Entrevista com Coldzera, destaque brasileiro no cenário mundial de Counter Strike

Marcelo “coldzera” David é jogador de Counter Strike desde os 12 anos de idade e joga profissionalmente há três. Ganhou destaque com o time da Luminosity Gaming e atualmente joga na SK Gaming. Já ganhou prêmio de MVP do ESL Cologne 2016 e também foi escolhido como jogador do ano no Game Awards 2016 (um dos maiores eventos do gênero). No último domingo, dia 23 de abril, foi destaque do CS_Summit, campeonato que a SK saiu campeã. Conversamos com o jogador que nos contou tudo sobre seu início de carreira no CS, a mudança da equipe para os Estados Unidos e o estilo de jogo que existe na SK.

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Como surgiu a oportunidade de jogar counter strike profissionalmente?
Coldzera na SK Gaming, sua equipe atual
Facebook/Divulgação pessoal

Quando entrei no CS eu conhecia bastante gente do cenário brasileiro, comecei a jogar com uma galera que já era conhecida do 1.6 e isso abriu oportunidade para eu conseguir ter uma experiência diferente, entrar em um time bom, no começo foi a Afterall. Depois disso joguei na semXorah, onde conheci o TACO, e fomos participando dos campeonatos que aconteceram no Brasil naquela época. Depois decidimos montar um time, a Dexterity, e aí que começamos a nos profissionalizar mesmo, começamos a receber dinheiro. Um tempo depois a galera que jogava na Keyd na época decidiu sair do Brasil, e eu fui chamado pelo fer pra entrar no lugar do zqk, que não estava jogando bem. Então foi meio que aos trancos e barrancos.

Como era o cenário de CS:GO no Brasil antes da tua profissionalização?

Eu cheguei como um ninguém, mas como já conhecia a galera, eles me chamaram pra jogar. É basicamente isso, continuar jogando, quanto mais você joga mais pessoas conhece. Eu joguei muito, consegui me destacar e ganhei vaga nos times. Naquela época era assim, eu jogava bastante contra caras que eram considerados bons, me destacava e depois o cara falava comigo: “Então, tem uma vaga no meu time, tá a fim?” Era assim, basicão. Não tinha panela, até hoje não tem. Se você jogasse bem, fosse gente boa, a galera te chamava. E campeonatos também eram bem basicões. Era qualifiers abertos, passavam 16 times, se enfrentavam e chegavam oito nos playoffs, e aí até a final. Já o da Games Academy era fechado, apenas para quem pagava, eram 32 times meio que numa liga. Oito iam pros playoffs e disputavam até a final.

E nesse cenário de pré-profissionalização, você tem alguma conquista que te marcou?

O que me marcou foi quando eu estava na Dexterity em 2015 e ganhamos a Razer Cup, foi a primeira do Brasil, em cima da Keyd antes deles viajarem, foi 2 a 0 se eu não me engano.

Vice campeao da DreamHack!!! Esse time tem muito futuro pela frente 😁

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Como foi a sua chegada na Luminosity?

Eu era meio que uma aposta quando cheguei na equipe. Eu não era muito conhecido ainda, jogava bem já, mas não a ponto de entrar no time dos caras. Então eu fui um aposta, graças a Deus deu certo. Quando a gente jogava com o boltz e o steel, a gente tinha um time meio passivo, então às vezes era meio difícil de jogar porque eles não se arriscavam tanto. Isso foi um dos motivos da nossa mudança, quando colocamos o fnx e o TACO a gente sabia que poderíamos ser passivo e agressivo a hora que quisesse.

Como surgiu a ideia de se mudar para os Estados Unidos?

A principal causa da gente se mudar foi os campeonatos. Lá rolam muitos, que dão vaga para tudo e também é onde o dinheiro está. A Europa já é um lugar um pouco mais difícil e as premiações não são tão boas. Além disso, tivemos muita ajuda do Dead e da Camila, eles foram como pais para gente, e por isso a gente resolveu ficar nos EUA e não ir para a Europa.

