O Kindermann está de volta ao futebol feminino

O dia é 12 de março de 2017. Tarde de domingo, tarde de futebol. Buzinas soam no entorno do estádio, há dificuldade para estacionar, o público chega aos poucos. Nem a chuva forte espanta. Parece um programa comum na maioria das cidades, mas a população de Caçador, em Santa Catarina, esperou mais de um ano por essa partida. O Kindermann está de volta.

Os 75 mil moradores do município estavam ansiosos pelo retorno de um dos times mais tradicionais do futebol feminino brasileiro. Heptacampeão catarinense (entre 2008 e 2014), vice do Campeonato Brasileiro em 2014, campeão da Copa do Brasil 2015. Porém, o ano da maior conquista da história da Associação Esportiva Kindermann também foi o da maior perda.

No dia 11 de dezembro, o técnico Josué Henrique Kaercher foi assassinado pelo técnico de futsal feminino da cidade, Carlos Correa. Demitido do time de campo sub-17 meses antes por problemas com álcool, Correa foi ao hotel da família Kindermann, onde fez seis pessoas da diretoria como reféns. Ao tentar dissuadi-lo, Kaercher levou um tiro no peito. Depois disso, a arma falhou, os reféns entraram em confronto e desarmaram Correa. O jovem técnico de 35 anos foi levado ao hospital, mas não sobreviveu.

Entre os reféns daquela manhã está o atual presidente do clube, Salézio Kindermann, que falou sobre o assunto recentemente a um programa de TV da região. “Para mim foi uma tragédia grande, porque minha família toda esteve na mira de uma arma e, infelizmente, matou um amigo meu, o Josué, que era um rapaz espetacular. Estava no primeiro ano como treinador, foi campeão da Copa do Brasil e era uma promessa do futebol feminino. Passamos por uma situação bem difícil, mas não quero falar de coisa triste, prefiro falar da volta do Kindermann”.

Família do técnico Josué Kaercher recebe homenagem na estreia do Kindermann (Foto: Andrielli Zambonin/Ascom Kindermann)

Vamos atender ao pedido do presidente logo mais, mas para entender a importância da volta, temos que falar do momento ausente.

Uma cidade órfã

Três dias após o crime, a diretoria do Kindermann anunciou que encerraria suas atividades por tempo indeterminado. O Estádio Municipal Carlos Alberto Costa Neves passou a sediar apenas competições de base ou amadoras. O alojamento das atletas só recebia convidados esporádicos – inclusive este que vos escreve, em uma ocasião. A cidade ficou órfã.

O esporte é forte em muitos municípios do interior de Santa Catarina e Caçador não é diferente. Em 2016, foi sede das duas principais competições poliesportivas de base do estado: a Olimpíada Escolar Catarinense (sub-16) e os Joguinhos Abertos (sub-18). Durante os eventos, era comum ouvir nas arquibancadas dos ginásios conversas sobre o extinto time, principalmente durante a competição de futsal feminino.

“Para nós é bem ruim, o Kindermann era um exemplo e a gente via aquilo como um objetivo. Íamos para o Estádio Municipal acompanhar as partidas no fim de semana, sempre imaginando estar lá dentro”, lamentou a capitã da equipe sub-16 do município, Larissa Serighelli, em dezembro de 2016.

Bárbara levou Brasil às semis na Rio 2016.

Não era para menos. Jogadoras mais jovens perderam um lugar conhecido por revelar talentos. Em 2013, sete atletas da equipe foram convocadas para defender a seleção brasileira no sul-americano sub-20. A meia Andressinha, uma das principais jogadoras do Brasil nas Olimpíadas, foi revelada em Caçador onde começou com apenas 14 anos. Além disso, a goleira Bárbara Michelini, heroína das quartas de final na disputa por pênaltis contra a Austrália, também atuou na equipe tricolor em 2014.

Antes e Depois do Futebol Feminino

Para contar a história do futebol na cidade, temos que dividir entre aff e dff. Caçador convive com o futebol feminino de campo desde 2008 e com o futsal feminino desde 2004, mas a trajetória do time é ainda mais antiga e com muitas idas e voltas.

Fundada pelo próprio Salézio Kindermann em 1975, a equipe do Meio-Oeste catarinense marcou época no estado com o futebol masculino. Três anos após sua criação, a AEK se profissionalizou, substituiu o sobrenome de seu criador e virou Caçadorense. Ainda nos anos 1970, disputou amistosos com Santos e Vasco.

