A história do vôlei masculino: Anos 40 e 50 e o domínio soviético

Quando falamos de história do vôlei masculino, é fácil ir para os grandes momentos do esporte brasileiro. A geração de prata, a era Bernardinho, vitórias e derrotas olímpicas, Giba, Leila, Paula Pequeno, e por aí vai… Só que para entender bem como o voleibol sobrevive hoje, a gente acredita que é preciso olhar bem para trás, para o início.

O Time de Fora começa hoje uma volta no tempo, para contar como a história do vôlei masculino desenvolveu o esporte desde sua criação, ainda no século XIX, até virar o primeiro segundo esporte do Brasil. Neste primeiro capítulo, vamos falar dos homens, e como nosso interesse é o nível competitivo, começamos no fim dos anos 40, com a criação da Federação Internacional de Voleibol (FIVB).

O berço da história do vôlei masculino

Quem fizer uma simples busca pela internet vai facilmente encontrar algo sobre a história do vôlei masculino. William G. Morgan, na Associação Cristã de Moços em 1895, inventou um esporte chamado mintonette. A partir dali, em aproximadamente 15 anos, a modalidade já teria se espalhado pelo mundo.

O nosso foco fica para 52 anos depois, em 1947, quando representantes de países europeus — que mais tarde viriam a criar a Confederação Européia de Vôlei (CEV) –, resolvem, através de um contato com praticantes do vôlei nos EUA, unir o esporte de forma mundial. Na verdade, as conversas sobre internacionalizar o voleibol surgiram muito antes, mas a Segunda Guerra Mundial teve um impacto direto, principalmente nas comunicações, o que impossibilitou a presença de países da América, principal objetivo dessa união.

Data da criação das principais confederações do mundo. Arte: Anderson Spessatto e Vinicius Schmidt

Assim, um ano após o fim da guerra, é agendada uma reunião para definir o surgimento do Campeonato Europeu de Seleções, para 1948. Porém, o contato de importantes membros do vôlei dos EUA e da América do Sul levam os representantes europeus a fazerem a primeira comissão internacional de vôlei. Neste tempo, já existiam federações e confederações regionais ativas, mas a formação de um órgão mundial encaminha a consolidação do vôlei competitivo.

O diálogo flui entre todos os representantes continentais, e já para o ano seguinte fica agendada outra reunião que, eminentemente, formaria a FIVB. Em 1948, o primeiro Campeonato Europeu, em Roma, já dá uma luz de como o cenário competitivo iria se desenvolver, com a União Soviética (URSS) sendo protagonista, juntamente ao leste europeu.

Mais um ano se passa e surge o primeiro Mundial de Vôlei, em Praga, então Checoslováquia, com uma exclusividade de equipes europeias entre as 10 seleções presentes. Vitória soviética e vice da Checoslováquia — vá se acostumando com esses nomes.

resultados torneios história vôlei masculino
Resultados das competições entre 1948 e 1963. Arte: Vinicius Schmidt
Seleção Brasileira Masculina campeão do Sul Americano de 1956

Em 1951 acontece, no Rio de Janeiro, o primeiro campeonato Sul-Americano de vôlei, com o Brasil levando o primeiro de muitos títulos da competição. Naqueles tempos, o esporte era de prática exclusiva dos membros da elite financeira, sem grande popularidade por todo o país.

A pouca comunicação entre os praticantes de vôlei pelo mundo gerava algumas situações curiosas. Existe a lenda de que o selecionado do Brasil que disputou o Mundial pela primeira vez, em 1956, soube da mecânica da manchete dias antes de estrear na competição, e teve que treinar o fundamento às pressas. Foi este mundial que ampliou a participação de equipes para um nível intercontinental (a edição de 1952 contou com a presença de equipes africanas), com a presença de 24 seleções e a entrada de equipes sul-americanas e asiáticas, além dos Estados Unidos.

A partir de 1956, o vôlei vai se consolidando de forma exponencial, até que em 1958 o Comitê Olímpico Internacional (COI) admite a modalidade como esporte olímpico, programando sua estreia nos jogos de 1964, em Tóquio.

Adentramos um pouco aqui os anos 60 para fechar este grande ciclo de início do esporte com a primeira participação olímpica do vôlei. Quem venceu? A União Soviética, com a Checoslováquia em segundo e o Japão, surpreendentemente, em terceiro. Marcava-se então um ponto chave na história do vôlei masculino (e o começo da era oriental do esporte).

Estilo de jogo e equipes marcantes

Por estarmos falando da gênese da competitividade na história do vôlei masculino, o estilo jogado nas quadras era bem diferente do que vemos hoje em dia. Não havia a impulsão de salto, a força física nos ataques ou a velocidade no saque, era um jogo muito mais cadenciado.

