O futebol moderno não tem mais posição definida

Esqueça o 4-4-2, o 4-3-3 ou qualquer combinação desses números. Até o início dos anos 2000, elas poderiam esclarecer se um time era escalado de forma defensiva ou ofensiva. Porém, a posição do futebol moderno não tem mais tanto a ver com onde estão os jogadores, e, sim, com suas funções dentro de campo. Cada vez mais os jogadores são valorizados por serem polivalentes. Técnicos de sucesso têm esse destaque justamente por saberem extrair o melhor de seus atletas não pela simples designação de “lateral”, “volante” ou “atacante”. Os comandantes técnicos conseguem fazer os jogadores entregarem seu máximo em campo na hora da necessidade.

Desde que se percebeu que a marcação não era papel exclusivo dos jogadores defensivos, atacantes passaram a ajudar na cobertura do adversário. Da mesma forma, volantes e laterais são cada vez mais essenciais para as jogadas ofensivas. Com essas mudanças, é cada vez mais comum ver alguns jogadores se tornando essenciais aos seus clubes, justamente por saberem onde devem estar em cada momento de uma partida.

A síntese desse conceito é a posição de “falso 9”, que, apesar de já existir no futebol desde os anos 1990, só se estabeleceu com o Barcelona de Pep Guardiola, quando o time passou a atuar sem um atacante de referência. Jogadores como Lionel Messi e Neymar, principalmente quando atuam em suas seleções, são perfeitos exemplos desse jogador que joga centralizado no ataque, mas não fica parado na área esperando a bola no pé. Em vez disso, recua e busca o jogo, atuando principalmente entre o círculo central e a entrada da área adversária.

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O jogador versátil do Brasil

O meia Diego Souza é um bom exemplo de atleta que sabe a importância da polivalência de posição no Brasil. O jogador do Sport pode atuar como meia centralizado, cair pela esquerda ou até aparecer como falso 9. Mas, também não é incomum vê-lo buscar jogo também pela direita. As boas atuações com a camisa rubro-negra renderam, inclusive, uma nova convocação para a seleção brasileira.

A mentalidade de que é mais importante pensar em sua função no campo ainda engatinha no Brasil. A exigência atual do esporte é menos por uma posição estática no gramado. Porém, aqui ainda se valoriza muito o talento individual e a bola no pé. Isso se reflete no fato de que cada vez menos se veem atletas brasileiros como protagonistas dos seus clubes em outros países.

O futebol evoluiu e o jogador brasileiro ficou congelado em conceitos do passado. Quer exemplo melhor que Paulo Henrique Ganso? Atleta de inegável talento, com visão de jogo e passe de qualidade ímpar, mas que pouco se movimenta. Por isso, acabou não tendo o sucesso que todos previam quando surgiu no cenário do esporte. Pensando nisso, no trabalho de base cada vez mais se tenta fomentar a versatilidade dos atletas. Assim, parte tática e técnica do futebol nacional evoluem juntas.

Velho Mundo, Novo Futebol

É inegável que o futebol europeu está na vanguarda desta mudança. Assistir a um jogo de Barcelona, Juventus ou Bayern de Munique, por exemplo, é uma aula de futebol moderno. Para não ficar somente no exemplo do falso 9, podemos citar jogadores como os recém-aposentados Philipp Lahm e Xabi Alonso. Lateral e volante de origem, respectivamente, no clube da Bavária ambos podiam aparecer em duas ou mais posições no campo. Eles exerciam tanto papel ofensivo quanto defensivo.

O catalão Cesc Fabregas é outro exemplo dessa versatilidade. O jogador surgiu como meia centralizado no Arsenal e natural herdeiro de Patrick Vieira, mas evoluiu para um jogador mais ofensivo. Chegou a ser utilizado até como o famigerado falso 9 na seleção espanhola, onde atua com a camisa 10.

Deixando um pouco de lado os jogadores defensivos que ajudam no ataque, podemos citar o bom exemplo do croata Mario Mandzukic. Centroavante matador no Dinamo Zagreb, onde teve média de 0,5 gols por jogo, o atacante virou uma arma defensiva essencial na Juventus. Com a chegada de Gonzalo Higuaín à equipe hexacampeã italiana, o croata passou a atuar na ponta esquerda. Isso mesmo, na mesma linha de Paulo Dybala e Juan Quadrado no 4-2-3-1. Ele é o atleta do quarteto ofensivo com o mais importante papel tático para a equipe finalista da UEFA Champions League,.

O jogador é quase imbatível no 1-contra-1 e tem uma das melhores médias de roubada de bola e dribles sofridos da equipe. Além disso, tem média de 1,3 combates defensivos e 0,8 interceptações por partida na temporada. No próprio site da Juve, uma estatística impressionante: de 36 combates que o croata deu jogando defensivamente, ele levou a melhor em 28 ocasiões em partidas da Serie A. Basta assistir ao vídeo abaixo para entender do que estamos falando.

A disposição de Il Guerriero para ajudar o sistema defensivo é tanta que muitas vezes o mapa de calor do atleta ao fim dos jogos é parecido com isso:

Sim, o campo de ataque está do lado esquerdo

Menos números, mais movimentação

Como você deve ter percebido, o futebol atual exige de treinadores e principalmente de jogadores mais atenção para outros detalhes além da simples escalação. Não é porque um time atua no 3-5-2 ou 4-4-2 que ele será super defensivo, do mesmo jeito que um time montado no 4-2-3-1 também pode ser intransponível apesar dos quatro jogadores ofensivos.

Cabe a treinadores e olheiros saberem pinçar novos talentos que saibam combinar aptidão física com uma mentalidade coletiva para poderem atuar em diferentes partes do campo. E, mais importante, atletas que saibam jogar sem a bola no pé para contribuir tanto defensiva quanto ofensivamente. Aos jogadores, vale o exercício de saber que não adianta ter um toque refinado ou finalizações precisas. Ele também precisa se mexer, preencher espaços vazios e ser voluntarioso com os companheiros. O futebol moderno agradece.

Foto de capa: Juventus.com/Divulgação

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