Filmes para ampliar o debate sobre racismo no esporte

O racismo no esporte voltou a ser pauta nos EUA. Para quem acompanha as ligas de lá, isso não é novidade. Em meio as polêmicas do hino, muitos torcedores reclamam que não é função de atletas (ou ligas) promoverem protestos. Esporte é uma coisa, política é outra. Outros acreditam que é por meio dos jogadores que os temas podem receber atenção. Não faltam exemplos, contudo este post não será sobre quem está certo ou errado. É preciso aprofundar mais, antes de tirar qualquer conclusão.

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Infelizmente, o racismo ainda é uma realidade em muitas sociedades, inclusive aqui no Brasil. E apesar deste preconceito ser generalizado, cada país parece ter sua origem e histórico próprio. “Como assim? Quer dizer que alguns atos racistas podem ser relativizados?” Não! Mas os episódios passados com certeza influenciam as opiniões e posicionamentos de torcedores, dirigentes, jogadores e imprensa. Cada um de um jeito.

Filmes que falam de racismo e esporte

Para quem não é norte-americano e não vive a realidade dos EUA, pode ser difícil entender a carga do debate. Mas há formas de tentar, pelo menos, aprender. Filmes e documentários são um bom começo, mas é claro que nem todos servem. Um exemplo: sempre vale recomendar o filme Invictus ou o documentário 16th Man, sobre a história da Copa do Mundo de Rugby em 1995, na África do Sul. Mas ainda que ambos sejam abomináveis e com premissas parecidas, o apartheid sul-africano e a segregação racial norte-americana tem consequências bem distintas em suas sociedades. Por conta disto, o foco é nas obras que contextualizam a história dentro dos EUA.

42 – A História de uma Lenda (42)

Se você gosta de beisebol, com certeza já ouviu sobre Jackie Robinson. Ele é o primeiro jogador negro da Major League Baseball e o único com a camisa aposentada por todos os times (o número 42, claro). É importante lembrar que até a entrada de Jackie no Brooklyn Dodgers (hoje Los Angeles), em 1946, havia uma segregação entre as Negro Baseball Leagues e a MLB, só para brancos. O jogador atuava, até então, em uma Negro League. Além da história fantástica, o filme mostra que Robinson só queria jogar, mas teve que lidar com a politização de sua contratação pelo resto da liga.

Ghosts of Ole Miss

O documentário da série ESPN 30 for 30 mostra muito bem como o esporte acaba envolvido em questões que transcendem seu “propósito original”. Em 1962, a University of Mississippi recebeu seu primeiro estudante negro da história. Em período de integração racial determinada por lei, era comum ver bandeiras confederadas pelo campus e até o nome esportivo Rebels lembrava a Guerra Civil. Na chegada do estudante à Universidade, muitos passaram a protestar e eventualmente o campus virou um campo de guerra. A temporada de futebol americano daquele mesmo ano viria com um time invicto, mas ainda muito marcado pelas mortes e outros resultados dos protestos.

Curiosamente, o jogador Michael Oher, que teve sua vida (quase) contada no filme Um Sonho Possível (The Bilnd Side) atuou justamente pelo Ole Miss Rebels.

No Limite – A História de Ernie Davis (The Express)

Outro filme que não deve ser novidade para muitos, em especial os fãs de futebol americano. Mais uma história de um “primeiro”, aqui nos anos 60. Ernie Davis se tornou o pioneiro, entre os atletas negros, a vencer o Heisman Trophy (jogador mais valioso do universitário). O running back sucedeu o lendário Jim Brown na Syracuse University mas, mesmo assim, ainda enfrentou casos e situações de conflitos raciais, seja no estado de New York ou contra adversários em estados mais ao sul do país.

Celtics/Lakers: Best of Enemies

O documentário da ESPN em duas partes é, claro, focado na rivalidade mais famosa da NBA. Em meio às histórias lendárias e jogos épicos, o filme mostra alguns conflitos importantes envolvendo estrelas dos dois times. De Bill Russell tendo que lidar com certos preconceitos dos próprios torcedores, nos anos 60, chegando até a falsa ideia de um time de brancos (o Celtics de Bird) versus um time de negros (o Lakers de Magic) da década de 80. Pode parecer que estou ‘forçando a barra’, mas este documentário cobre quase 30 anos de história de esporte e, infelizmente, as questões raciais sempre se fazem presentes.

What Carter Lost

Se você já viu o filme Friday Night Lights, talvez lembre-se da equipe de futebol americano de Carter High School, de Dallas – Texas. Em mais documentário da série 30 for 30, What Carter Lost mostra a conturbada temporada de futebol americano em 1988. Em meio a problemas de notas e regras de elegibilidade, o time leva o título e diversos jogadores conseguem bolsas de estudo para a Universidade. Só que alguns jogadores cometem crimes que derrubam todo esforço deles e da comunidade. Aliás, acabam reforçando estereótipos clássicos envolvendo jovens negros.

Coach Carter – Treino para a Vida (Coach Carter)

A história até parece ser inventada, mas não é. Não que o filme não possa ter exagerado, ou trocado alguns nomes (no caso, os jogadores). Mas se você ainda não viu a obra, vale a pena. Apesar do debate não ser centrado exclusivamente nas questões raciais, elas estão diretamente ligadas a todo o contexto. E o debate sobre “é apenas um esporte, não misture as coisas” que tem dentro do filme é bem comparável a vários debates atuais.

Menções honrosas:

Estrada para Glória (Glory Road) – É a história do primeiro time universitário a ter o elenco titular inteiramente formado por atletas negros. A equipe de Texas Western College chegou a sua primeira final e venceu o título em 1966. Vale destacar que a dramatização não retrata todos os aspectos reais da história (o time de Kentucky já jogava com “escolas negras” há 10 anos, enquanto outras não aceitavam nem disputar o torneio, por exemplo).

Duelo de Titãs (Remember the Titans) – O filmaço estrelado por Denzel Washington é parcialmente baseado na história do time de futebol americano da T.C. Williams High School Titans, em 1971. Não que a história sobre como integrar dois times não seja real. Porém é mais romanceada que o normal. Ainda assim, ajuda bastante a entender certos (pré)conceitos dos anos 70.

No Crossover: The Trial of Allen Iverson – A história do julgamento e condenação do ex-jogador da NBA (então no high school) é recheada de debates raciais. Em uma briga em que todo mundo parece estar errado, a então estrela colegial acabou chamando a atenção da imprensa. O documentário é bom, mas como o próprio Iverson não quis participar, fica faltando algo. Assista, se puder.

Baltimore Boys – Sim, mais um documentário da ESPN. Basicamente, uma equipe de basquete do high school, em Baltimore, passa quase dois anos invicta, entre 81 e 83. Quatro dos seus jogadores se tornaram atletas com carreiras longas na NBA, algo raro para quem vem destas origens. Mas o que isso tem a ver com as questões de racismo? Baltimore tem grandes problemas com drogas, criminalidade e históricos embates entre as autoridades e a comunidade negra. Só lembrar os protestos de 1968 e agora de 2015. Casos que tem total relação com o dilema atual dos jogadores da NFL.

Foto de capa: Homestead Grays – Negro Baseball League – Al_HikesAZ via Visual hunt / CC BY-NC

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