O Brasil que já ensinou vôlei, agora precisa aprender

Para os grandes entendedores de vôlei, esse texto pode parecer um pouco óbvio, uma discussão que não leva a lugar nenhum. Mas pra você que está chegando agora aqui no Time de Fora e no mundo do vôlei, é o início de um debate que vale a pena. Como estamos falando essa semana no EsporteCast sobre renovação no vôlei, vale entender porque o Brasil deixou de ser a grande potência mundial nos últimos anos. E isso está visível na ausência de títulos das últimas competições internacionais. É tudo culpa dos jogadores. Não de uma forma direta, não é uma questão de qualidade ou entrega, e sim uma culpa adquirida com o passar dos últimos tempos. Falta, hoje, material humano hábil para encaixar a equipe de Bernardinho no estilo de jogo que se mostra forte em todo resto do mundo. Na verdade, com o estilo que jogamos hoje, não temos atletas jogando nos clubes brasileiros e do exterior capazes de cumprir as funções necessárias para tornar o time competitivo ao mesmo nível dos últimos campeões olímpicos, mundiais e da Liga Mundial, ao mesmo tempo que não estamos atuando como seleção em quadra da maneira que equipes como Rússia, Sérvia, Polônia e Estados Unidos. De um lado, material humano. Do outro, estilo de jogo. O que é mais importante?

Voltemos ao ano de 2001, fatídica data onde Bernardo Rocha de Rezende assumiu a Seleção brasileira masculina de vôlei, determinado a tornar este esporte o mais vitorioso de nosso país. O fez com maestria, sem dúvidas, mas Bernardinho foi de muitas maneiras o cara certo, na hora certa, com os jogadores certos. Seja por visão sua, por oportunismo – no bom sentido – ou o que for, a seleção brasileira daquela época com as duas gerações que passaram pela mão de Bernardo em seu período de domínio encaixou o talento como uma luva em um estilo que ainda determinava sua cara.

A principal força mundial era a Itália, com seu jogo defensivo dominante, centrais com muita leitura de bloqueio e uma linha ao fundo da quadra com ponteiros passadores que têm, como missão, entregar sempre um passe A para o levantador. Assim, faz-se do volume de jogo a grande arma, apostando no bloqueio para aguentar o poder de fogo do adversário e esperando um bom momento para virar o ponto no central. Reconhece isso em algum outro time? Se você reconheceu, pode ser uma das pessoas de quem falei no início: você viu o mesmo que Bernardo viu lá em 2001. Um estilo de jogo assim necessita de quatro peças para ficar perfeito, e são elas: Giba, Serginho, Gustavo, Ricardinho. Um ponteiro passador com domínio dos fundamentos de recepção. Um líbero sólido, que entenda o esquema de jogo e saiba comandar a defesa. Um central especialista em bloqueio, com potencial para virar toda bola que caia na sua mão. E um levantador versátil (poderíamos dizer genial?), que entenda a força do ataque e distribua bem a bola, mantendo a defesa adversária confusa. Parece que estou citando a característica de cada um deles, mas estou listando o que faz deste estilo de jogo uma grande arma. Percebe como realmente encaixa como uma luva? Você que não é expert em vôlei também percebeu, a cada “Giba neles!” do Galvão ou a cada “Cravadassa!” do Datena.

Bom, mas se nós apenas nos adequamos a um estilo, o que fez sermos multicampeões? A raça brasileira? Não, foi o “destino”. Foi a coincidência de termos um Giba, que passa como nunca se viu no vôlei e consegue virar uma bola no ataque de qualquer lugar da quadra. Foi um Serginho líder na defesa e que transformava um passe B em A, um C em B e uma bola perdida em ponto para o seu time. Foi um Gustavo que ficava com 100% de aproveitamento de ataque em uma partida, enquanto fazia até o Ricardinho pontuar no bloqueio com suas leituras precisas. Foi um Ricardinho que pegava todos os passes do Serginho e sabia onde colocá-los para o Giba virar. Volto a afirmar, é um estilo de jogo que se completa com o material humano disponível – e aqui eu nem mencionei um Maurício que veio antes do Ricardinho, um Nalbert antes de Giba, um Dante completando o passe, um Rodrigão fechando a rede com Gustavo.