Champions DreamHack Austin 😍🏆

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Vocês precisaram sair do país para ter visibilidade. E aqui no Brasil, por que você acha que não tem um cenário competitivo forte?

O problema do Brasil é investimento. Você tem várias organizações no país, mas que não pagam muito bem os jogadores. Acho isso errado, o cara doa oito horas por dia da vida dele pra jogar pra receber praticamente nada. Acho que depois do campeonato da ESL Pro League aqui no Brasil, onde vieram quatro times americanos e quatro europeus, vai dar um destaque muito maior pro país.

E a mudança para SK Gaming, como foi?

A gente resolveu mudar porque a organização é muito boa e com muita história, isso pesou bastante pra gente na hora da decisão. Quase voltamos atrás, mas não voltamos porque eles queriam colocar um processo na gente. Não teve briga, a gente só optou por crescer ainda mais.

Partiu dormir, voltamos para casa amanhã de manhã. Realmente indo embora muito triste desse campeonato 😔

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Qual a estrutura que vocês tem na SK?

A principal estrutura que tem na SK é o bootcamp. Antes a gente precisava procurar lugares para fazer bootcamp, e agora sempre teremos um lugar fixo, com nossas configurações, então esse foi o principal motivo pra eu querer ir pro time. Além disso, temos uma equipe de marketing e equipe de filmagem pra fazer postagens no Facebook e Youtube. Não temos psicólogo porque não achamos necessário isso, apenas conversamos entre si.

Como é a rotina de treinos na SK?

Nos EUA a gente sempre acorda antes das 11h. Depois disso almoçamos ao meio dia, então temos uma hora pra programar o que fazer. Às 14h começam os treinos, que vão até mais ou menos 22h, com intervalo de uma hora pra comer alguma coisa e descansar. Também tem dias que a gente não treina, apenas conversamos sobre o jogo. Por exemplo, o que colocar de novo no mapa, algo pra bolar na hora e colocar táticas novas, assistir demos pra ver nossos erros em partidas passadas, então depende do dia. Na Europa já é um pouco mais pegado. Temos que acordar até 9h ou 10h, e tem dias que já começamos com os treinos de manhã mesmo. Na Europa a gente foca em treinos práticos do que conversar sobre a teoria do jogo.

Esse tempo de vocês nos EUA, com a LG e com a SK, o que mudou na tua vida? O que você vê de diferença daquele tempo para agora?

Acho que o que mudou é a forma como se joga o jogo, o modo como você pensa. Você enfrenta uma galera mais esperta, com muita experiência, e querendo ou não o seu jogo vai evoluindo aos poucos. Então você tem que ser bom de mira, inteligente, tem que pensar rápido. Tem que criar jogadas novas, nunca ficar estagnado, sempre pensar uma solução para situação que você se encontra no jogo. A questão de adaptações dentro de jogo, coisas que a gente não vive dentro do Brasil. A gente vive uma situação muitas vezes completamente diferente do que um europeu ou um americano pode viver.

E você disse que são o melhor time do mundo. Por que?

Tenho certeza que a nossa principal diferença é a convivência. A gente convive junto durante seis meses, que é um gap inteiro de uma temporada, e não temos uma briga, sempre falamos dos erros dos outros e todo mundo entende isso, ninguém discute. Ninguém fala “cuida do seu jogo” depois de uma crítica, por exemplo. A gente sabe muito bem o espaço do outro, aonde é o limite de cada um. É o respeito, o que muitos times não tem. Muitos brigam, só querem status, e pensam individualmente. A gente não, nós pensamos como um grupo, e se um pensa no individual, aí sim brigamos. Porque nós somos um time com cinco e todos são uma família.

A SK hoje tem um estilo de jogo próprio ou parecido com alguma outra equipe?

