Que tal novas regras para o futebol?

Há 153 anos, o “Football Association 1863 Minute Book” foi divulgado contendo as 13 regras básicas que definiram o nascimento do futebol. Na realidade, as normas não eram tão detalhadas, mas a união dos estilos de jogo das regiões de Cambridge e Sheffield ajudou a moldar o esporte que ainda é o mais popular do mundo (e diferenciou a modalidade de outros tipos de “futebol”, como o de Rugby). O mais interessante é que essas 13 leis originais definiam um futebol muito diferente desta versão moderna que é transmitida de segunda-feira à domingo no seu pay-per-view mais próximo. E hoje, quando alguém refuta novas regras para o futebol, não faz nem ideia desta história.

Leia mais: Primeira Liga deve olhar para MLS e A-League

Outro futebol, outras regras

Para se ter uma ideia, nos primeiros anos era muito comum qualquer jogador pegar a bola no ar e pedir o fair catch para dar um tiro livre (no melhor estilo “Vitória!” do jogo de taco). Mas passar a bola para a frente, nem pensar! Isso até ser criada a regra do impedimento, em 1866, que liberava o lançamento em profundidade – desde que três defensores estivessem entre o atacante e o gol. Só em 1871, por exemplo, nasceu a posição de goleiro. E três anos mais tarde começaram a escalar árbitros para os jogos. Pênaltis, laterais, escanteios, tiros de meta, tempo de jogo, áreas e números obrigatórios de camisa vieram como criações ou adaptações das regras originais, até meados de 1939. E infelizmente tudo parou com a segunda Grande Guerra.

Jogadores da Seleção de 1958 falando ao telefone. Imagine eles conversando sobre novas regras para o futebol.
Título: World Cup 1958 Brazilian Team holding Ericofon’s – Crédito de foto: Ericsson Images via Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

A estabilização

As mudanças voltaram a acontecer a partir de 1958 com a autorização da substituição única (em caso de lesão) durante o jogo. Mais doze anos sem alterações até a criação dos cartões (amarelo e vermelho, claro) na Copa de 70. Novas modificações só em 1992, quando se estabelece que o goleiro não pode pegar a bola com as mãos em um recuo. E em 1995, quando são implementadas as três substituições que conhecemos até hoje. A partir deste ponto, o futebol estagnou. Ao menos nas regras.

A história mostra que a popularização ocorreu justamente neste período em que as (agora) 17 leis menos se alteraram, a partir dos anos 50. Uma das chaves para a expansão estava na facilidade em aprendê-las. Assim, a modalidade chegou aos quatro cantos do planeta e seu campeonato mundial se tornou mais popular até mesmo do que as Olimpíadas. Só que esse sucesso trouxe certo conservadorismo para a International Football Association Board (IFAB), orgão criado em 1886 para “proteger” as Leis do Jogo. Com o lema de “manter a universalidade da regras e não promover mudanças apenas por mudar” a IFAB quase transformou as 17 normas em dogmas. Existia um medo da mudança, ao velho e bom “time que está ganhando não se mexe”. Uma situação que durou até 2012.

Novos tempos, novas regras

Talvez foi a natural renovação dos comandantes que motivou essa “abertura de mentalidade”? Quem sabe o desejo de clubes, jogadores e imprensa para atualizar o esporte finalmente foi ouvido? Ou será que os diversos casos de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA fez a  “água bater na bunda” e a cúpula da IFAB resolveu finalmente se mexer? Para esse texto, em especial, isto pouco importa. A grande questão é que diversas propostas são estudadas e aprovadas. Algo impensado para àqueles que, como eu, cresceram vendo o esporte bretão nas décadas de 90 e 2000.

