Uma máquina de fazer pontos: a função do oposto no vôlei

André Nascimento, Wallace, Zaytsev, Sheilla, Gamova, Hooker. O que eles têm em comum? A sede por pontuar. Todos são grandes nomes da posição de oposto no vôlei, o especialista em ataques entre os sete titulares. Muitas vezes atletas de grande altura, os donos dessa posição não costumam dominar o fundamento do bloqueio como fazem os centrais, mas levante uma bola na pinta para eles e tenha certeza: ela vai cair no chão do adversário.

Seguindo a série do Time de Fora de análise das posições do vôlei, vamos falar do oposto. Muitas vezes as estrelas de seus times, esses jogadores são o desafogo para as situações difíceis. Viram — teoricamente — qualquer bola que venha bem levantada para eles e sacam muito bem. Apesar de não receberem o saque adversário, eles também têm sua importância defensiva tática, principalmente na cobertura. Então vamos entender quem são os opostos.

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O nome “oposto” diz muito

Rotação no vôleibol ajuda a entender a função do oposto
Posições na quadra de vôlei, representadas pelos números. Jogadores flutuam entre estas posições, respeitando a rotação durante o saque. Arte por Loge

Por que chamamos essa posição de oposto? Bom, pensemos que a rotação do vôlei acontece no sentido horário.

Assim, se você está na ponta esquerda da rede (entrada), no próximo giro de posições você vai para o meio-de-rede. Depois, desloca-se para a ponta direita (saída), e então para o fundo.

O oposto se posiciona, desta forma, sempre na posição inversa à do levantador. A ideia é sempre ter uma opção a mais de ataque. Como esses atletas se especializam em treinar o ataque, são uma ótima opção para um levantamento atrás da linha dos três. Assim, quando o levantador está na sua rotação na rede, ele segue tendo quatro opções de ataque: o central e o ponteiro que estão na rede, e o oposto e o outro ponteiro saltando do fundo.

Olhando para as posições do vôlei na rede, o oposto normalmente se posiciona na saída, a de número 2. Por ser um lugar mais fácil de se atacar com a mão esquerda, devido ao ângulo de alcance, a maioria dos atletas dessa posição são canhotos. Ver um ponteiro canhoto é uma raridade, pois se ele chega no alto nível do vôlei será logo empurrado para oposto..

Que fique realmente claro: o oposto no vôlei é uma máquina de virar bolas. Seja o levantamento chutado, alto, bola rápida ou lenta, contra um, dois ou três bloqueadores, cravando no chão ou desviando no bloqueio. Esses caras têm que pontuar quando acionados, e treinam incessantemente para isso. Por isso que são chamados de “bola de segurança”, pois eles sabem se virar em situações complicadas e possuem uma alta taxa de conversão de ataques em situações favoráveis.

O problema do oposto é que, se ele é o único cara que vira bolas no time, pode ser facilmente marcado. E não importa o quão bom você seja, se atacar sempre contra um bloqueio triplo, vai ter dificuldades.

O biotipo é outro elemento diferencial da função do oposto no vôlei. Quase tão altos quanto os centrais, eles costumam ser magros e esguios, com uma impulsão absurda. Quem acompanhou o vôlei masculino na Rio 2016 deve lembrar dos voos que Wallace dava para atacar de trás da linhas dos três.

Isso ajuda a poder bater muito alto na bola, algumas vezes até por cima do bloqueio, mas dificulta muito quando é necessário defender uma bola próxima ao chão ou se jogar no peixinho.

Apesar de toda potência que estes atletas conseguem colocar nos ataques, a principal característica de um oposto no vôlei é o número de recursos ofensivos disponíveis. Largada, cortada, com ângulo ou na paralela, forte ou colocada. Quer entender bem esses diferentes golpes? Então conheça Ekaterina Gamova.

Oposto também defende

Ao se especializarem em atacar todo tipo de bola existente, a função do oposto parece se resumir à parte ofensiva do jogo, não é? Porém, estes atletas têm sim seu papel defensivo. Apesar de não participarem da recepção de saque, eles cobrem uma parte da quadra quando é o adversário que está com a bola. Sua zona de defesa no fundo de quadra é a da posição número 1, e mesmo não sendo especialistas em buscar as bolas, eles completam a defesa de qualquer time.

Só que a real colaboração defensiva do oposto no vôlei é quando ele está na rede, com o bloqueio. Já dissemos que eles não se especializam neste fundamento, mas ainda sim costumam ser ótimos bloqueadores, devido à altura e impulsão. Eles normalmente vão cobrir o lado prioritário do ataque adversário, encarando assim o ponteiro.

Assim, muitas vezes é a função do oposto de uma equipe bloquear o ponteiro da outra. O ideal seria que esses caras apenas tocassem no ataque adversário, o chamado bloqueio defensivo. Só que mesmo tendo uma difícil tarefa de encarar o adversário no mano a mano, os opostos tendem sempre a invadir, com o bloqueio ofensivo, querendo cravar o ponto.

Devido a estas características defensivas pouco presente, os opostos costumam ser atletas de pouco recurso técnico do vôlei. É muito comum ponteiros de origem, que se sintam desconfortáveis defendendo ou recebendo saques, mudarem para a posição de oposto para aproveitarem melhor o seu potencial ofensivo. O italiano Zaytsev é um dos exemplos atuais mais claros desta mudança, por outro lado Lucarelli foi muitas vezes cogitado para esta mudança, mas treinou os fundamentos de passe e hoje é um dos melhores ponteiros do mundo. Esse papo continua na análise específica dos ponteiros.

Oposto que se preze saca bem

Normalmente, os números de pontos dos opostos em partidas de vôlei estão entre os maiores. Atacar bastante é o principal motivo para isso, mas por serem muito acionados em situações de contra-ataque, estes jogadores costumam também aproveitar suas passagens pelo serviço para deixar uns pontinhos. O oposto no vôlei precisa ser, além de um virador de bola, um sacador nato.

Na análise dos centrais já apontamos que a altura é elemento definidor do saque: quanto mais alto o atleta, mais fácil é dar velocidade no serviço, porque se bate na bola de cima para baixo. A vantagem dos opostos é ter a altura de um central, com a destreza de um ponteiro. Esse jogadores conseguem pegar muito forte na bola devido ao seu treinamento constante de ataques, que dá a memória muscular e o preparo físico para aliar força e precisão ao colocar a bola em jogo.

No caso das mulheres, que não costumam forçar tanto o saque, a oposta se utiliza mais de seus recursos técnicos para bater na bola. Sheilla possui um serviço muito difícil de se receber, devido ao efeito que a bola ganha quando sai da sua mão.

Toda equipe possui uma estratégia de saque definida, quem pode ou não forçar a bola a vontade e quem deve ponderar o melhor momento para buscar o ace. Junto aos centrais, os opostos são aqueles que normalmente têm carta branca para enfiar a mão.

Tendo assim dois papéis claros, sacar e virar a bola, o oposto pode parecer uma função simples. Tente jogar numa equipe com um oposto mediano e entenda que isso é uma grande mentira. Um time que não consiga se utilizar da virada de bola de seu oposto está fadado a mesmice.

Um oposto ativo e talentoso vai tirar sua equipe do buraco quando o passe não estiver saindo 100%. Ele também é uma constante ameaça para o bloqueio adversário, que jamais pode deixá-lo livre. Mesmo não sendo o único a atacar no vôlei, não há padrão ofensivo sem um oposto que crave a bola no chão no bloqueio simples e solte um grande grito.

Crédito de foto: Divulgação/FIVB

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