A falta de expressão do tênis brasileiro na grama

O primeiro dia de Wimbledon foi mais do mesmo para o Brasil. Thomaz Bellucci venceu e passou para a segunda rodada. Rogério Dutra Silva, o Rogerinho, chegou a empatar em 2 a 2 após estar perdendo por 2 sets a 0, mas não conseguiu ser decisivo e deu adeus à competição. Teliana Pereira venceu seu primeiro set na história no torneio, mas sofreu a virada para a americana Varvara Lepchenko.

Eu digo que não foi nada surpreendente pelo fato de que, nos últimos quatorze anos, nenhum nome brazuca figurou entre os oito melhores do Slam em nenhuma chave simples, feminina ou masculina (a exceção fica por conta de André Sá em 2002, que chegou até as quartas-de-final). Aliás, tirando André Sá e Guga em 99, que também chegou às quartas-de-final, um(a) brasileiro(a) não venceu mais de três partidas seguidas em uma chave desde 1976.

Para se ter ideia da dificuldade na modalidade feminina, Teliana sequer participou de torneios de grama antes do Slam. E, como já mencionei, teve apenas um set vencido em suas três participações. Mas a pernambucana fez história ao quebrar um jejum de 24 anos sem brasileiras na chave, sendo a primeira a jogar desde 1990, quando Andreia Vieira nos representou. A última vitória feminina brasileira em Wimbledon foi de Gisele Miró, em 1989.

O ponto fora da curva

Maria Esther Bueno campeã em Wimbledon
Maria Esther Bueno campeã em Wimbledon

Ao mesmo tempo que falar que o Brasil não tem tradição no tênis da grama é correto, também pode-se afirmar o contrário. Afinal, a paulista Maria Esther Bueno conquistou seus primeiros Slam de simples e dupla em Wimbledon (em 59 e 58, respectivamente). Dos seus 19 títulos dos quatro torneios que compõe o Grand Slam, ela conquistou oito neste terreno inóspito para a maioria dos brasileiros. A maior tenista da história brasileira merece todo o reconhecimento por ter feito algo inimaginável – na época e que continua o sendo hoje.

As melhores campanhas brasileiras em Wimbledon

Ano Tenista Rodada
1951 Armando Vieira quartas-de-final
1958, 1963, 1968 Maria Esther Bueno quartas-de-final
1962 Maria Esther Bueno semifinal
1965, 1966 Maria Esther Bueno vice-campeã
1959, 1960, 1964 Maria Esther Bueno campeã
1976 Maria Esther Bueno oitavas-de-final
1999 Gustavo Kuerten quartas-de-final
2002 André Sá quartas-de-final

O clichê do investimento no tênis brasileiro

Não, nós não temos campanhas invejáveis na grama e nem nos outros três Slams. Apenas no saibro temos conquistas na Era Aberta, no masculino com Guga. E no feminino, não temos nenhum título de Slam desde 1968 (a última glória de Maria Esther, no US Open). O fato é que Wimbledon tem ainda menos tradição que torneios de quadra rápida, como Australian e US Open, para nós, brasileiros.

No país do futebol, não temos uma quadra de grama usada como referência para treinamento de profissionais. O que temos são terrenos privados e quadras figurativas para curiosidade de amadores, tudo isso concentrado nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Para criar tradição em qualquer esporte, é preciso de investimento. Já sabemos que no Brasil o suporte para o tênis é fraco e falho, com pouca estrutura que supra as necessidades dos atletas. Já é difícil encontrar quadras rápidas bem cuidadas fora do eixo RJ-SP. As de grama, então, são inexistentes.

Para chegar a um nível competitivo em qualquer esporte é preciso força de vontade, motivação, suporte físico e técnico e, acima de tudo, muito talento. Na grama, além disso tudo, é necessário ter um poder de adaptação absurdamente grande. É quase como se fosse outro tênis. O trabalho de pés deve ser mais intenso, pois a bola quica menos e exige que você se aproxime mais. Aliás, é necessário ficar bem mais dentro que fora da quadra se você quiser ter uma linha de batida que não seja muito baixa. O tempo de batida da bola também é diferente, pois o ritmo do jogo é diferente. Suas agilidades e reflexos são vitais, assim como o físico para se movimentar mais e flexionar mais o joelho procurando a linha da bola. Resumindo bastante, é uma superfície mais favorável para tenistas que usam o estilo saque e voleio, com pontos curtos e o mínimo de trocas de bola possível, pontos que não são característicos dos nossos tenistas. Falar que os tenistas brasileiros são “ruins” e que a perspectiva da modalidade é fraca para o futuro é fácil quando não se dá o mínimo de apoio para construir a mentalidade do esporte no país e consequentemente abrigar o talento que temos.

Crédito da foto principal: AFP 

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