Quem ia imaginar que veríamos a utilização da tecnologia de linha do gol durante um Mundial de Clubes, quiçá em uma Copa do Mundo? Ainda em 2012, a FIFA passou a liberar a utilização de 12 atletas no banco de reserva, regra aplicada no Brasil em 2013. Desde o ano passado vem se debatendo a questão dos uso de replays no futebol, como você pode ouvir no nosso primeiro EsporteCast. E agora, no último dia 18 de março, foi anunciado que a quarta substituição (permitida apenas durante a prorrogação) passará por testes nos Jogos Olímpicos.

Mas e se mais mudanças viessem? E se outras regras fossem implementadas? Segue a lista:

  • Dois tempos de 30 minutos, com paradas no cronômetro

Antes que você se desespere e grite aos quatro cantos “isso aqui não é futebol americano”, saiba que a própria FIFA recomenda que o ideal é que os jogos tenham mais de 60 minutos de bola rolando. Para se ter uma ideia, o Brasileirão 2015 teve média de quase 55 minutos, com apenas 58 jogos (de um total de 380) passando a marca de 1 hora. Então por que já não tornar isso o padrão?

Dois tempos de 30 minutos, com paradas no relógio em laterais, escanteios, tiros de meta, substituições e atendimentos médicos. Seria o fim da catimba, do desaparecimento de bolas (por parte dos gândulas) e dos acréscimos dados sem critério algum. Se a preocupação é com o tempo de transmissão na televisão, os jogos de futsal (com dois tempos de 20 minutos) duram entre 1h e 1h20 de transmissão, contando o intervalo. Dadas as devidas proporções, é possível encaixar uma partida nas 2h que normalmente transcorrem.

  • Cartão amarelo, 10 minutos fora

Sim, essa regra é totalmente copiada do rugby, mas isto não desmerece sua função. Já adianto o argumento de que a aplicação do cartão amarelo não necessariamente resulta em uma punição à equipe. Ou seja: não é porque o time ficará com um a menos durante 10 minutos que vai tomar um gol ou vai perder a partida. Mas esse não é o objetivo. A realidade é que a punição do amarelo é praticamente inexistente em uma partida. E, talvez por isso, observamos árbitros distribuírem cartões como se estivessem panfletando. Ok, dentro dos campeonatos existem formas de punir esse “jogador amarelado”, mas durante a partida é incomum surtir algum efeito.

Imagine quantas vezes você viu a situação de um zagueiro dar um carrinho no atacante e acertar o tornozelo (sem tanta violência para uma expulsão). A reação imediata (ao menos nas partidas da Conmenbol) é juntar aquele bolo de jogadores em cima do juiz. Outros indo tirar satisfação com o jogador que deu o carrinho, aquela muvuca. O árbitro vai lá, mostra o amarelo e sinaliza o tradicional “chega” com as mãos.

Na jogada seguinte, o atacante (ou seu companheiro), ainda indignado, devolve o pontapé e o circo está armado. Mas, e se o zagueiro fosse amarelado e saísse para “beber uma água” durante os 10 minutos, será que os ânimos seguiriam acirrados? Ou melhor: sabendo que ele pode ser punido, será que ele não pensaria antes de executar o carrinho? É preciso tornar o amarelo algo muito maior do que um simples alerta. Avisar, só por avisar, os árbitros já fazem.

  • Ao invés de três, cinco substituições

Está aí o sonho de treinadores com elenco inchado, que erraram a escalação prévia ou que estão em busca de uma milagrosa virada durante um jogo. Eu sei, parece muito, até mesmo para o mais viciado gamer de Football Manager. Contudo, é importante lembrar que nível atlético do futebol atual é muito superior se comparado ao de 1995, quando se estabeleceram as três trocas. Levando em contas as temporadas cada vez mais desgastantes (inclusive na Europa), uma maior rotatividade das peças permitiria (em tese) manter a equipe mais saudável e em alto nível. Claro, existem equipes que aguentam jogar de ponta a ponta. Mas a possibilidade dada aos técnicos de mudar drasticamente o time seria mais um fator emocionante da partida.