Em 1981 o clube fechou pela primeira vez e voltou no fim da década. A Caçadorense prosperou nos anos seguintes com feitos importantes, como golear o Criciúma de 1991 (campeão da Copa do Brasil do mesmo ano) por 4 a 1. Em 1996, o clube fechou pela segunda vez. Salézio Kindermann estava fora da equipe e então resolveu fundar novamente o clube com seu nome em 1997. Logo voltou à primeira divisão estadual e se manteve ativo até 2003, quando fez uma junção sem sucesso com a Chapecoense.

Aquela foi a gota d’água para o investidor apaixonado que resolveu seguir seu sonho no futsal feminino. O sucesso foi imediato com o bicampeonato da Taça Brasil em 2005 e 2006 e outros títulos importantes (veja no vídeo abaixo). Com isso, o trabalho também foi levado para o futebol de campo, que rapidamente se tornou uma paixão na cidade, sendo o título da Copa do Brasil 2015 seu ápice.

Dos nove jogos daquela campanha, o time venceu seis, empatou dois e perdeu somente um. Foram 22 gols marcados e apenas oito contra. Arrasador, como lembrou a zagueira Tuani Lemos em entrevista à Rádio Caçanjurê. “É adrenalina jogar aqui, outra atmosfera, a gente entra em campo e a energia toma conta de todo mundo. Em 2015, era de três gols para cima por conta dessa energia. Tenho certeza que elas (as novas atletas) vão sentir isso da melhor forma possível”.

Retorno e montagem do time

A volta do Kindermann foi anunciada no dia 12 de janeiro de 2017, dois meses antes do início do Campeonato Brasileiro. Boa parte do recurso já havia sido captada pela Lei do Incentivo ao Esporte antes da interrupção e ainda estava disponível. Além disso, o clube estava com vaga assegurada na Série A por ser um dos oito melhores ranqueados na CBF, mesmo estando um ano parado. Foi a combinação ideal para o retorno. “Eu tenho a vaga, tenho o dinheiro captado e não podia jogar fora todo esse trabalho que conquistamos. Se eu não voltasse com o Kindermann agora, nunca mais teríamos a chance de disputar um campeonato nacional”, explicou o presidente.

Depois do anúncio, a diretoria correu contra o relógio para montar a equipe. Jogadoras que passaram pelo clube foram contatadas, caso da zagueira Tuani que aceitou o convite. O mesmo aconteceu com a goleira Bárbara que também está de volta depois de três anos e chega como destaque.

Média de idade do time é de 22 anos. (Foto: Andrielli Zambonin/Ascom Kindermann)

Assim como a goleira, o técnico também é conhecido. Jorge Barcellos era o comandante da seleção medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, e leva sua experiência para Caçador. “Com certeza estamos fazendo um trabalho maravilhoso resgatando o Kindermann, que tem uma importância muito grande no cenário nacional. É uma felicidade trabalhar na cidade, ver que o público está acolhendo muito bem esse retorno”.

O elenco conta com alguma experiência, mas a média é de apenas 22 anos, o que indica que muita gente está começando – incluindo a Larissa, capitã do time de futsal sub-16, que integra o grupo. O pique das jovens vai ser importante para a temporada que conta com o Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil Sub-20, além de competições estaduais e universitárias.

Finalmente, a reestreia

Também tem prata da casa atuando fora de campo, como no caso da assistente de fisiologia Carine Bosetti. Ela jogou pelo Kindermann de 2008 a 2013 e se formou em Educação Física graças à bolsa de estudos integral que o time oferece às jogadoras. Bosetti também trabalha na Fundação Municipal de Esportes e acompanhou todo o processo pelo qual a equipe passou nos últimos anos: o auge, o fim e o recomeço.

Falando em recomeço, a reestreia contra o Iranduba (AM) foi marcante. Na entrada, uma homenagem ao técnico Josué Kaercher. Em jogo, campo pesado, belas defesas de Bárbara, mas derrota por 2 a 0. O placar não foi o que a torcida queria, mas a expectativa ainda continua grande em Caçador como conta Carine. “Apesar de ser uma equipe montada às pressas e a estreia não ter sido com um resultado positivo, 2017 será um excelente ano para a Associação Esportiva Kindermann. Levando em conta todo o trabalho coerente da comissão técnica e dedicação das atletas, os bons resultados surgirão no decorrer do Campeonato Brasileiro e das demais competições que o clube disputará. Porém, a grande vitória que está sendo celebrada por quem ama o futebol feminino e pelos torcedores é o retorno do Kindermann”.

Foto destaque: Angélica Lüersen/ALLSPORTS

Deixe seu comentário: