Por que há diferença nas transmissões de futebol americano no Brasil e nos EUA?

Em 2017, mais de 750 mil pessoas assistiram à transmissão completa do Super Bowl LI. Na partida de ontem da Copa Minas entre Sada Cruzeiro e Juiz de Fora Imperadores, mais de 300 mil pessoas acompanharam a partida pela live de Facebook na página do time de casa. É inegável: a audiência do futebol americano está maior do que nunca e ainda não atingiu o seu ápice. Mas, apesar disso, muita gente ainda reclama da qualidade dos narradores e comentaristas brasileiros, comparando-os com as transmissões americanas, e sentem falta de um olhar mais objetivo e estatísticas. Afinal de contas, o futebol americano brasileiro está pronto para as transmissões americanas?

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Principais diferenças

“Fumble é vida”, “É o caos!”, “Aqui não, neném” e outras diversas expressões e bordões fazem parte da cultura dos fãs brasileiros de futebol americano. Ao assistirmos a uma transmissão da NFL na ESPN, vemos narradores polivalentes que narram diversos outros esportes e ainda conseguem dar profundidade e ritmo para jogos arrastados de futebol americano. A transmissão brasileira de futebol americano é muito diferente da estadounidense.

Enquanto nos EUA vemos muito menos emoção por parte do narrador e comentários extremamente técnicos por parte dos comentaristas, não é incomum vermos no Brasil a transmissão ficar voltada para piadas, comparações com outros esportes e interações pelas redes sociais com a audiência. As transmissões são diferentes pelo simples motivo do público ser completamente diferente.

A forma de se fazer o jornalismo em transmissões de jogos de futebol americano é completamente dependente da sua audiência. Por exemplo: em uma partida de Sunday Night transmitida às 21h30 da noite, o comentarista deve ter o cuidado no Brasil de ser o mais didático possível para levar a informação para um eventual curioso que, zapeando os canais da televisão, acabou se interessando pelo esporte. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a transmissão do mesmo jogo tem uma preocupação muito maior em dar informações exclusivas sobre os bastidores da partida e análises táticas mais profundas – já que o confronto havia sido pauta de programas especializados durante toda a semana anterior.

Essa diferença, além de prática, é extremamente cultural. Além de um norte-americano ter tido muita influência e conhecimento agregado sobre o esporte durante todos os anos de sua formação intelectual, ele também cresceu com um estilo de transmissão mais calmo e voltado para estatísticas. É da cultura dos Estados Unidos. Veja este vídeo e perceba as narrações americanas, bem mais calma que se fossem narradas pelo Everaldo Marques, por exemplo, não é mesmo?

 

 

 

Enquanto isso, na América Latina de uma forma geral, crescemos com a emoção de ouvir uma partida de futebol decidida nos últimos minutos com berros e até “poesia” dos narradores. “É tetra”, “Um time de gigantes contra um time de meninos”, etc. Para o povo latino, o que importa é a emoção. Para os norte-americanos, a informação.

Impactos na realidade

Esse choque de realidades fica evidente quando um esporte tradicional da cultura americana chega às terras brasileiras. Há quem prefira uma transmissão descontraída e cheia de piadas para prender um telespectador mais leigo no assunto, mas que vá se interessar pela partida por causa da forma divertida que a equipe leva ela. Há outros, e esses são geralmente o que já possuem um tempo maior de contato com o esporte e com a cultura do futebol americano, que prezam pelas estatísticas e análise tática do confronto.

É por conta dessas diferenças que as assinaturas do NFL Game Pass (pay-per-view da NFL com a transmissão de todos os jogos) está cada vez crescendo mais no país. Além de ter certeza que sempre conseguirá assistir os jogos que deseja, o torcedor que assina um pacote com custo tão elevado é também o tipo de pessoa acostumada e exigente quanto à qualidade da informação que recebe na transmissão. Por outro lado, a audiência de transmissões mais “zoeiras” como do Esporte Interativo e da ESPN também crescem significativamente, reflexo de todos os brasileiros que estão migrando da cultura do “soccer” para um esporte diferente, com diversas pausas e regras complicadas.

Futuro

Com a tendência do FABr de transmitir cada vez mais seus jogos pela internet, podemos projetar uma mudança gradual do nível de exigência do telespectador brasileiro para os próximos anos. A difusão da informação é a chave para permitir que cada vez mais os jornalistas possam fazer comentários mais técnicos sobre a partida, já que eles possuem a garantia de que seu público está compreendendo todas as informações passadas.

Além disso, a BFA e diversos campeonatos estaduais estão começando a ter um controle maior sobre as estatísticas da partida, oferecendo à mídia especializada um material melhor para debater e informar o campeonato. Com o passar do tempo, a geração jovem que hoje acompanha a narração mais descontraída da TV a cabo irá se tornar uma geração adulta que precisa de mais informação para aproveitar a experiência de assistir a uma partida. E, aos poucos, veremos essa transformação gradual na linha editorial das transmissões – mas sempre com aquela característica latina de colocar o coração em cada jogada.

Foto de Capa: Marianne O’Leary via Visual hunt / CC BY

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