O adeus do sentimental Tim Duncan

Miami, dia 20 de junho de 2013. Jogo 7 das Finais da NBA entre Miami Heat e San Antonio Spurs. O placar marcava 90 a 88 para os donos da casa faltando um minuto para o fim da partida. Os Spurs recuperam a bola e trabalham o lance para Tim Duncan, o cestinha do time na partida com 24 pontos, decidir e empatar. A jogada sai melhor que o esperado e Duncan recebe de costas para a cesta sob a marcação de Shane Battier, atleta oito centímetros mais baixo. Ele dribla para o centro do garrafão preparando o gancho de direita que acertara milhares de vezes na carreira. Solta a bola, ela bate no aro e volta. Ainda tem rebote, mas no tapinha, ela caprichosamente não entra. O Heat pega o rebote e, controlando o relógio, segue sem pressa para o ataque. Duncan retoma sua posição na defesa e dá um tapa no chão. Miami pede tempo, volta, fecha a partida em 95 a 88 e leva seu terceiro título.

Durante o tempo pedido, a cara de desolação e frustração de Duncan no banco parecia um claro sinal de que o campeonato estava perdido. Todos estavam surpresos com seu tapa no chão. A raiva expressada de forma espalhafatosa se tornava ainda mais gritante por se tratar dele. O ídolo frio e inexpressivo, que nunca deixara se abater por nada, perdeu o controle. San Antonio, que sempre aranjava um jeito de sair com o título, perdeu uma final pela primeira vez, justamente a vez em que Tim Duncan perdeu o controle.

Nesta segunda-feira o ídolo maior do San Antonio Spurs e futuro Hall da Fama anunciou sua aposentadoria depois de 19 anos jogando pela equipe texana. Uma lenda do basquete, maior vencedor de sua geração e tido como o melhor ala-pivô da história da NBA. Não é para menos.

Duncan começou com tudo na liga e, logo no seu ano de estreia, venceu o prêmio de melhor calouro. No ano seguinte, levou o prêmio de MVP das finais no primeiro de seus 5 títulos (1999, 2005, 2007, 2014). Aliás, foram 3 MVPs das finais e dois MVPs da temporada regular. A única final que perdeu, foi justamente aquela de 2013.

Tim conquistou 50 ou mais vitórias em 18 das 19 temporadas disputadas – sendo que única em que não conseguiu, teve apenas 50 jogos disputados por causa de uma greve dos atletas. Chegou aos playoffs em todas elas. Além disso, neste ano entrou para o grupo dos quarentões a jogar NBA e se tornou o primeiro jogador a vencer mais de 1.000 partidas com uma única equipe na liga (terceiro no geral).

Com todo respeito à George Gervin e David Robinson, Duncan é o San Antonio Spurs. Assim como o técnico Gregg Popovich. A dupla transformou a franquia mediana de uma cidade com pouca tradição esportiva em uma das mais vencedoras da história do basquete. Tim e Pop são tão importantes para San Antonio quanto o preto e o prata.

Foto: Rick Scuteri/ AP Photo
Foto: Rick Scuteri/ AP Photo

Duncan não quis sair da universidade de Wake Forest para NBA sem seu diploma, resultado de uma promessa que fez para sua mãe antes dela falecer, quando ele ainda tinha 14 anos. A inteligência acima da média, aliás, faz Popovich crer que o futuro do ex-ala pivô não será à beira da quadra. “Nós sabemos que ele é esperto demais para ser treinador”, brincou Pop ao responder uma das perguntas da coletiva emocionante dada nesta terça-feira.

Formado em psicologia, Timmy soube mais do que ninguém controlar suas emoções em quadra. Mais de 99% de sua carreira foi assim (essa bola contra o Suns nos playoffs de 2008 é exceção), mas isso não quer dizer que elas não estivessem lá. Chega a ser curioso como muitos falam da frieza de Tim Duncan, como se só o rosto pudesse exprimr sentimentos. Mas cada um dos 26.496 pontos de sua carreira, cada um dos 15.091 rebotes que pegou, cada um dos 3.020 tocos que deu nesses 19 anos era uma demonstração de amor pelo jogo e unicamente pelo jogo. 

Ninguém consegue ter os fundamentos perfeitos da forma que ele tinha, aguentar os trash talks ou ser o líder que foi sem emoção alguma. Conquistou tudo sem precisar esbravejar, pois suas conversas ao pé do ouvido e abraços afetuosos sempre davam conta de guiar os Spurs às vitórias (71% enquanto esteve lá, um recorde nos quatro esportes americanos). Sua dedicação descomunal pelo basquete não virava notícia, pois aquilo não era uma novidade, era ele sendo ele mesmo. Timmy raramente batia no peito. Nunca fazia gestos mostrando “eu sou foda”, ou enrolava suas renovações de contrato para tirar o máximo do que sua franquia podia dar. Era simples, prático e eficiente como seu bank shot, o arremesso de tabela que marcou a sua carreira.  Tudo por San Antonio. Tudo pelo basquete.

Infelizmente, poucos percebem a dificuldade de seguir a filosofia do “menos é mais” e de fazê-la com a genialidade que The Big Fundamental fez. Não à toa, o camisa 21 tem uma série de recordes na NBA. Não à toa, conquistou tudo o que conquistou. Não à toa, elevou uma franquia da forma que só Jerry West, Bill Russell e Michael Jordan fizeram. Só quem ama muito o que faz alcança esses feitos. Sorte de quem percebeu as inúmeras emoções no jogo de Tim Duncan.

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