Primeiro mundial, em Praga, foi jogado ao ar livre. Foto: FIVB

O primeiro registro de um ataque de cortada (no inglês spike) é nas Filipinas, em 1915. A manchete vai aparecer como fundamento de defesa somente com as japonesas, no Mundial de 1954, e o saque durante todo o início competitivo do vôlei era flutuante (famoso nos EUA) ou no “estilo japonês” (um golpe por baixo, popularmente conhecido como “balão” e precursor da Jornada nas Estrelas).

Entre as décadas de 50 e 60, três estilos dominaram a história do vôlei masculino mundial e inspiraram tudo que veio a ser desenvolvido em peso nos anos 80 e 90: o jogo físico soviético, a plasticidade checa e a aplicação asiática.

união soviética história do vôlei masculino

Com um jogo muito físico, formado por atletas altos e fortes compondo a rede, a URSS é uma das grandes escolas da história do vôlei masculino. A preparação dos ataques do time era muito alta, quase que um balão saindo das mãos do levantador, então nem sempre os pontos surgiam de forma ofensiva. Cabia aos gigantões do bloqueio pontuarem, e por isso essa escola ficou reconhecida por seus bloqueios intransponíveis e se tornou, nos 30 anos subsequentes, uma das maiores formadoras de centrais.

Porém, a real contribuição soviética para a história do vôlei masculino foi a criação da tática 5-1: eles foram os primeiros a conceberem a infiltração do levantador durante sua passagem de fundo, para acionar três atacantes na rede. Isso exige, até hoje, um preparo físico incrível do levantador, que tem que estar se reposicionando em todos os momentos do jogo, e o preparo militar presente na URSS foi fundamental para aplicar este estilo de jogo já nos anos 50.

checoslováquia história do vôlei masculino

A Checoslováquia era quem jogava o “vôlei bonito”. Foram eles os responsáveis pela popularização do esporte pelo mundo, ao tornar um jogo até então “recreativo” um show de plasticidade e saltos. Os atletas checos faziam defesas incríveis, ataques perfeitos e levantamentos sempre na pinta — veio desta escola um dos maiores levantadores da história do vôlei masculino, Josef Musil. Para se ter uma compreensão real da importância dessa equipe, foi na Checoslováquia que o Brasil se inspirou para fundamentar seu estilo de jogo, que colhe frutos destes tempos até hoje.

japão história do vôlei masculino

Talvez o estilo que mais perdurou, intacto desta época até hoje, é o asiático. Focado nos treinos exaustivos e baseado na agilidade presente naturalmente em seus atletas, o Japão encabeçou esta escola nos anos 50, principalmente no vôlei feminino. Devido ao biotipo comum dos orientais, de serem mais baixos, de nada adiantaria tentar copiar os paredões soviéticos. A solução encontrada foi nunca deixar a bola cair no chão. Com piruetas, mortais e peixinhos, os japoneses eram a personificação da defesa e ganhavam no cansaço do adversário. Quer entender bem a importância defensiva dos asiáticos? Veio dessa escola a invenção da manchete, talvez hoje o fundamento de defesa mais básico da história do vôlei.

Os estilos eram muito ligado a estas regiões, mas inevitavelmente foram se espalhando pelo mundo. Estas três grandes escolas marcaram a história do vôlei masculino para sempre, definindo os moldes competitivos a partir de suas características marcantes.

Grandes atletas da história do vôlei masculino nas décadas de 40 e 50

konstantin reva história do vôlei masculinoKonstantin Reva (URSS, 1940-58)
Conquistas:  2 ouros – Europeu de Vôlei; 2 ouros, 1 bronze – Mundial de Vôlei.

Ótimo bloqueador, atacante e defensor, o famoso “all around” ou faz-tudo, Reva é o maior nome do voleibol nesta época. Membro do Hall da Fama do vôlei, foi o jogador mais dominante da década de 40 e liderou a equipe multicampeã da União Soviética até o meio dos anos 50.


Josef Musil (Checoslováquia, 1941-1968)
Conquistas: 2 ouros, 1 prata – Europeu de Vôlei; 2 ouros, 3 pratas – Mundial de Vôlei; 1 prata, 1 bronze – Olimpíadas.

Passando por três gerações do vôlei checo, Musil é uma lenda do esporte no leste europeu. Suas habilidades como levantador são ditas “robóticas” de tão precisas, perfeitas e exaustivamente treinadas. Sua constante vontade de se aprimorar e humildade também o levaram ao Hall da Fama.


yuri chesnokov história do vôlei masculinoYuri Chesnokov (URSS, 1960-1970)
Conquistas: 2 ouros – Mundial de Vôlei; 1 ouro – Olimpíadas

Yuri Chesnokov não é um nome reconhecido por seu atleticismo, talento nato ou presença em quadra. O russo, nascido em Moscou, é um dos maiores nomes do vôlei fora das quadras, como administrador e membro da FIVB. Também um grande técnico, ele marcou sua carreira no esporte ao ser vice-presidente da federação internacional de 1976 a 2008, vindo a falecer em 2010.

Foto de capa: FIVB

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