A gente tem um estilo de jogo próprio, é muito difícil de fazer anti-tático contra nós porque jogamos com default. Temos uma padrão e jogamos nela, se não der certo, a gente entra com tática. Todo jogo que a gente começa, é com a padrão, a gente sempre vai testar os caras em algum lugar, em um bombsite. Por exemplo, na train, eu vou testar o cara no fundo pra ver como ele tá jogando, ou vou agressivar pra deixar ele com medo. Então a gente sempre tem uma estratégia por trás, cada um no seu default. A gente testa os caras pra ver se a gente pode ser agressivo, e quando sobra 3×3, 2×2, a gente tem uma finalização pronta. Então é por isso que é difícil fazer anti-tático, porque pra gente não tem tático, é sempre default. Por exemplo, na cobble a gente gasta três smokes no final, se a gente quer finalizar B a gente sabe quais smokes a gente tem que usar pra isso. Os caras nunca sabem pra onde a gente vai finalizar. Hoje em dia temos um estilo próprio de jogo e quem tenta copiar tem dificuldade. A Immortals tentou, mas eles não sabem quais as funções que a gente faz. Tem uma finalização, mas não é fácil, você tem que pensar na hora do jogo, são muitas situações que a gente viveu e sabe contornar.

Meu time nasceu para fazer historia e esse ano vai ser a era do @skgaming bi campeao do MAJOR!!! 🇧🇷😍😍😍

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Como é a comunicação de vocês dentro das partidas?

Ela é muito boa. Todo mundo sabe explicar bem o que tá fazendo dentro de jogo, comunicação é muito importante. A gente sabe conversar dentro do jogo, quando a gente erra sabe o que errou, sabe conversar sobre isso. A comunicação dentro de jogo, pra mim, é tudo. Nossa comunicação é muito calma. A gente sempre tenta explicar o que o outro cara tá fazendo da melhor forma. O cara tá subindo a rampa do meio da cobble, por exemplo, você não pode falar “subindo” ou “rampa”, porque não sabe se o cara saiu dali pro fundo, pro caminhão, você não sabe o que ele pode estar fazendo. Por isso comunicação é tudo, você precisa saber explicar o que o cara tá fazendo, porque o cara do outro bomb que tá chegando sabe o que ele tá fazendo.

Como você se define como jogador?

Um cara passivo, do time, bem calmo pra jogar. Eu sempre to bem posicionado, às vezes faço alguma coisa errada sim, mas sempre tô tentando as coisas certas. Acho que sou o cara que dá mais trade kill, se o Taco morre eu já to lá pra pegar a kill. Eu percebo muito rápido o que acontece no jogo, o que os caras tão fazendo, o que eles podem fazer. Eu sempre dou a informação certa, e se eu tiver no meu padrão com alguém, se o cara seguir a minha informação vai dar certo.

Nós vimos a homenagem da Valve pro teu quadrakill. O que você achou?

Pra mim foi sem explicação, porque não é uma jogada que se faz assim todo dia (risos). Foi algo sensacional, porque pra mim lembra a primeira vez que eu fui campeão mundial e é importante ter na memória as coisas que você já fez.

Você se considera um atleta?

Sim, porque hoje em dia a gente tem uma rotina, e eu acho que todo atleta tem que ter isso. Tem que ter atividade física, nós vamos pra academia. É muito movimento repetitivo, pode ter uma tendinite. Precisa também de um preparo psicológico, tem que estar descansado, ter uma alimentação boa. Então acredito sim, acredito que nós podemos ser considerados atletas.

E você acha que e-Sport é esporte?

Hoje tem muito preconceito com e-Sports e é normal, querendo ou não a gente tem uma faixa etária de adultos muito grande, de senhores de idade, que não acompanham tanto. Mas tá mudando aos poucos, o CS entrou na TV agora. Então acho que aos poucos a gente vai ter um grande aumento no cenário do e-Sports e que daqui há um tempo ele vai vir pesado como um esporte. Tá crescendo pra caramba. A gente tá entrando num mundo tecnológico, e quanto mais isso acontece, mais visibilidade a gente tem. A galera dessa faixa etária de agora tá nesse mundo, acompanha a gente e cada vez mais vai crescendo a tecnologia, vai crescendo pra gente e permite que a galera nos conheça mais.

Foto de capa: Facebook/Divulgação pessoal

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