Os melhores tenistas do Brasil jogam em cadeiras de rodas

Desde a geração Guga, seus títulos em Roland Garros e ascensão ao topo do ranking, o Brasil vive altos e baixos na busca por uma referência no tênis. Flávio Saretta, Marcelo Melo, Bruno Soares, Teliana Pereira, Thomaz Bellucci, todos nomes que buscaram os holofotes, mas a torcida nunca foi a mesma. Caímos e subimos no ranking, e hoje nosso atletas mais bem colocados são: Bellucci na ATP, com a 54ª posição, e Bia Haddad na WTA, na 146ª posição. Faltam ídolos, com certeza, mas não faltam talentos. Os melhores tenistas do Brasil não aparecem nesta lista, porque jogam sobre rodas.

Rafael Medeiros e Ymanitu “Many” Silva são, respectivamente, 30º (Rafael caiu quatro posições no ranking no dia da publicação deste texto) e 21º nos rankings da Federação Internacional de Tênis (ITF), que organiza os campeonatos de tênis sobre rodas. Rafael joga o circuito para atletas com funcionalidade intacta nos membros superiores, chamado somente de “Wheelchair” (cadeira de rodas), enquanto Many joga no circuito Quad, com atletas com algum nível de tetraplegia e funções reduzidas nos membros superiores. Mais conhecida por coordenar a Copa Davis, a ITF pouco se envolve no circuito profissional, o que acaba afastando os holofotes destes paratletas. Não quer dizer que eles não façam por merecer suas posições.

Arte: Vinicius Schmidt

E não é só a posição no ranking que dá destaque às nossas estrelas. Rafael tem uma grande lista de competições, já passou por cerca de 20 países, marcou presença em cinco mundiais de tênis sobre rodas, duas Paralimpíadas, e ressalta como grande conquista da carreira as pratas em simples e duplas no Parapanamericano Juvenil de 2009. Ymanitu também acumula experiências internacionais, mas sua melhor memória está fresquinha na mente: Rio 2016. Na competição em casa, ele chegou às quartas-de-final, marcando uma conquista inédita para o Brasil na categoria Quad. “Realmente sinto que represento meu país quando estou em quadra, sensação vivida no Rio, quando joguei na quadra central e tive aproximadamente cinco, sete mil pessoas gritando meu nome sem nunca antes terem me visto”, relembra Many.

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No esporte desde o início

As histórias destes atletas se assemelham muito quando olhamos para o início da carreira. Para Rafael foi como criança, Many já adulto, mas ambos buscaram no tênis uma forma de estar em contato com o esporte. O mineiro já era louco para estar em quadra desde pequeno, quicando a bola laranja do basquete aos dez anos de idade. “Foi através dele [basquete] que conheci o tênis em cadeira de rodas em 2005, onde me adaptei rapidamente e já comecei a jogar os torneios” ele relata, mostrando o ímpeto de ser competitivo.

Essa sede de títulos também corria pelas veias do adolescente Ymanitu, que vivia com uma raquete nas mãos até os 17 anos. Porém, as responsabilidades da vida impediram a sequência do sonho de ser profissional, e nas suas palavras, “por falta de grana tive que parar, estudar, pensar no futuro e tocar o negócio da família”. O acidente que o levou à cadeira de rodas foi em 2007, nos seus 24 anos, e foi durante a recuperação no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, que ele se reencontrou com a raquete. Como parte da reabilitação Ymanitu retornou ao tênis, incentivado por Rejane Candida, então tenista da seleção brasileira, que colocou a ideia na cabeça do jovem. “Eles [Hospital Sarah Kubitschek] tinham vários esportes, entre eles o tênis, e para minha sorte na minha internação conheci a Rejane … que começou a me contar da rotina de torneios, viagens e da vida de atleta que tinha. Assim, resolvi testar o tênis lá”.

O caminho até o topo

Se tornar um tenista profissional  e subir no ranking é difícil, e não há tenista que vá negar isso. Não foi diferente para nossos atletas, mas os fatores que complicam essa jornada pra todo mundo parecem ser maiores no circuito sobre rodas, onde a visibilidade do esporte é muito menor.

É um prazer e ao mesmo tempo dá mais vontade ainda para continuar trabalhando duro, pois eu sei que isso foi fruto de muita dedicação e a vida de tenista é feita de fases. Hoje sou o melhor, amanhã posso ser apenas mais um. Ymanitu Silva, sobre ser um dos melhores tenistas do Brasil.

A primeira dificuldade que todos mencionam é a financeira, e dá de entender por que ela é a maior. Faltam patrocínios, apoios em todas as esferas esportivas do país, e os custos são altos para se manter em um nível competitivo. Olhe a lista: dinheiro para viagens, equipe de apoio (como fisioterapeuta, nutricionistas e até mesmo o próprio treinador), equipamentos de treino, de jogo… Todos elementos que exigem recursos e parcerias.

