Entrevista com André Junior Saugo, o Mano, árbitro de futebol americano

Desenvolver a arbitragem é sempre um desafio para modalidades em desenvolvimento como o futebol americano brasileiro. Mas com o passar dos anos e o crescimento do esporte, o trabalho de alguns árbitros começam a ganhar reconhecimento de atletas, técnicos, dirigentes e até do público.

Esse é o caso de André Júnior Saugo, o Mano, árbitro da Federação Catarinense de Futebol Americano (FCFA) desde 2013 e conhecido do público por sua frase — quase um bordão — “houve falta na jogada”.

Natural de Erval Grande (RS) e criado em Porto Alegre, Saugo é técnico automotivo de profissão e participa do futebol americano brasileiro desde 2007. Começou como jogador em Santa Catarina  e atuou como linebacker pelo Jaraguá Breakers, Joinville Gladiators e Corupá Buffalos. Terminou sua carreira de atleta em 2012 e foi para a arbitragem definitivamente no ano seguinte. Além de árbitro de campo, atualmente ele também é diretor de arbitragem da instituição.

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Em seu extenso currículo, destacam-se as duas finais de Torneio Touchdown em que arbitrou. E com tamanho experiência, André Saugo fala sobre sua trajetória no futebol americano nacional, explica como funciona a arbitragem na modalidade, dá detalhes sobre os desafios na preparação e conta como surgiu a frase pela qual é conhecido.

De atleta a árbitro de futebol americano

Time de Fora – De onde veio seu interesse pela arbitragem de futebol americano?

André Saugo (Mano) – Sempre digo que o futebol americano é um esporte viciante. Foi muito tempo pensando o que eu iria fazer, porque depois de parar de jogar eu não queria me afastar completamente. Eu não sirvo para ser um coordenador, nem técnico, mas queria continuar no meio. Foi quando entrei em contato com o Jonathan Hoepers, que era o coordenador da arbitragem de Santa Catarina. Ele me convidou para arbitrar, me deu dicas e assim foi. Dali em diante só rendeu.

TdF – E por que você resolveu parar de jogar?

Saugo – Por vários fatores. Antigamente ninguém se preocupava em fazer alongamento certo, em fazer uma academia, a ideia era jogar, correr e só. Com o tempo isso vai desgastando teu corpo, começa a dar problema no joelho, etc. Em 2010 também me machuquei brincando na praia. Tudo vai ajudando.

Como a gente não depende disso para se sustentar, não dá para perder o trabalho por causa de uma diversão. Foi quando pesou esse lado das contusões e eu não quis arriscar ter algo mais grave.

TdF – Você tinha alguma expectativa para essa profissão lá no começo? Imaginava que seria reconhecido?

Saugo – Nunca pensei nisso, na verdade. Eu só ia pros jogos fazer meu trabalho da melhor maneira possível. Sempre estudando, pedindo opiniões, vendo árbitros mais antigos como o Jean Pierre Soares e o Daniel Vasques, e com o tempo você apita mais jogos, vai pegando mais experiência e aprendendo.

Organização e bastidores da arbitragem

André Junior Saugo árbitro futebol americanoTdF – Qual seu cargo dentro da FCFA e qual é seu momento lá dentro?

Saugo – Até o momento sou diretor de arbitragem, mas já estou quase “passando o meu reinado” para outro. Já se vão quatro anos e chega uma hora que esse lado pesa na vida pessoal, tu começa a deixar de fazer algumas coisas pra resolver problemas de arbitragem. Então no meu lugar vai entrar o Michael Roberto Schug, que já tem experiência de anos também. Eu estou tentando tirar umas férias, mas não consigo sair do meio, cara (risos). O esporte vicia e não tem como largar.

TdF – Como você chegou ao cargo de diretor de arbitragem?

Saugo – Em 2013, o diretor de arbitragem era o Jonathan Hoepers, mas como a profissão dele estava exigindo bastante, ele não estava conseguindo acompanhar. Como eu estava trabalhando junto com ele, já tinha um caminho para seguir e ele pediu se eu queria assumir. No começo deu medo, mas depois foi tranquilo e estamos aí até hoje.

TdF – E o que faz um diretor de arbitragem?

Saugo – Bom, o diretor de arbitragem precisa fazer as escalações, ver a disponibilidade dos árbitros para tal jogo, tem que discutir valores com as federações e com times. Também tirar dúvidas de técnicos e jogadores, normalmente eles vem pedir para o diretor porque é a referência. Até tem gente que ainda vem pedir sobre a medição de campo, com dúvidas de jardas e tal. Normalmente é a parte mais burocrática.

TdF – Como é a contratação dos árbitros de futebol americano? Tem um contrato? É por jogo?

Saugo – Normalmente a gente é contratado pelo campeonato e negociamos um valor X por jogo, cada árbitro ganha esse valor. Então nosso acordo é com cada campeonato.

