A NFL não dá a mínima para a violência contra a mulher

Quando você digita no Google o nome do atleta “Perrish Cox”, os primeiros resultados que aparecerão serão “NFL”, “stats”, “Titans” e “highlights”. Nenhum dos primeiros é relacionado a seu julgamento, quando o jogador foi absolvido de acusações de drogar, estuprar e engravidar uma mulher.

O exame de DNA, o qual o advogado de Cox acusou estar contaminado, atestou que o Defensive End era o “pai” da criança – entre aspas mesmo, no maior dos sentidos que elas possam passar. Isso aconteceu em 2010, na sua temporada de estreia na liga, e, desde então, Cox passou por cinco equipes até tornar-se agente livre em 2017. Foi como se nada tivesse acontecido.

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Essa é apenas a história de um jogador. Na imagem que abre a matéria estão fotos de diversos homens acusados de vários crimes diferentes: intimidar mulheres, bater em mulheres, assediar mulheres, estuprar mulheres. Se na lista dos seus atletas preferidos estão:

…talvez você deva rever alguns conceitos extra campo.

Um julgamento criminal seria uma experiência pessoal muito invasiva. (…) Um julgamento para o público não seria do seu interesse para seguir com sua vida”, escreveu a família da estudante que acusou Ben Roethlisberger de estupro

A cultura que a NFL nos passa através de seu código de conduta altamente deturpado dá margem para críticas necessárias. Tem alguma coisa errada com uma liga que suspende um jogador por uma temporada inteira por uso de substâncias ilícitas — como aconteceu em 2016 com Martavis Bryant — e dá meros dois jogos de gancho para um cara que nocauteou a namorada no elevador — como foi com Ray Rice, ex RB dos Ravens. Não questiono a punição severa para o uso de drogas (Bryant era reincidente e por isso tomou uma pena maior), mas sim a punição branda (quase nula) para crimes contra a mulher.

O caso de Rice estourou na mídia e na opinião pública, mas não foi o primeiro. Em fevereiro de 2014, o jogador teve uma suspensão pífia de duas partidas quando foi acusado de bater na então noiva (hoje esposa), Janay Palmer, em um elevador. Não bastasse a falta de uma pena severa, o Baltimore Ravens, time do running back na época, realizou uma coletiva de imprensa onde ela desculpou-se pelo seu “papel” no acontecimento.

Janay Rice declara que lamenta profundamente o papel que teve na noite do incidente”, tweet da conta oficial do Baltimore Ravens em 23 de maio de 2014 

IMAGENS FORTES: Veja o vídeo da agressão de Ray Rice

Quando o vídeo da agressão foi divulgado em setembro mostrando um nocaute, o comissário Roger Goodell alterou a punição de Rice e divulgou um “novo” — mais uma vez as aspas se fazem necessárias  — Código de Conduta da NFL. Este documento supostamente serviria como uma diretriz de aplicações e punições mais rígidas, nivelando com a gravidade das infrações cometidas. Não só pelos jogadores, mas também técnicos, donos de times e quaisquer pessoas com o trabalho relacionado à NFL.  

nfl violência contra a mulher
Alguns crimes contra mulheres que o Código de Conduta da NFL avalia são violência física e psicológica, abuso sexual, estupro, assédio e outras ofensas sexuais. Em amarelo, o documento afirma que mesmo sem condenação na Justiça, se a Liga julgar as infrações passíveis de punição, o infrator será sujeito a medidas disciplinares. Em vermelho, esta assinalado que qualquer conduta que possa manchar a integridade da NFL, seus times ou seu pessoal está proibida.

O código de oito páginas em si é bem interessante. O documento cita diversas situações que devem ser punidas e chega a mencionar uma punição específica de pelo menos seis partidas para crimes de violência contra a mulher, desconsiderando agravantes que podem aumentar a pena. Também há menções à reabilitação dos condenados e existe uma postura firme da NFL em relação a todos os atos condenáveis. O problema é que a Liga fala uma coisa, mas caminha para um caminho oposto.

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Em vermelho: “Uma primeira infração será sujeita a suspensão sem multa de seis jogos, que poderá ser agravada por fatores mitigantes. (…) Uma segunda infração resultará em banimento da NFL”.

Parece que a Liga quer assumir responsabilidade sobre o caráter moral de seus jogadores. Parece que a Liga se preocupa com as mulheres. Parece. Na verdade, é praticamente um caso de relações públicas — e não muito bem feito. O código de conduta da NFL é um punhado de papel rasgado na nossa frente todas as vezes que aparece uma nova notícia sobre violência contra a mulher e nada é feito. Quer exemplos? A história do kicker Josh Brown.

