O guia da World Surf League para iniciantes no surfe

Com a temporada de 2017 da World Surf League (WSL) chegando à etapa brasileira (que esse ano acontecerá em Saquarema entre os dias 9 e 20 de maio), os olhos do fã de esporte se voltam para o surfe. Para quem não é familiarizado com o funcionamento da liga, seu sistema pode parecer confuso. Afinal, por que aquela onda linda valeu menos pontos do que a outra que pareceu “fraca”? Como se somam os pontos para definir os campeões mundiais de cada ano? As mulheres competem o mesmo número de eventos que os homens? Se liga aí que vamos explicar tudo isso da maneira mais simples possível.

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Vamos começar… pelo começo. Para entender a lógica da WSL, primeiro precisamos saber seu funcionamento. Até 2014, a WSL se chamava Association of Surfing Professionals (ASP). Na prática, pouca coisa mudou. As competições continuaram sendo as mesmas e os títulos de antes de 2014 são de mesma importância que os de depois desse ano.

A WSL divide suas competições entre o circuito de elite (WCT, World Championship Tour), o seu sistema de acesso (denominado WQS, o World Qualifying Series) e outros “tipos” de competição. Aqui entram a Big Wave Tour (com a série de elite e a qualificatória) e a Longboard Championship. Existe também o mundial junior (Junior Championship) e seus circuitos de surfe e longboard, além da categoria para atletas mais velhos, a Masters (a partir dos 40 anos). Todos os campeonatos têm as modalidades masculina e feminina, sendo que a Big Wave Tour teve sua primeira edição com mulheres na temporada 2016-2017.

Uma surfista no Australian Open de 2014 (no circuito Junior a idade máxima é de 18 anos) Crédito: neeravbhatt via Visualhunt / CC BY-NC-SA

O foco desse texto será o WCT e seu qualificatório, mas antes vamos explicar esses outros campeonatos que rolam no esporte. O Big Wave (“Grande onda”, na tradução livre) é literalmente praticado em ondas ENORMES, de altura entre 6,2 metros a 15,5m. Uma das diferenças visíveis em relação ao circuito mundial é do tamanho da prancha. Ela é maior para oferecer mais segurança ao surfista, mas não grande a ponto de fazê-lo perder velocidade. É um circuito mais perigoso, pois uma queda pode afundar o surfista em pelo menos cinco metros de profundidade — e ele tem em média apenas 20 segundos para retornar à superfície antes que venha outra onda.

Já a competição de Longboard, é, como seu nome indica, com pranchas bem compridas (que podem medir entre 2,7m e 4,3m). Assistindo à baterias, você notará que os surfistas estarão “desfilando” na prancha, andando por diversas partes dela (isso conta como uma manobra). Um movimento clássico desse estilo de surfe é o nose board, o ato de surfar na ponta dianteira da prancha. O longboard, por ser uma prancha grande, fornece ao surfista mais equilíbrio e estabilidade. Ao assistir uma bateria você até pode ter a impressão de que o próprio surfe é mais “lento”. Geralmente, iniciantes começam praticando esse estilo.

O World Championship Tour

Falando a respeito do circuito de elite, ele funciona da seguinte maneira: são 34 homens e 17 mulheres disputando, respectivamente, 11 e 10 etapas em diversos locais do mundo. Esses surfistas serão, no masculino, os 22 maiores pontuadores da CT do ano anterior mais os dez melhores do qualificatório. As duas vagas remanescentes serão de wildcard (nomes escolhidos pela própria WSL. Podem ser atletas lesionados que não puderam pontuar no ano anterior, por exemplo). No feminino, elas são as dez maiores pontuadoras do CT mais seis vindas do qualificatório e uma vaga de wildcard. Para contar a pontuação na temporada, serão considerados os melhores nove resultados (dos onze possíveis) no masculino e os melhores oito (de dez) na modalidade feminina.

No mapa abaixo, você poderá ver os locais de prova do WCT masculino:

Etapas do circuito mundial masculino da WSL em 2017

O vencedor da etapa ganhará 10 mil pontos e seu finalista 8 mil. Os dois surfistas eliminados nas semis ficam em terceiro (6,5 mil pontos), os eliminados nas quartas em quinto (5,2 mil), nas oitavas em nono (4 mil) e assim sucessivamente, até somar apenas 500 pontos (eliminação na primeira fase). Ao final dos onze eventos, define-se o maior pontuador como campeão. Assim acontece no feminino, com a mesma pontuação.

Em 2017, o circuito de elite masculino conta com a participação de onze surfistas brasileiros. São eles: Adriano de Souza (o Mineirinho), Caio Ibelli, Filipe Toledo, Gabriel Medina, Ian Gouveia, Italo Ferreira, Jadson André, Jesse Mendes, os irmãos Miguel e Samuel Pupo e Wiggolly Dantas. Alguns desses surfistas competiram em apenas uma etapa do circuito.