Os desafios das “zebras” em campo e fora dele

TdF – Como é a preparação de um árbitro? É fácil de achar livros de regras?

Saugo – Hoje já está mais fácil de achar livros de regras porque, por exemplo, temos o Daniel Vasques que desdeAndré Junior Saugo árbitro futebol americano SC Bowl 2003 traduz esses livros. Tem também o Jean Pierre Soares. Eles têm contato direto com os árbitros da NCAA e com o pessoal que monta o livro de regras original.

Sobre a preparação, nós temos grupos no Facebook e no Whatsapp onde discutimos regras,  tiramos dúvidas, marcamos clínicas de arbitragem. Sempre tentando acompanhar para ficar atualizado. Não dá para deixar de estudar, senão tu para no tempo e não consegue desenvolver mais um bom trabalho.

TdF – Essas clínicas são organizadas pelas federações?

Saugo – Sim, normalmente são as federações que organizam para tentar mais árbitros. Hoje, principalmente em Santa Catarina, nós temos poucas pessoas para arbitrar. Por isso tentamos fazer umas clínicas para tentar puxar o pessoal. Antigamente eram os times que arbitravam, então tinha muita discussão e briga, mas muita gente ficou com isso na cabeça e não quer arbitrar porque dizem: “não vou lá pra escutar besteira”.

Também tem gente que não quer estudar e a gente cobra bastante estudo para não chegar no jogo e ficar indeciso. Não tem vídeo para replay, temos que decidir tudo na hora e essa decisão pode mudar um jogo, então a responsabilidade é grande.

TdF – Você falou sobre as discussões, como é o clima entre os jogadores e a arbitragem dentro de campo? O pessoal reclama muito?

Saugo – (Risos) Os mais velhos já sabem como funciona, já estão mais “calejados”, então é mais tranquilo. A gente sempre conversa numa boa, mas tem muito novato que ainda não aprendeu.

Aqui no Brasil ainda tem muito a mentalidade do futebol, onde se reclama de tudo. Só que o futebol americano hoje, se tua cabeça estiver em outro lugar e não no jogo, tu não consegue focar e ajudar tua equipe.  

Eles não sabem o quanto a gente tenta não errar lá dentro, estuda para isso, só que às vezes é um lance rápido no meio do campo e não tem como ver. Depois vendo no vídeo, em casa, eles mandam para gente reclamando, só que no vídeo é bem mais fácil.

André Junior Saugo árbitro futebol americano

TdF – Por ser um esporte relativamente desconhecido do público em geral, vocês tem alguma orientação para explicar melhor algum lance específico?

Saugo – Eu faço por mim mesmo, sempre tento anunciar as faltas traduzindo para o português, para quem está assistindo conseguir entender o que aconteceu no lance. Porque se tu falar as penalidades em inglês, muita gente desconhece e pode causar confusão. Tento passar para o público de um jeito mais fácil para conseguirem entender e começar a gostar do esporte.

TdF – O surgimento da frase “houve falta na jogada” foi algo pensado ou saiu naturalmente?

Saugo – (Risos) Como te falei, eu tento passar pro público da forma mais fácil para entenderem o que está acontecendo. E isso saiu do nada. Fui anunciar que houve uma falta e aquilo foi pegando. Levei bronca por causa disso, tem um pessoal mais velho que disse que não precisava falar isso porque lá fora não existe. Mas não é porque não existe fora do Brasil que eu não posso falar aqui. Desde que eu anuncie a penalidade correta, não importa a forma.

Já recebi muita mensagens de pessoas de todos os lugares do Brasil me parabenizando e dizendo: “Eu gosto de assistir jogos contigo porque quando tu fala ‘houve falta na jogada’ fica bem claro que é uma falta, não parou por algum outro motivo”.

TdF – Qual a perspectiva para a profissão daqui para frente?

Saugo – Eu gostaria que crescesse cada vez mais, que a arbitragem tenha mais espaço no FABr. Só que como falei antes, hoje nós ainda temos muito a cultura do futebol e o pessoal acha que a arbitragem hoje é um custo extra. Não sabem quanto é importante uma arbitragem de qualidade para um jogo correr bem e até para ficar bonito para quem assiste.

Já cheguei a fazer viagem de ficar duas noites sem dormir. Ficava à noite dirigindo, arbitrava um jogo, depois dirigia à noite para outra cidade para no outro dia arbitrar outra partida.

Eles não sabem o tempo que a gente fica estudando, o desgaste físico de viagens… Por exemplo, já cheguei a fazer viagem de ficar duas noites sem dormir. Ficava à noite dirigindo, arbitrava um jogo, depois dirigia à noite para outra cidade para no outro dia arbitrar outra partida. Para desenvolver o futebol americano, a arbitragem precisa crescer junto. Se não tiver união entre equipes e arbitragem, não vai crescer.

André Junior Saugo árbitro futebol americano

Fotos no texto e de capa: Facebook pessoal

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