Ele admitiu para nós que abusava da esposa no passado, mas acho que não está claro a extensão disso. (…) Josh tem trabalhado nesses problemas com terapia e aconselhamento por um longo período. Permanecemos apoiando Josh e seus esforços”, falou John Mara, um dos donos do time, após a NFL anunciar a suspensão de uma partida. 

É bom citar este caso pois ele é recente demais para que se encontre qualquer justificativa de mudança de comportamento da Liga. No início da temporada 16-17, o kicker foi suspenso por UM jogo devido a acusações de violência contra a mulher em 2015. Em outubro, surgiram documentos da Polícia comprovando as agressões. A parte mais surreal do caso é que o kicker confessou a dirigentes do Giants que batia na mulher, mas foi só quando os documentos foram divulgados na imprensa que o time dispensou o atleta. Antes disso, ele chegou a reassinar seu contrato com a equipe. A presidência do Giants ainda declarou que achava ter feito uma avaliação justa do caso.

Quer outro exemplo? Vamos ver o draft desse ano.  

“Ele tem um bom tamanho, boa velocidade e teve trabalhos muitos fortes na primavera. Sua fita é muito boa. Um daqueles jogadores ‘limpos’. Nós fomos sortudos de tê-lo como opção de pick no final da primeira rodada”, declarou o técnico do Raiders Jack Del Rio após o draft de Gareon Conley

Gareon Conley (25ª escolha, Los Angeles Raiders), Joe Mixon (48ª, Cincinnati Bengals), Dede Westbrook (110, Jacksonville Jaguars) e Caleb Brantley (185ª, Cleveland Browns) foram escolhidos. Conley foi acusado de estupro em abril; Mixon socou uma mulher em 2014 e quebrou ossos de seu rosto; Westbrook têm acusações de 2012 e 2013 de bater na mulher de seus filhos, mas nunca foi autuado ou preso; Brantley nocauteou uma mulher e fez com que ela perdesse o dente. Todos os quatro têm acusações contra si, mas isso não foi empecilho para que entrassem na NFL.

I’m Thankful🙏 #YesLawd

Uma publicação compartilhada por Joe Mixon (@joemainmixon) em

“Eu não sei de alguém que não ficou com desgosto de ver aquele vídeo (de Mixon batendo na garota). Mas é um dia na vida de um jovem. Ele teve que viver com aquilo desde então e vai continuar a viver depois disso”, disse o técnico Marvin Lewis a respeito de Joe Mixon

IMAGENS FORTES: Veja o vídeo da agressão de Joe Mixon

São várias as conclusões que podemos tirar a partir desses exemplos — e olha que há muitos outros. A NFL segue os padrões de uma sociedade misógina e machista quando esnoba as acusações e é indiferente à vítima. Ao invés de levantar uma bandeira contra a visão ultrapassada da sociedade, dá um péssimo exemplo quando nega seu próprio Código de Conduta. A NFL prefere culpabilizar a vítima e dar mais importância ao atleticismo de seu jogador em detrimento de priorizar seu caráter.

Para quem vê os fatos e justifica suas ações em pensamentos retrógrados, é a fuga perfeita. Quem fica indignado com os desencadeamentos de cada caso deixa de apoiar o esporte por fatores externos. A mensagem que se passa às vítimas é que elas não importam. E as pessoas que sofrem de violência em suas casas, as vítimas que não estão na mídia, importam muito menos. Se um jogador da NFL pode cometer crimes com frequência sem tomar punição mesmo com diversas acusações e provas, porque o seu marido, que bate em você quase todos os dias e nunca aparece na mídia, será culpabilizado?

Com a crescente onda mundial de empoderamento feminino e com discussões necessárias tomando espaço na mídia e sendo consideradas questões relevantes para a sociedade, falar que a atitude da NFL é um tiro no pé é um eufemismo dos grandes. É um suicídio de sua imagem pública que fica mais manchada todos os dias. Todos os dias em que aparece um novo fato e pouca ou nenhuma atitude é tomada pela maior Liga de Futebol Americano do mundo.

Jogadores da NFL acusados de violência contra a mulher

Abaixo, segue uma lista de 53 jogadores com acusação de violência contra a mulheres. Existem casos de estupro, violência doméstica, abuso sexual, assédio psicológico e outros. Lembrando ainda que existem diversos casos que não estão retratados, pois foi feito um levantamento geral dos últimos dez anos. É extremamente importante ressaltar que estes são os casos que chegaram à polícia. Muitas vezes, as mulheres têm medo de proceder com acusações formais — e existem muitos motivos por trás dessas escolhas. Uma delas é que esses homens são ídolos de muitas pessoas. A outra é que, como já vimos no texto, é muito difícil de eles receberem qualquer punição à altura dos crimes que cometeram.

Crédito das fotos: nfl.com

Foto de capa: montagem Gabriela de Toni – crédito: nfl.com

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