Encaixando as melhores peças: a função do técnico no vôlei

Ele fica só na beira da quadra, não entra para jogar, mas é o indivíduo de maior impacto numa partida. A função do técnico no vôlei é essencial, como em qualquer outro esporte, e agora que já falamos aqui no Time de Fora de todas as outras posições, é hora de olhar para o coordenador de todas elas.

O principal papel do técnico é potencializar as principais características de cada jogador, em um esquema de jogo coletivo, que maximize os pontos fortes e proteja os pontos fracos do grupo e, claro, vença jogos e seja campeão!

Porém, nem sempre é só de estratégias e táticas que se compõe a função do técnico no vôlei. Na verdade, na maioria das vezes é a parte motivacional que impera, principalmente nas ações dentro de quadra, na hora do jogo. Então antes de falar da estratégia por trás do vôlei, vamos reforçar a importância da presença psicológica de um bom comandante – como demonstra a genial Lang Ping.

Ataque

A principal função de um técnico no vôlei, quando se fala do ataque, é dialogar com o levantador. Posição mais essencial para uma equipe, como já falamos antes, ele representa o treinador dentro de quadra.

Antes de qualquer partida, e durante toda temporada, são inúmeros treinos para ajustar a sintonia levantador/atacantes e traçar a estratégia ofensiva.

Vamos priorizar o oposto no passe A ou trabalhar com o meio de rede? Abre com a ponta somente quando estiver livre, ou forçamos para deslocar o bloqueio? Quando o passe vem longe da rede, é bola sempre no oposto ou fica à escolha do levantador?

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Independente das escolhas, o treinador vai depender do levantador para fazer as coisas acontecerem. Em uma linha mais prática, também cabe ao treinador avaliar quando é possível realizar a inversão 5-1. Tirar o levantador que está na rede para colocar um oposto, tirando o oposto do fundo para inserir um levantador, é uma forma de manter uma rede alta para o bloqueio e manter três atacantes na frente (um deles o especialista em fazer pontos). Muitos treinadores, porém, usam esse recurso para tentar “destravar” um ataque que esteja muito previsível, sem virar bolas.

É função do técnico no vôlei compreender, dentro das estratégias traçadas, quais são as opções possíveis de ataque e, principalmente, quais as melhores escolhas contra cada adversário. A seleção francesa, por exemplo, prioriza sempre os ataques com o ponteiro Ngapeth, já a nossa seleção masculina varia conforme o adversário, usando Lucarelli e Wallace. Tudo depende das peças à disposição.

Por isso, é necessário saber distribuir bem o jogo em todas as frentes. Não somente pelo lado psicológico – de dar espaço a todos jogadores, para ninguém se sentir menosprezado – mas também para não viciar a defesa adversária. Ter um central que vira bolas constantemente pode liberar espaços para o oposto, ou ter dois bons ponteiros no ataque pode fazer seu time não estagnar em nenhuma rotação de quadra.

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Defesa

Se no ataque o mais querido é o levantador, na defesa é o ponteiro. Claro, o líbero é o defensor mais importante, mas passam pelas pontas as maiores preocupações de um treinador neste quesito.

Não há muitos segredos na atuação do líbero, então é função do técnico no vôlei fazer com que pelo menos um ponteiro defenda bem. Se os dois conseguirem preencher esse espaço, sem deixar de virar bolas, melhor ainda, mas já mencionamos aqui como esses atletas são cada vez mais raros.

Assim, se eles não chegam defendendo, é necessário treiná-los. Bernardinho fez isso muito bem com Lucarelli, por exemplo.

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Existem as raridades, como Giba e Murilo, que naturalmente desenvolvem este recurso, e daí a atenção do técnico no vôlei se volta ao bloqueio. Compreender como o posicionamento defensivo dos jogadores de rede influencia o fundo de quadra é quase que uma exigência básica para ser um treinador decente.

Já falamos da importância dos bloqueadores, mais amortecendo os ataques adversários do que necessariamente pontuando, e um técnico no vôlei tem como função fazer esse esquema estar bem sincronizado com os defensores de fundo, para que nenhum espaço fique sem cobertura.

Saque

A mão do comandante, para quem tira um tempo para observar bem o saque de uma equipe, aparece muito a cada serviço colocado ou forçado. A função do técnico no vôlei é mais impactante aqui do que nas outras duas frentes.

Pode parecer estranho, mas é no saque que começa todo o giro de defesa e ataque de uma equipe. Veja só:

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Caso o jogador force o serviço, pode colocar a equipe adversária numa situação ruim de ataque, com uma passe B ou C. Isso aumenta as chances do bloqueio pelo menos desviar a bola, abrindo a oportunidade de contra-ataque. Há também a maior chance de erro do cara que está colocando a bola em jogo, já que ele está forçando.

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Caso o jogador não force, e só coloque o saque em quadra, a chance de um passe A dos adversários é maior. Se ele fizer isso, provavelmente é porque os jogadores da rede são ótimos bloqueadores, têm grandes chances de desviar a bola e gerar um novo contra-ataque (ou até marcar um ponto!). Há uma maior dependência da habilidade do bloqueio, mas uma menor chance de erro, já que o saque é colocado e mais preciso.

Em ambos os casos é o saque que facilita e aposta no bloqueio, que permitirá a defesa e o ataque. Este ciclo, chamado saque-bloqueio-ataque, é o beabá do vôlei, mas possui diversas outras nuances em sua execução.

Fato é que o técnico no vôlei é quem decide como cada jogador irá sacar, ou se até mesmo o atleta terá liberdade para fazer o que quiser. Porém, partem dessa definição todas as outras execuções dentro de quadra, logo é aqui onde é mais perceptível a atuação do comandante.

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A variação de saques do italiano Zaytzev, nas olimpíadas do Rio, foram essenciais para a equipe chegar na decisão. Isso só aconteceu porque cada um dos colegas do ponteiro possuía uma definição clara de serviço (centrais e levantador não forçam, um ponteiro e o oposto forçam), dando liberdade estratégica ao melhor sacador.

E se levarmos para o fundamental, a função do técnico no vôlei é encaixar os atletas nas melhores posições possíveis. Se tiver ótimos defensores, faça que nem Zé Roberto e aposte no ritmo de jogo. Se tiver sacadores incríveis, faça que nem a Sérvia da Liga Mundial 2016 e monte o time ao redor do serviço. Se tem uma atleta incrível, mas que não defende, faça que nem a Lang Ping e desenvolva maestralmente uma equipe que dê todo apoio para Ting Zhu brilhar. E se tiver problemas em diversos setores, faça que nem Bernardinho e aposte na motivação para que os atletas rendam mais que o normal. No vôlei, sempre há uma solução diferente para o técnico aplicar.

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Foto destaque: Divulgação/CBV

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