Etapas do circuito mundial feminino da WSL em 2017

Resumindo, a diferença na WCT feminina é o número de competidoras (são 17 mulheres), o número de etapas (uma a menos que no masculino, com 10) e uma diferença de um local, visto que têm dois eventos femininos nos Estados Unidos para um no masculino. As atletas brasileiras no circuito nessa temporada são Silvana Lima e Tatiana Weston-Webb (Webb nasceu no Brasil, mas compete pelo Havaí).

Como funciona um evento individual

Toda manhã em uma etapa, a organização definirá se haverá ou não baterias naquele dia (o fator clima é o que mais pode impossibilitar a competição). Isso se chama call (chamada). Se o call estiver ON (ligado), o evento acontecerá normalmente. Se estiver Standby, não ocorrerá, mas a chamada pode mudar durante o dia. Caso esteja em OFF (desligado), não terá competição nesse dia, sem revogação.

As baterias podem ser com 2 ou 4 surfistas, que competem na área determinada pela WSL. Durante a bateria (que geralmente dura 20 ou 30 minutos), eles pegam ondas que valem de 0 a 10 pontos. Podem pegar quantas conseguirem, contanto que respeitem a preferencial do adversário. As duas melhores notas são somadas. Quando a bateria é com 4 jogadores geralmente 2 passam e quando é com 2, passa 1.

O surfista com a preferência é aquele que pegou sua última onda há mais tempo. Se ele fizer as braçadas para pegar a onda e desistir ou cair tentando entrar nela, perde sua preferência e essa passa para a próxima pessoa. Considera-se também a interferência, o ato de atrapalhar outro competidor na mesma onda. De acordo com a situação, o atleta pode apenas receber uma advertência ou ter a sua segunda melhor nota anulada, podendo somar no máximo 10 pontos. Por essa razão, é muito importante escolher a melhor onda (qualidade, não quantidade). Isso pode fazer toda a diferença na competição. Às vezes, a onda certa elimina o “competidor mais técnico”.

Geralmente são cinco juízes que darão as notas. Dessas cinco pontuações, excluem-se a maior e a menor delas e se faz uma média entre as três remanescentes para fechar a nota. As notas se classificam da seguinte maneira:

Classificação da onda:

0-1.9: fraco

2-3.9: razoável

4-5.9: mediano

6-7.9: bom

8-10: excelente

Os critérios utilizados para a avaliação das notas são cinco: grau de dificuldade da onda, combinação de manobras, técnicas adotadas individualmente em cada manobra (movimentos, controle da prancha), a variedade das manobras e potência, velocidade e fluidez durante a onda.

Os avaliadores devem considerar certos fatores na hora de dar as notas, como o nível e a categoria do surfista, o tipo da onda (que varia muito de acordo com o local do evento), a qualidade das ondas naquele dia específico (isso pode variar pelo clima), a qualidade das ondas naquela bateria específica (o mar pode mudar em uma questão de horas) e a duração da bateria (mais tempo, mais chances de pegar uma onda melhor).

E a World Qualifying Series, como funciona?

A WQS, competição para ingressar no circuito de elite, tem muito mais etapas e também vale bem menos pontos. Qualquer surfista que mantiver sua mensalidade de membro na WSL pode competir, mas não pode entrar em qualquer evento. Resumidamente, se começa por baixo. Primeiro, é necessário passar pelo QS 1000 (como diz seu nome, que vale mil pontos). Após isso e a conquista de pontos, o surfista sobe de campeonato até atingir o maior deles, o QS 10.000.

Ao todo, são 60 eventos de todas as categorias por temporada no masculino e 40 no feminino. Aqui se enquadram todos os surfstas entre 18 e 40 anos (menos que essa idade é a categoria Junior e mais a categoria Master). Os dez maiores pontuadores do ano no masculino sobem para o WCT. No feminino, são as seis melhores. A soma para sua pontuação final são os melhores cinco resultados do surfista na temporada.


Sim, é bastante coisa, mas o surfe é um esporte muito intuitivo que, uma vez entendendo suas regras, você conseguirá acompanhar facilmente. E a WSL tem um sistema muito bacana que transmite todas suas etapas online! É só acessar a página oficial da liga e ser feliz. Para acompanhar os horários do evento de uma maneira mais fácil, também recomendo que você baixe o aplicativo da WSL (por enquanto, disponível nos sistemas Android e IOS. Lá você acompanha o call, as notas e notícias do mundo do surfe na palma da mão.

Caso tenha dúvidas ou queira saber mais em mais detalhes todo o sistema adotado pela WSL (o funcionamento de todas as categorias e sua regulamentação), tudo está disponível aqui: Download Full Rule Book

Por último, uns links bons para entender melhor o vocabulário do surfe. Os termos técnicos do esporte podem ser um pouco mais difíceis de entender, mas não é nada tão difícil assim. O guiame.com.br fez um compilado ótimo em português, acessível aqui. Outros dois links (em inglês) você pode acessar aqui: o feito pelo surfing-waves.com e o do Surfer Today.

Dúvidas e comentários? Deixe aqui embaixo que faremos nosso possível para responder. Agora sente aí e aproveite o mundo das ondas com os profissionais.

Crédito da foto principal: chde.eu via Visual Hunt / CC BY-NC-ND

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