Fartura hoje, falta amanhã

Por todas as razões já citadas, o sucesso da seleção brasileira veio. Fomos campeões de tudo, e então voltamos para vencer tudo mais uma vez. Isso chama a atenção, e como ouvimos milhares de vezes, o Brasil passou a ser visado. Todos queriam nos vencer, queriam derrubar a hegemonia de Bernardinho, mas sempre tentaram ganhar do Brasil no jogo do Brasil. A Itália tentava vencer na cadência, nós eramos melhores. A Rússia forçava o jogo nos centrais, os nossos eram melhores. E então vieram os Estados Unidos. Na mesma lógica que expliquei antes, aqui o material humano encaixa com um estilo, uma ideia que já vinha sendo concebida.

Como bater um time com grande defesa, passes ótimos e ataque que praticamente não erra? Na força. Na potência de um ataque brutal, que possui quatro caras que viram qualquer bola, que penetram qualquer bloqueio. Nomes como Clay Stanley, David Lee, Ryan Millar, Sean Rooney e Reid Priddy montaram a seleção campeã olímpica de 2008 que marcou a transição de estilos. Com um jogo que não buscava sempre o passe A, mas sim não deixar a bola cair nunca, sua dependência no funcionamento do ataque era a única arma disponível. E funcionava. A ofensiva estadunidense era tão sincronizada que a defesa brasileira, por mais entrosada que fosse, não conseguia parar. Os caras viravam todas, não importava de onde.

A partir daí, a moda passou a ser privilegiar o oposto. Jogadores acabando a partida com 25, 30 pontos marcados, atacando 50, 60 vezes por partida. O voleibol passou a ser mais rápido, o volume de jogo das defesas sólidas não achava mais espaço contra uma equipe que batia forte no ataque, no saque e até no bloqueio, sem medo de errar e com a lógica “se eu erro um, acerto dois e ganho”. Jogar vôlei passou a ser brincar de franco atirador, e quem conseguiu se especializar nisso acabou vencendo. Vieram outra vez os Estados Unidos com Rooney e Stanley, a Rússia com Maxim Mikhaylov e Dmitriy Muserskiy – que era central mas destruiu de oposto nas olimpíadas (vídeo abaixo) e até mesmo a França com Earvin Ngapet – que é ponteiro, mas uma máquina de fazer pontos. A moda é atacar, não importa como.

O Brasil caiu de rendimento frente a este novo jogo, mesmo tendo caras como Wallace, Vissotto, Lucarelli, todos grandes pontuadores. Aqui faço meu argumento de talento x estilo, pois temos um bom material humano, mas fazemos errado. Ainda pensamos em jogar com o passe A, em cadenciar a partida, mas os caras do outro lado constantemente aceleram o jogo. Temos como principais nomes caras como Lucão, Sidão, centrais à la Gustavo, ponteiro à la Giba. Isso é bom, mantem uma característica nossa, de Brasil, mas é preciso perceber a mudança que acontece. Está quase impossível, hoje, sustentar este modo de jogo que se foca em ritmo. O vôlei está físico demais, rápido demais, e nós estamos, aparentemente, lentos.

Falta para nós o material humano. Se tivéssemos hoje o Giba, o Gustavo, o Ricardinho daqueles tempos, seríamos sim competitivos no mesmo nível dos outros gigantes do vôlei mundial. Mas, não temos. Num modelo de esporte onde alcançar a seleção é o objetivo maior, é o técnico que a comanda quem determina o valor de cada jogador, aquilo que vai ou não subir de nível no cenário nacional. E assim se priorizam, dentro das equipes nacionais, o estilo que impõe Bernardinho. Foco nos centrais pontuadores, ponteiros que passam, opostos em segundo plano. E quando um Lucarelli aparece, acaba subutilizado. É ele o perfil de ponteiro moderno, mas ele nunca receberá uma bola como faz o Murilo, e então o Lipe assume o lugar por ter esse fundamento mais desenvolvido.

Se nos falta o material humano, quem sabe é porque estamos tentando buscar os caras errados. Neste caso, é sim o estilo que vai impor o material humano. Na verdade, nosso problema não está na falta real de material humano, mas na falta ilusória de uma ordem, de um estilo certo para utilizar estes talentos. Fomos sim a renovação do vôlei mundial, lá em 2001, e hoje precisamos aprender a reconhecer o mérito do outro e reaprender a jogar, como fizeram nossos adversários uma década atrás.