“A carreira de um tenista profissional é muito difícil, onde é preciso patrocínios para jogar os torneios e se manter entre os melhores do mundo e elevar o seu nível de tênis”, diz Rafael. Many relata que, por necessitarem de cadeiras para jogar, eles acabam tendo que pensar também neste equipamento. Segundo ele, as cadeiras nacionais “custam cerca de R$ 3.500. As internacionais são mais caras, eu comprei uma ano passado, para a Olimpíada, que saiu US$ 1.400 (cerca de R$ 4.300)”. As diferenças, completa Many, entre as cadeiras feitas no Brasil e as produzidas em outros países está no acabamento, “que faz a cadeira fluir melhor, gera menos esforço para tocar”.

Aqui a pouca visibilidade é nociva. Se o esporte aparece pouco na mídia, não tem a atenção dos torcedores e os atletas terão dificuldade de chamar empresas e profissionais para colaborarem com sua carreira. “Nesse ano mesmo já mandei vários projetos a diversas empresas, eu entendo que estamos em um momento de crise, mas elas são fundamentais para nós, atletas. As mesmas nos dão segurança para trabalhar e ir buscar os resultados”, relata Ymanitu.

Os atletas brasileiros ainda contam com o apoio da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) para comparecer em competições diversas, pelo Brasil e no circuito internacional. A CBT dialoga com os atletas, tenta montar o melhor itinerário, mas este é um recurso distribuído para diversos tenistas, então nunca há dinheiro suficiente para estar presente em todas as competições. “Para se manter no circuito é uma luta, como na ATP, buscar, defender os pontos. Hoje no Brasil tem uma série de torneios internacionais, mas pra melhorar o rendimento e conquistar mais pontos é necessário disputar torneios no exterior, e isso tem um custo alto”, relata Ymanitu em consonância com Rafael, que acredita que “o tênis em cadeira de rodas é um dos esportes paralímpicos mais difíceis de competir, existem grandes atletas de alto nível”.

A competitividade

Os melhores do mundo no tênis em cadeira de rodas, atualmente, são Stephane Houdet (FRA) entre os homens, Dylan Alcott (ING) entre os homens categoria Quad e Jiske Griffioen (HOL) entre as mulheres. Estes países citados, incluindo o Japão, dominam grande parte da história das competições.

Desde 2002, três Grand Slams do circuito profissional ATP/WTA (Australian Open, Roland Garros e US Open) também possuíam a competição sobre rodas. Com a entrada, ano passado, de Wimbledon, teremos em 2017 o primeiro ano com todos sendo jogados na mesma turnê – já que desde as paralimpíadas de 2008, as datas do aberto dos EUA coincidem com o evento e, consequentemente, o US Open não abre suas chaves de tênis em cadeira de rodas.

A tabela mostra como o domínio das quatro noções citadas é claro, e por isso se torna importante dar crédito aos nossos tenistas. Além de Rafael, outros dois brasileiros brigam no topo do ranking masculino Wheelchair: Daniel Rodrigues, atual 28º (subiu 5 posições no ranking no dia da publicação desta matéria), e Carlos “Jordan” Santos, atual 38º. Entre as mulheres, temos também representantes entre os 30 melhores com Natalia Mayara, 21ª do mundo, e Meyricoll Duval, 28ª.

É um orgulho muito grande, olho para trás e vejo que todo o esforço que fiz com ajuda da minha família, amigos, meu treinador valeu a pena. Espero poder continuar em alto nível durante muito tempo. Rafael Medeiros, sobre ser um dos melhores tenistas do Brasil.

“É um orgulho muito grande representar o meu país no mundo a fora, ter representado em duas Paralimpíadas. Acho que aqui no Brasil a visibilidade tem que melhorar muito, o esporte paralímpico tem que ter mais apoio e visibilidade”, relata Rafael, que tem esperanças de que a Paralimpíada do ano passado vá melhorar esta condição. E é sempre este o sentimento, de que as atuações de nossos paratletas em diversas competições façam com que aquela clássica visão de “superação” seja substituída pela de um atleta de alto rendimento, que joga para vencer. “Gostaria que houvesse mas visibilidade e valorização para nós atletas, pois temos uma rotina muito difícil”, completa Ymanitu.

Foto de capa: Arquivo pessoal

2 comentários em “Os melhores tenistas do Brasil jogam em cadeiras de rodas

  • 26 de abril de 2017 em 09:41
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    Matéria legal, mas deveriam rever o título. Eles são nossos melhores tenista paratletas.

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    • 26 de abril de 2017 em 10:46
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      Olá Odair! Obrigado pela leitura e pelo elogio.
      O objetivo do título é justamente provocar ao dizer que eles são os melhores tenistas. Esta diferenciação, entre atletas e paratletas, é o que acaba diminuindo as conquistas e a visibilidade destas pessoas, que possuem todo profissionalismo e dedicação que têm também os nossos atletas sem deficiência.
      Dizer que eles são nossos melhores tenistas vem da posição de cada um no seu ranking, que está bem acima dos nossos atletas no circuito ATP e WTA.

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