Rio 2016: Não basta vencer, tem que desfilar talento

Quem esteve no Maracanãzinho na noite do dia 14 de agosto de 2016 esperava um belo jogo de vôlei, mas não viu. Ao invés disso, presenciou uma apresentação de gala, com as melhores jogadoras de quadra do mundo desfilando seu talento a cada saque, bloqueio, ataque e defesa. Parece, porém, que a maioria destas talentosas jogadoras se concentrou de um lado só da quadra, vestindo amarelo e azul e cravando um humilhante 3×0 no placar.

O duelo entre Brasil e Rússia era, de longe, o mais esperado destas Olimpíadas no voleibol feminino. Num grupo relativamente fácil, com apenas estas duas equipes sendo as grandes potências mundiais, era no confronto direto que se decidiria a primeira colocada, e o Brasil chegava solidamente como favorito. Agora, é impossível qualquer pessoa ter imaginado que esta partida penderia tanto para um lado só.

O que vimos em quadra foi algo tão bem construído e executado que me arrisco a dizer: desde os tempos dourados de Bernardinho e os homens do vôlei que não vejo uma atuação tão perfeitamente orquestrada (comparação já feita antes por aqui). Não fomos perfeitas em tudo, é impossível, mas se existe forma de se aproximar da primazia dentro de quadra, é assim que se faz.

Foto: CBV. Arte: Vinicius Schmidt.
Foto: CBV. Arte: Vinicius Schmidt.

Nosso bloqueio apareceu de vez, e agora sem Jucy e com Thaísa titular. A central camisa 6, depois do jogo, afirmou que esta é a grande preocupação dela: melhorar o bloqueio. Se é pra falar de meio de rede, abram alas para a rainha Fabiana, a atleta mais completa desta geração. Nosso ataque funcionou como música, Sheilla finalmente fez jus ao crédito dado a ela por nós de melhor do mundo, Natália esteve potente como nunca e precisa como sempre, e Dani Lins… ah, Dani Lins, como jogou bola esta mulher.

Costumeiramente, Dani gosta de ter o time inteiro nas suas mãos, distribuindo a bola para todo mundo, pra ninguém esfriar e, caso precise ser acionada, esteja pronta pra pontuar. Isso já voltou para nos incomodar, com uma equipe sem ritmo no meio da partida e inconstante nas viradas. Não nesta noite, porque iríamos encarar um bloqueio russo, alto e forte como de costume, então era preciso sim encontrar sempre a atacante mais bem posicionada. Nossa levantadora deu um show, entortou as adversário e fez o time rodar e rodar e rodar.

A nossa recepção era o ponto que poderia quebrar essa magia, o instrumento que mostrava desafinar fácil demais, mas ela esteve no ponto. Fê Garay falhou, falhou, mas sabendo que podia falhar, pois no banco estava uma das melhores jogadoras da atualidade neste fundamento. Jaque entrou no segundo set e por ali ficou até o fim, trazendo ritmo e volume de jogo para nós ao lado de Léia. Acabou não atacando tanto, a bicampeã olímpica, mas ela sabia também que poderia falhar nisso. Se precisar, entra a Fernanda de volta, e assim o time se constrói como time mesmo, joga quem precisar jogar, cada uma é boa em algo e ninguém reclama.

Parece oba oba estar falando assim tão bem da nossa atuação sendo que não perdemos um set na competição inteira, ou seja, é claro que estamos bem. Mas esta é a Rússia, o nosso karma, a equipe que nos faz pagar nosso pecados. Elas nos derrotaram em duas finais seguidas de Mundial (2006 e 2010), tiraram nossas esperanças em Atenas, nos derrubando nas semis, e quase derrubaram o sonho do bi em Londres, logo nas quartas. Elas são muito boas, mas nós fomos melhores.

Nós somos melhores. Esta vitória comprova o tamanho do favoritismo que já colocamos para o Brasil no vôlei feminino: ninguém joga como a gente, seja em estilo, seja em intensidade, seja em inteligência. Se for mantido o foco como nós mostramos até aqui, a esperança do tri só cresce.

Mas sabe pra que serve todo esse clima, essa empolgação? Nada. Fim da fase de grupo e começa uma nova competição, é mata-mata, perdeu tá fora, só tem pedreira, aquela história de sempre… O pensamento, claro, é de que atuemos no resto dos jogos olímpicos como fizemos na noite de 14 de agosto de 2016. Nós não jogamos contra a Rússia, desfilamos em quadra.

Foto destaque: CBV

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