participante da LCS (League of Legends Championship Series) North America. Depois de vencer a Challenger Series do campeonato (divisão de acesso) em 2015 e participar de uma parte da LCS de 2016, Remi anunciou sua saída do time porque seus problemas de ansiedade e auto-estima foram “amplificados ao se jogar no palco e pelo rigoroso dia a dia de ser uma jogadora profissional, além da grande carga de estresse.

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“Ser mulher nos games é estar disposta a se defender a qualquer nova partida simplesmente por ter nascido mulher. Ser mulher nos games é estar preparada para nunca ser recebida de um jeito natural, é estar sempre nos extremos, sendo sexualizada ou rejeitada”.

Já é comprovado que as diferenças biológicas entre os gêneros não interferem em nada no desempenho em jogos eletrônicos. O que sobra é o preconceito e a luta diária das mulheres que querem chegar mais longe.

“Não há nada que incentive as players a se tornarem profissionais. E o preconceito acaba fazendo com que muitas desistam. As meninas que ficam, como a Luana ‘Ludarc’, jogadora de Smite, ou a Nicole ‘Cherrygumms’, jogadora de ​R​ainbow ​S​ix S​iege, sofrem preconceito ou assédio todas as vezes que aparecem em público online em streams.” diz Júlia Gandra Neves, fundadora do Rexpeita Elas, grupo e página de Facebook que busca igualdade de gênero na comunidade de e-Sport. “Ser mulher nos games é estar disposta a se defender a qualquer nova partida simplesmente por ter nascido mulher. Ser mulher nos games é estar preparada para nunca ser recebida de um jeito natural, é estar sempre nos extremos, sendo sexualizada ou rejeitada”.

Luta diária contra o sexismo virtual

Como na “vida real”, exemplos de assédio e sexismo sobram no mundo virtual. Como o caso de Thales “Machampz” Lopes, ex-técnico do time feminino de League of Legends Pink Storm, que chantageava meninas pedindo fotos íntimas para poderem entrar no time. A equipe demitiu o coach em março de 2016 e emitiu uma nota de repúdio.

Também no League of Legends, o caso da organização New Revenge e-Sports, que impediu a inscrição de um time misto no seu campeonato alegando que existia uma lei nos esportes eletrônicos que não permitia times mistos. A empresa Riot Games, criadora do jogo, disse que não faz nenhuma distinção de gênero, que qualquer pessoa pode participar dos seus campeonatos.

Ou o caso do pai que fez um apelo à comunidade do jogo Overwatch depois de perceber que sua filha de dez anos estava sofrendo com assédio nas partidas.

“O que mais me marcou foi uma vez em que os jogadores do meu time descobriram que eu era mulher. Foi bem no começo da partida e, a partir daí, não pararam mais os comentários sexistas. Eles diziam que eu estava colocando um menino para jogar por mim, que lugar de mulher é de suporte (função dentro do jogo)”, revela Júlia Neves.

Nayara Sylvestre também já passou por uma experiência parecida. Ela é jogadora, streamer, caster oficial da Blizzard no jogo Hearthstone e atualmente vive o e-Sport. “Teve uma vez, presencialmente. Estava em um evento de jogos de tabuleiro onde eu estava ensinando meu sócio a jogar com um deck, quando chegou um rapaz que também estava trabalhando no evento e perguntou ‘você está ensinando ela a jogar?’ e meu sócio disse que estava acontecendo o oposto, então o moço virou e disse ‘nossa, a coisa tá feia mesmo’”.

Tópico criado no fórum do jogo League of Legends


Quando não é biológica, a desculpa para a falta de mulheres no cenário competitivo varia entre culpar as próprias jogadoras, dizendo que não se dedicam o suficiente, até falar que seu lugar de destaque foi conseguido por causa de marketing.

