Os estaduais de futebol americano são mesmo necessários?

Estamos nos aproximando do começo de julho e, com isso, do começo da segunda parte da temporada dos times de futebol americano do Brasil. Se você acompanha regularmente o Time de Fora, pode ficar tranquilo que falaremos muito de Superliga Nacional e de tudo que envolve a unificação de um torneio brasileiro com 30 times. Porém, esse post não é sobre o que está por vir, mas sim sobre o que já passou: os estaduais.

A essa altura do ano, alguns dos principais estaduais dos principais estados do futebol americano no Brasil já acabaram. Com finais espetaculares em estádios de Copa do Mundo no Rio Grande do Sul e Minas Gerais, e outras menos glamourosas e bastantes disputadas no Paraná e Santa Catarina, já pudemos ter um gostinho do que será o segundo semestre no esporte. Mesmo assim, uma dúvida paira no ar: com um campeonato brasileiro unificado e a tendência do crescimento do nível técnico dele, os estaduais ainda são necessários na agenda do futebol americano brasileiro?

Veja também: Galeria de fotos do Gigante Bowl

Já debatemos um pouco desse assunto no Esportecast #06 sobre a Superliga Nacional, mas vale aqui relembrar a discussão e promover o debate. Vamos a alguns pontos para entender essa questão:

Problemas

O mais óbvio dos problemas está, justamente, no nível estrutural do futebol americano do país. Enquanto temos como exemplo máximo a NFL, dividida em 32 times, com centenas de milhões envolvidos em cada franquia e um calendário prático de pouco mais de quatro meses (se considerarmos também os amistosos de pré-temporada), o Brasil caminha para um calendário de quase dez meses de competição para alguns times com uma estrutura precária, sem remuneração e sem o preparo físico adequado na maioria dos casos. Pior, grande parte dos times não realiza mais do que três treinos semanais e se vê refém da habilidade de seus jogadores em conciliar a vida pessoal/profissional com a de atleta para manter o alto rendimento.

Foto: Geraldo Takanage / Overtime do F.A.
Foto: Geraldo Takanage / Overtime do F.A.

Olhando por outro aspecto, há também a questão financeira – essa, provavelmente, a mais grave. Na NFL, existem situações em que um time disputou no domingo uma partida no calor de San Diego e, na quinta-feira seguinte, já está em campo para enfrentar o tempo frio de Boston. Apesar da diferença de temperatura, a estrutura de viagens para adaptação e deslocamento dos atletas é bastante diferente. Quanto você acha que custa para deslocar, alimentar e preparar um time de Curitiba para disputar uma partida em Foz do Iguaçu, por exemplo?

Além disso, os problemas não param por aí. Em uma entrevista com o head coach campeão do Torneio Touchdown 2015 e bicampeão do Campeonato Catarinense em 2015 e 2016, Amadeo Salvador, o treinador alertou ainda para um outro agravante: o desnivelamento técnico. Por exemplo: um slot-receiver que acabou de conhecer o esporte no Brasil utiliza equipamentos do time herdados dos primeiros jogadores da equipe – geralmente inadequados para seu uso, já que comprar novos seria muito caro -, certo? Este pode fazer sua estreia em partidas oficiais contra o corpo de linebackers do São José White Sharks Istepôs (que conta com nomes de peso como Gerson Santos, do Brasil Onças), e acabar se lesionando mais facilmente por não ter a preparação física adequada e nem a técnica desenvolvida o suficiente para esse tipo de contato.

Por fim, outro aspecto que se destaca é a política do esporte. Com uma confederação ainda em processo de estruturação plena e sem poder de realmente comandar suas federações, fica na mão de cada estado organizar seus campeonatos, sem nenhum tipo de padrão mínimo de qualidade. Assim, vimos o Gigante Bowl levar 12 mil pessoas ao Beira-Rio, em Porto Alegre, para ver Santa Maria Soldiers x Juventude FA e empolgar os torcedores do sul para o início da Superliga. Mas, ao mesmo tempo, pouco sabemos sobre o trabalho feito no Pará, em que a federação sofre para conseguir apoio no governo local para a realização de jogos e o Campeonato Paraense irá ocupar justamente o espaço do calendário em que acontecerão as disputas nacionais, totalmente alheios aos passos dados pelo futebol americano no resto do país.