Foto principal: Leandro’s World Tour via Visual hunt / CC BY

5 comentários em “O Brasil que já ensinou vôlei, agora precisa aprender

  • 7 de abril de 2016 em 12:16
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    O problema do Brasil hoje é duas posições o meio lucão é um jogador muito falho e lento no bloqueio e o levantador Bruninho que só ta como titular por causa do pai mesmo porque em sã consciência todos sabem que William é mais levantador que ele da pra ver isso claramente em quadra, e os números comprovam isso enquanto Willian ganha tudo no brasil e no mundo levando o cruzeiro o Bruninho está com grande dificuldade do modena ,esse ano é : INQUESTIONÁVEL a titularidade de Willian e vamos ver se Bernardinho vai ter mesmo essa sã consciência!!!!!

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    • 7 de abril de 2016 em 12:47
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      Não acho que o Lucão seja um problema, ele é uma arma poderosa no ataque do Brasil. O Bruninho tem todos os méritos de estar onde está, mas concordo que o William hoje parece ser um levantador melhor. Tudo vai também do entrosamento, um levantador só se dá bem quando conhece seus colegas, e o William tem essa vantagem no Sada/Cruzeiro, mas na seleção nem tanto.

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  • 7 de abril de 2016 em 22:53
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    Acho que deveríamos ter apostado em mais renovações para a seleção masculina,colocar esta rapaziada para obter rodagem,testar e ajustar novas peças. Acredito que necessitamos de um maior refinamento no trabalho dos centrais,uma vez que,com a rapidez que se joga hoje e em grandes revelações jovens de outras seleções,concordo integralmente com as adaptações necessárias no estilo de jogo! Ressalto que ainda assim considero o trabalho e a experiência do Bernardinho indispensáveis á seleção!

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  • 22 de agosto de 2016 em 01:34
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    Fala meu camarada.Texto muito legal.Mas agora,6 meses depois do mesmo, você acredita que o Brasil aprendeu?O que mais vimos nessa olimpíada foi o brilho do nosso oposto Wallace. E você também fala da importância do saque forte,mas a Itália mostrou na final o quão suicida pode ser esse estilo de jogo.Abraço!

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    • 23 de agosto de 2016 em 20:14
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      Fala Guilherme, obrigado pela leitura e pelo comentário! Olha, o Brasil aprendeu sim e muito! Aprendeu no quesito bloqueio, na inteligência de saque e nas necessidades que a equipe ainda possui. A presença chave de alguns atletas ‘coadjuvantes’, como Maurício Souza e Lipe, foi fundamental para a conquista do ouro, mas o mérito fica, nas palavras do Bernardinho, pro “trabalho”. Ainda publicarei um texto sobre isso, mas nós tivemos uma dedicação tática e uma evolução técnica impressionante durante os Jogos Olímpicos, algo de mérito da comissão técnica e da dedicação incansável dos atletas.
      Quanto a essa estratégia de serviço, ela só é suicida a partir do momento que o adversário sabe enfrentá-la. Daí digo que o Brasil aprendeu novamente contra a Sérvia, na final da Liga Mundial, e entrou muito mais ligado e estabelecido na linha de passe, novamente com méritos ao Lipe e ao eterno mestre Serginho. Matamos logo de início a confiança de Zaytsev e Gianelli, dois dos melhores sacadores italianos, e contamos com a pressão da inexperiência e o peso da final olímpica para enterrá-los de vez no desequilíbrio. E mesmo com alguns serviços colocados, nós também partimos para uma estratégia de saque forte, com Lipe, Lucarelli, Bruno, Lucão. Só que soubemos dosar esta medida, soubemos forçar quando se tem que forçar. Podemos ver o nosso reflexo na Itália, quando dentro desta final das Olimpíadas ela sentiu muito na linha de passe e acabou sem alternativas de saída, igualzinho a nós na decisão da Liga Mundial. No vôlei, a inteligencia (quase) sempre vence a força bruta!
      Espero ter respondido, e estamos aí para falar mais de vôlei sempre que quiser!

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