É o caso de Vittória “Nio” Dutra, que foi selecionada na peneira do time de League of Legends CNB e-Sports, em 2015. A peneira reuniu 6 mil inscritos e Vittória foi a única mulher escolhida para o time, o que gerou críticas sobre a equipe ter selecionado ela apenas para ganhar destaque na mídia. “O cenário não é muito receptivo para garotas, com muitas sofrendo uma grande repressão e preconceito, o que causa insegurança”, comenta Nio.

Quando questionada se já teve vontade de desistir de jogar por causa do sexismo, Vittória respondeu “Nunca, ‘Desistir nunca, retroceder jamais’”. Mas não são todas as jogadoras que pensam assim. Segundo matéria da BBC Brasil, 35% das jogadoras já resolveram dar um tempo em jogos online por causa do assédio. Outras 9% optaram por parar completamente de jogar.

Além de dominar o cenário competitivo atual como jogadores, os homens também são maioria nas transmissões desses eventos, como casters. Mulheres que tentam o mesmo caminho sofrem com a exposição que o trabalho exige.

“Em muitas streams, após eu narrar um campeonato, quando olho os VODs (video on demand) deles, eu vejo a presença de alguns comentários como ‘manda essa mulher calar a boca’, e não apenas para me corrigir, simplesmente aponta o meu sexo e manda eu me calar”, afirma Nayara Sylvestre, que completa dizendo que “agora na twitch (site de streaming de jogos), por ter um chat interno, é muito comum alguns homens me mandarem mensagem no privado falando coisas desagradáveis.”

Página do Facebook do Rexpeita Elas

Uma das alternativas para tentar escapar do sexismo é a criação de campeonatos femininos. O Rexpeita Elas organizou o 1º Torneio Feminino de League of Legends, em 2016, como uma forma de incentivar as jogadoras: “Eu tenho muito mais amigos do que amigas que jogam LoL, e vi a oportunidade de conhecer novas garotas e ajudar a incentivá-las a entrarem para o e-Sport. A aceitação é boa por parte do público e das jogadoras, a cada edição temos mais engajamento”, conta Júlia Neves.

Além do League of Legends, diversos outros jogos online, como Counter Strike e Hearthstone, estão recebendo campeonatos femininos. E Nayara é otimista:  “Acredito que são etapas. Estamos na época em que as garotas estão sendo inseridas, estão crescendo com um vídeo game (mesmo que portátil). Na época em que eu era criança, não era comum uma menina ganhar um console ou mesmo um computador de presente. Hoje em dia já vemos isso acontecer. Então, sou positiva em pensar que esse é o nosso momento e que a tendência é só aumentar a inserção de garotas no e-Sport”.

Foto de capa: Nayara Sylvestre/Facebook

 

4 comentários em “O sexismo e a baixa presença de mulheres nos eSports

  • 20 de abril de 2017 em 13:16
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    Não existe campeonato de Candy Crush, Farm Saga e outros joguinhos similares a esses, deixem de fazer pesquisas baseados nesses jogos e vejam a real quantidade de mulheres jogando jogos eletrônicos competitivos, aí sim poderão questionar o motivo de não existirem tantas mulheres no cenário competitivo de e-sports

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    • 20 de abril de 2017 em 21:47
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      Conheço, jogo, faço parte de grupos e tenho contato com várias meninas que jogam League of Legends (melhor até que muitos meninos por aí). Além de existirem bastante streamers femininas. Não fale do que não conhece! Beijos

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  • 20 de abril de 2017 em 20:28
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    a resposta é simples, ou elas não querem ou n tem capacidade, afinal quem quer corre atrás, eu quis e joguei alguns campeonatos como go4lol e outros regionais, mas infelizmente não tivemos skill pra crescer e ficamos sem tempo para treino por conta de vida social, ou seja não tive capacidade.

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  • 21 de abril de 2017 em 19:28
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    Se são ruins tem que falar que são ruins mesmo. Se não aguenta não desce pro parque.

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