Pontos positivos

Como o objetivo do texto é debater contextos e não afirmar verdades absolutas, precisamos lembrar que nem tudo são problemas nos estaduais. Afinal de contas, o Brasil possui mais de 200 times de futebol americano minimamente organizados e teremos em torno de 30% disso disputando as competições nacionais do segundo semestre, o que é pouco. Pode ser que, para equipes como Cuiabá Arsenal, João Pessoa Espectros e Vasco da Gama Patriotas, o primeiro semestre seja para preparação para o que virá na Superliga Nacional. Porém, para quase 70% das equipes, os campeonatos estaduais são suas melhores chances de disputar partidas oficiais sem caráter amistoso e provar seu valor para suas cidades e comunidades.

É preciso lembrar também que o futebol americano no Brasil não é praticado desde a escola. Assim, muita gente descobre o esporte e começa a praticar já em uma fase avançada da vida, precisando de um maior tempo de adaptação à lógica, técnica e exigências físicas do jogo. Por isso, a importância de incentivar desde sempre uma categoria de base forte na modalidade é essencial. Trabalhos como o do Timbó Rex, Paraná HP e Minas Locomotiva, que possuem categorias de base e times de desenvolvimento serão fundamentais e podem até mesmo definir o sucesso das equipes principais em um futuro não tão distante do esporte brasileiro. Assim, nada melhor do que uma competição fixa, importante e com um calendário encurtado no primeiro semestre para dar oportunidades à garotada.

Por fim, precisamos referenciar a importância das competições para levar a relevância do futebol americano em seus estados. Afinal de contas, estamos começando a ocupar estádios de série A do Brasileirão, de Copa do Mundo e de grandes espetáculos musicais. Isso, por si só, já entra na pauta da imprensa e, no mínimo, chama a atenção dos curiosos para um esporte aparentemente tão diferente e que já possui representante brasileiro na maior competição do mundo (o paulista Cairo Santos joga na posição de kicker no Kansas City Chiefs).

 

 

 

Diagnóstico

Afinal, depois de toda essa argumentação, os campeonatos estaduais de futebol americano – com ele sendo ainda amador no Brasil – são ou não são necessários para o país? A resposta, como tudo na vida, depende. A importância e tradição de muitos estaduais justificam suas existências, mas complicam a vida de equipes novas. Em contrapartida, muita gente que hoje está no Brasil Onças começou sua carreira disputando jogos de fase de grupos em partidas locais.

O interessante seria definir um padrão de competição e até mesmo de cultura das equipes, para que os objetivos dos estaduais sejam bem claros a todos. Assim, um time já bem estabelecido e de tradição no estado poderá aproveitar os novos talentos recrutados para testá-los em campo. Isso sem perder competitividade, já que enfrentarão times que estão começando agora e possuem contextos de treino e estrutura muito semelhantes aos “novatos”.

Foto: Henry Milleo / Gazeta do Povo
Foto: Henry Milleo / Gazeta do Povo

Além disso, seria interessante se os estaduais dialogassem, de alguma forma, com as competições nacionais do segundo semestre. Talvez com a criação de um ranking estadual que permita às equipes novas disputarem eliminatórias para uma eventual Liga Nacional de formato fechado com 32 equipes, talvez como critério embasador para a definição de representatividade dos estados em suas conferências regionais do nacional. No fim, o que todos queremos, é que o futebol americano evolua e se profissionalize cada vez mais. E, talvez, seja justamente isso que faz da comunidade do futebol americano um grupo social tão unido e engajado. 

Como você analisa a necessidade dos estaduais de futebol americano no Brasil? Deixe sua opinião em nosso comentários e nos ajude a enriquecer o debate!

 

Crédito da foto principal: Lucas Gabriel Cardoso / colaboração especial para o Time de Fora

Um comentário em “Os estaduais de futebol americano são mesmo necessários?

  • 26 de junho de 2016 em 20:41
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    Matéria muito interessante e explicativa, abordou praticamente todos os aspectos que envolvem o F.A hoje no Brasil, na minha opinião os Estaduais devem sim continuar, mas também devem ter um padrão e uma ligação direta com a Confederação e serem meios de acesso para competições maiores, rankings e classificações, acredito que toda forma de promover o esporte é valida, mas de forma organizada e unficada, grande abraço e #GOREDENTORES meu time é claro kkkkkkkkk

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