O recorde europeu do Arsenal e o fim da linha para Arsène Wenger

Os mais desavisados podem estranhar, mas o Arsenal de Arsène Wenger detém um recorde que gigantes como Barcelona e Real Madrid ou rivais nacionais como Manchester United e Liverpool estão longe de igualar. Desde as quartas-de-final de 2009-10 da Liga dos Campeões da Europa, quando o Arsenal foi eliminado pelo Barcelona pelo placar agregado de 6 a 3, o time defende o atual recorde de maior número de eliminações seguidas nas oitavas do campeonato, caindo nesta fase pelo sexto ano seguido após a eliminação desta quarta-feira para o Barcelona (sempre ele) pelo placar agregado de 5 a 1.

Tudo bem que em quatro destas ocasiões os adversários foram os poderosos Barça (2010-11 e 2015-16) e Bayern de Munique (2012-13 e 2013-14), além de uma queda para o Milan há quatro temporadas e a vergonhosa eliminação para o Mônaco na temporada passada. O problema em (quase) todos estes casos? Uma fase de grupos oscilante que rendeu apenas uma segunda posição e um confronto difícil no início do mata-mata. Apenas em 2011-12 o Arsenal venceu seu grupo, mas caiu de pé contra o Milan após ser goleado por 4 a 0 no San Siro e quase conseguir uma reação incrível no Emirates ao vencer por 3 a 0.

O Arsenal é atualmente o segundo time com mais classificações seguidas para a UEFA Champions League. Se classificando desde a temporada 1998-99, tem 18 participações consecutivas, apenas uma atrás do gigante europeu Real Madrid. Em uma liga consideravelmente mais competitiva que a espanhola, este é um grande feito para o clube. Mas nem esses quase 20 anos de participações consecutivas foram suficientes para tirar os Gunners da fila europeia.

A dupla eliminação nesta semana (o time também foi eliminado da Copa da Inglaterra no último domingo, quando foi derrotado pelo Watford em pleno Emirates por 2 a 1 e perdeu a chance do tricampeonato) pode indicar o fim da linha para Arsène Wenger, atualmente o treinador mais longevo em um clube no mundo todo. Se o francês não conseguiu levar nem os Invencíveis ao título europeu, imagine você o trabalho para levar adiante um time que se esconde dos grandes jogos nos tempos atuais, com Barcelonas, Bayerns e Real Madrids polarizando o futebol mundial.

A atual temporada começou de forma empolgante para os Gunners. A falta de concorrência interna parecia entregar o tão esperado título inglês de bandeja para o time do norte de Londres após 12 anos. No entanto, o time conseguiu tropeçar na própria incompetência (nem dá para colocar na conta das lesões nesta temporada) e vê cada vez mais longe o título do Campeonato Inglês nivelado mais por baixo dos últimos anos. Faltando nove partidas para o fim da disputa, o Arsenal ocupa a 3ª posição com 52 pontos, 11 a menos que o líder e grande surpresa Leicester (que já disputou 30 partidas). Pior: o time pode acabar o Inglês atrás do Tottenham, seu maior rival e atual segundo colocado do campeonato, após 21 anos. Somente uma reação histórica e a conquista do título nacional parecem um bom motivo para Wenger retornar para a próxima temporada.

O time

O Arsenal conta apenas com três jogadores acima da média e que poderiam ser titulares em praticamente qualquer time do mundo: o goleiro Petr Cech, o meia Mesut Özil e o atacante Alexis Sánchez.

Se a defesa não é a maior preocupação – Mertesacker e Koscielny formam uma boa dupla e têm em Gabriel um substituto à altura e que já conquistou a confiança da torcida, além de Monreal e do emergente Bellerín pelos lados, faltando apenas um bom volante de contenção como era Gilberto Silva no tempo dos Invencíveis –, o ataque dá calafrios aos torcedores.

A falta de um centroavante de nível mundial é preocupante. Mesmo em grande fase, Olivier Giroud não é 100% confiável. Com Mesut Özil em grande fase, é triste ver o francês desperdiçando tantas assistências. Danny Welbeck retornou bem de lesão e vem se esforçando bastante, mas simplesmente não é o suficiente para resolver o problema do ataque dos Gunners (vide a chance perdida no minuto final contra o Watford na eliminação da FA Cup no domingo que você pode conferir abaixo). Mesmo não sendo o jogador decisivo da temporada passada e sofrendo com lesões, Alexis faz o que pode para resolver, mas a responsabilidade de marcar gols não deve recair sobre o jogador, que atua pelas laterais do campo.

O próximo mercado de transferência é fundamental para as ambições do Arsenal. Mais do que nunca, é imprescindível a contratação de um atacante do nível de Benzema, Ibrahimovic, Lewandowski e Agüero, para citar apenas algumas referências. Um volante de contenção também será mais que bem-vindo, já que no momento só podemos contar com Francis Coquelin e Mohamed Elnany para a posição, mas o primeiro ainda é muito novo e o segundo mostrou pouco desde que chegou ao Emirates.

O fim da linha?

É inegável a importância do trabalho que Arsène Wenger desenvolveu no Arsenal nos últimos 20 anos e é óbvio que todo torcedor do clube é grato por isso, mas a permanência do francês neste momento passa por uma reação quase impensável. No primeiro título inglês sob seu comando, na temporada 1997-98, os Gunners, comandados pela dupla holandesa Overmars e Bergkamp, correram atrás de uma diferença de 11 pontos (a mesma que temos atualmente para o Leicester) para ultrapassar o Manchester United com uma sequência final de 16 jogos invictos, sendo 14 vitórias.

Desta vez, a missão é muito mais difícil. Faltando apenas nove partidas para o fim do torneio, o time precisa somar todos os 27 pontos para ter alguma esperança. Os adversários nessa reta final não são dos mais difíceis, o time somou 19 pontos contra os mesmos no primeiro encontro pelo Inglês, mas o time já mostrou em outros momentos da temporada que não tem a estabilidade necessária para conquistar os 27 pontos que ainda disputa. E esta é a única forma de se pensar em reverter a imensa vantagem do Leicester na ponta (o site Sports Club Stats aponta que o time tem 71,3% de conquistar o título, contra apenas 1,6% do Arsenal).

Nas últimas duas temporadas o descontentamento com os resultados conquistados pelo Arsenal de Wenger na Premier League e na Liga dos Campeões foi aplacado pelo bicampeonato da Copa da Inglaterra. Sem este escape após a derrota em casa por 2 a 1 para o Watford, não resta muito a se fazer a não ser começar a pensar em possíveis nomes para substituírem o manager.


Últimos jogos

  • Everton, fora (2×1 em casa no primeiro turno)
  • Watford, casa (3×0 fora no primeiro turno)
  • West Ham, fora (0x2 em casa no primeiro turno)
  • Crystal Palace, casa (2×1 fora no primeiro turno)
  • West Brom, casa (1×2 fora no primeiro turno)
  • Sunderland, fora (3×1 em casa no primeiro turno)
  • Norwich, casa (1×1 fora no primeiro turno)
  • Manchester City, fora (2×1 em casa no primeiro turno)
  • Aston Villa, casa (2×0 fora no primeiro turno)

Os candidatos

Pensando em um mundo perfeito, o Arsenal conseguiria buscar técnicos com filosofia de jogo próxima à que Wenger implantou no clube nos últimos 20 anos e que encanta muitos torcedores. Talvez os primeiros nomes que vêm à cabeça e que se encaixam no perfil estão (ou estarão, na próxima temporada) comandando clubes rivais. São eles Jürgen Klopp, do Liverpool, e Pep Guardiola, que está de malas prontas para trocar o Bayern pelo Manchester City na próxima temporada.

Pensando em possibilidades mais realistas, chegamos a uma lista final com quatro nomes: Ronald Koeman, Jürgen Klinsmann, Jorge Sampaoli e Diego Simeone.

Os últimos dois trabalhos de Ronald Koeman o credenciam como uma boa aposta. Tanto o Feyenord, que comandou de 2011 a 2014, quanto o Southampton, clube atual do treinador, apresentaram bons resultados sob seu comando e renderam sondagens para o comando da seleção holandesa. Por já estar no mercado inglês, é um nome que pode ganhar força.

Jürgen Klinsmann vem de dois trabalhos extraordinários. Foi ele quem lançou a pedra fundamental da seleção alemã que viria a conquistar a Copa do Mundo de 2014. Também pode ser colocado na sua conta o desenvolvimento da seleção dos Estados Unidos desde que a assumiu em 2011. A filosofia ofensiva e o excelente trabalho com as categorias de base são um grande trunfo para dar sequência ao legado de Wenger.

Jorge Sampaoli fez um trabalho exemplar com a seleção do Chile. O argentino teve aproveitamento de 69,84% dos pontos disputados entre 2012 e 2016 e levou La Roja ao seu primeiro título oficial em 2015 com a conquista da Copa América. Adepto de um futebol ofensivo (é fã do 3-3-1-3), não encontraria dificuldades em adaptar o elenco dos Gunners ao seu estilo de jogo. O fato de nunca ter comandado um grande time europeu pode pesar contra, mas, por estar desempregado, se torna uma excelente opção (e que já foi sondado inclusive pelo Chelsea).

Por último, talvez o favorito para o cargo. Diego Simeone vem se destacando nas últimas temporadas no comando do Atletico de Madrid ao quebrar a hegemonia de Barcelona e Real Madrid. Justamente por essa disputa desleal com os dois gigantes espanhóis e a falta de fundos para se manter no páreo, o treinador pode querer experimentar novos ares.

Pesa contra o argentino a filosofia de jogo completamente diferente ao que se viu nos últimos 20 anos no Arsenal, mas que é totalmente coerente com o estilo de jogo mais físico da Premier League. Sob o comando de Simeone, o Arsenal poderia voltar a ser o bom e velho boring Arsenal, o time que vence por 1 a 0.

Está em jogo uma ruptura total com o estilo de jogo que Arsène Wenger implantou nos últimos anos, o que pode gerar dificuldades de adaptação para o elenco. No entanto, pensando em quem está na arquibancada, pouco importa se o time vai fazer 3 belos gols após uma rápida troca de passes ou se o time vai ganhar pelo placar mínimo. O que o torcedor do Arsenal quer é voltar a ser um time que impõe respeito e ganha títulos.

Foto: Ronnie Macdonald via Visual Hunt / CC BY 

Um comentário em “O recorde europeu do Arsenal e o fim da linha para Arsène Wenger

  • 17 de março de 2016 em 21:37
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    Cara.baita matéria, infelizmente sou apaixonado por esse time hahahahaha Klinsmann acho massa, resta saber se o narigudo vai cair mesmo

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