  • Empate em 0x0, sem ponto para ninguém

Retranqueiros de plantão, me perdoem, mas não tem nada mais chato que um jogo sem gols. Aliás, se você parar para pensar no assunto, levando em conta ingresso, deslocamento e demais gastos que o torcedor acumula indo ao estádio, é até um desrespeito com o “consumidor”. Entenda, o problema não é o empate. E sim é a falta de gols, seja por incompetência ou por opção tática. É muito difícil acabar com o anti-jogo, mas punir um 0 a 0 pode ser uma das soluções. Vamos pegar o último Brasileirão como exemplo. Se esta regra fosse aplicada, equipes como o Figueirense (com 5 empates em zero a zero) e Coritiba (4 empates em zero a zero), poderiam ter sido rebaixadas no lugar de Avaí e Vasco. Claro, se não levarmos em conta a próxima nova regra…

  • Ponto bônus para 3 ou mais gols

Lá vamos nós beber da fonte do rugby novamente, só que esta regra não é mais unanimidade em todos os campeonatos de union. A explicação é simples: toda vez que uma equipe marca quatro tries na partida (seja vencendo ou perdendo), ganha um ponto bônus na tabela. Para o futebol, a aplicação seria com 3 gols ou mais. Se a partida acabou empatada em 3 a 3, dois pontos para os times. Goleada de 4 a 0? Quatro pontos para o vencedor. O importante é premiar a equipe que marcar muito. Confira abaixo como ficaria a tabela do último Brasileirão, com os acréscimos de ponto bônus (B) e o empate zerado (Z).

Tabela brasileiro zerado e bônus

Na tabela: Z = empates zerados, B = ponto bônus


Gostou das ideias? Que outras regras você gostaria de ver no futebol? Deixe ai nos comentários!

Foto principal: Thomé Granemann

4 comentários em “Que tal novas regras para o futebol?

  • 23 de março de 2016 em 19:47
    Permalink

    Muito bom Thome, parabéns.

    Resposta
  • 26 de novembro de 2016 em 13:12
    Permalink

    Excelente! Alem dessas regras eu acrescentaria mais algumas.

    1- A semelhanca do futebol americano, o campo seria dividido em zonas. Haveria linhas paralelas de lado a lado do campo, e essas zonas seriam definidas em funcao da distancia ate o gol.
    2-Haveria 3 zonas.. Zona 1 a grande area. Zona 2 o espaco entre a linha da grande area e a nova linha . Zona 3 o espaco alem dessa linha.
    3- O gol marcado dentro da grande area (zona 1) valeria um ponto. Gol feito dentro da zona 2 valeria 2 pontos. Gol marcado na zona 3, 3 pontos.
    4- Apos cada gol haveria um tiro livre direto extra, semelhante a um penalti, que valeria um ponto. Esse chute extra traria mais emocao a partida ampliando a possibilidade de gols. Exemplo..Gol feito dentro da grande area, zona 1 (1 ponto + 1 chute extra, poderia chegar a 2 gols), gol feito dentro da zona 2 (2 pontos + 1 chute extra, poderia chegar a 3 gols), gol marcado na zona 3 (3 pontos + 1 chute extra, podendo chegar a 4 gols).
    5- As faltas seriam cobradas sem barreira.
    6- Como no futsal, o lateral seria cobrado com os pes
    7- A partir de 10 faltas, estas passariam a ser cobradas da marca do penalti.

    *Desculpe a falta de pontuacao, o meu teclado esta desconfigurado.

    Resposta
    • 7 de março de 2017 em 16:05
      Permalink

      Olá José, obrigado pelo comentário!

      São ideias bem ousadas, imagino que poucas pessoas aceitariam qualquer coisa que venha do futebol americano, por exemplo. Eu não tenho esse preconceito, mas consigo ver a galera do “futebol raiz” mais revoltada hahahaha.

      Confesso que, se usassem alguma das regras que coloquei, já seria um enorme avanço.

      Abraços

      Resposta
  • Pingback: Polêmicas e acertos do árbitro de vídeo na Copa das Confederações

Deixe seu comentário: