O que a BFA pode aprender com a história do futebol americano no Brasil?

Quando surgiu, em fevereiro de 2017, a BFA – Brasil Futebol Americano mostrou que seria uma liga polêmica. Sua proposta é de transformar a competição nacional existente em um negócio, com os times sendo os próprios gestores da organização. A bola oval sequer chegou a voar e toda a comunidade do futebol americano no Brasil já está comentando, palpitando e projetando o futuro da competição. Apesar de fazer apenas um ano que Superliga Nacional e Torneio Touchdown se uniram, fica a pergunta: será que a BFA vai dar certo? O que se sabe, por ora, é que ao menos ela tem muito para aprender com a história do FABr. Analisando a história da política do esporte nacional e a construção da identidade e comunidade do futebol americano no Brasil, é possível apontar alguns itens que devem ser levados em consideração. O primeiro deles é justamente a transparência.

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Todos ainda se lembram do fim enigmático da falecida LFA e do encerramento misterioso do Torneio Touchdown. Em uma modalidade em que há tão pouca mídia especializada, com dificuldades de investigação e um trabalho de apuração  ainda limitado, cabe às próprias entidades (confederação, federações, ligas privadas e times) darem a versão oficial dos fatos. O anúncio do projeto como BFL para logo ser revelada como BFA pode entrar na lista dos acontecimentos mais controversos da história do FABr, já que, até agora, não se tem certeza se foi mesmo uma jogada de marketing ou ingenuidade dos organizadores. Transparência gera credibilidade e credibilidade é tudo na comunidade do FABr.

Outro ponto a ser considerado é a ambição. O presidente da BFA, Bruno Guilherme, declarou em entrevistas que a liga é ambiciosa. Que além de ser uma manutenção do formato da Superliga, ela encararia o campeonato como um negócio – exatamente como a NFL o faz – e que buscaria eventos grandiosos. Como se não bastasse essa postura “ousada”, o presidente ainda afirma que a organização tem como meta ser o segundo esporte com mais torcedores nos estádios em 2017 e iniciar as transmissões na TV aberta. No papel, tudo é muito bonito, mas não faz nem quatro anos que ouvimos um papo semelhante, certo? Ou todos esqueceram da LFA e a promessa de um estádio de mais de 4 mil pessoas em São Paulo, transmissão na Sportv, 42 jogadores americanos, cheerleaders e tudo o mais? Ambição é bom, até diria necessária, mas é preciso ser muito bem dosada quando o assunto é liga de futebol americano no Brasil.

Não é nem preciso citar um exemplo pontual para destacar a importância de fechar logo com um patrocinador master. Não foi somente a LFA que “fechou as portas” por falta do dinheiro que tecnicamente estava garantido, mas diversas equipes/franquias dos mais diversos esportes tiveram o mesmo fim pelo mesmo motivo no Brasil. A partir do momento que o esporte deixa de ser vantajoso como expositor de marca, a iniciativa privada perde o interesse e dificilmente se importa com o legado que essa decisão deixará.

Vale ainda a pena citar um argumento muito menos palpável, mas que permeia todas os cantos do FABr: a briga de egos. Por se tratar de um esporte relativamente novo e que chegou longe em um tempo tão curto, o que não faltaram foram “reizinhos” para liderar essa terra de ninguém. Não só a tensão CBFA x TTD é um exemplo do que pode acontecer quando desavenças pessoais separam toda uma comunidade, como um antigo gestor do FABr, que não quis se identificar, certa vez declarou em uma entrevista: a comunidade do futebol americano é um ambiente tóxico. Entre os próprios jogadores existe um sentimento de exclusividade, de se sentirem embaixadores e fundadores de um esporte que julgam pertencer só a eles. Muitas vezes isso se espalha para federações, campeonatos e vai refletir em rompimentos de equipes, insultos em redes sociais e, em casos extremos, até violência. O futebol americano ainda é um esporte muito jovem e frágil para ficar se autossabotando.

A possível gafe com o nome da nova liga ainda será motivo de muita discussão – e piadas

Por fim, é necessário citar que a profissionalização de qualquer esporte amador é um processo demorado. Se tem uma coisa que a BFA não pode esperar é a rápida resposta dos times para uma gestão mais eficiente e que consiga contribuir com a liga como o esperado. Claro que teremos times que já estão avançados em suas gestões próprias e que contribuirão muito para o crescimento da competição, mas muitos ainda precisarão de ajuda para captação de recursos e estruturação interna. Paciência é uma virtude primordial na história do FABr e, certamente, é a chave para que o esporte cresça e alcance patamares ainda desconhecidos. Já tivemos equipes disputando jogos de futebol americano em estádios da Copa do Mundo, mas não podemos esperar delas que, do dia para a noite, tornem-se também times de Copa do Mundo.

A BFA tem como vantagem que a maior parte das pessoas que construíram a história do futebol americano no Brasil ainda são ativas em seu cenário. Dessa forma, é mais fácil relembrar erros do passado e aprender com eles para conseguir uma liga de sucesso. É muito válido ressaltar que a própria comunidade deverá ter paciência, já que uma mudança tão radical na estrutura da principal competição brasileira é algo que deve ser feito com calma. Assim, quem sabe, finalmente teremos o campeonato que sempre desejamos ver no Brasil acontecendo num futuro bem próximo.

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