Desvendando Rio do Sul, o último candidato a surpresa da Super Liga

Mikhail Gorbachev foi o último líder da União Soviética, entre 1985 e 1991. Suas tentativas de, como dizem os livros de história, modernizar a economia e a política acabaram levando ao fim do bloco comunista, ou do também chamado socialismo real. A imagem de Gorbachev ficou marcada por uma mancha na cabeça, visível graças à calvície. Mas, mais uma vez, esse não é um texto sobre politica, ou geopolítica internacional. Aí você pensa: “ih, lá vem esse cara de novo com papo sério na introdução” (para entender, clique aqui). Mas calma que isso já vai fazer sentido.

Spencer Lee (esq.) e Mikhail Gorgachev (dir.) Arte: Time de Fora /

Na atual Super Liga feminina de vôlei o Rio do Sul/Equibrasil terminou a fase classificatória em sexto lugar e acabou eliminado nas quartas de final para o Minas Tênis Clube. A equipe mineira venceu as duas primeiras partidas da série eliminatória, garantindo a vaga na semifinal com uma vitória por 3 sets a 0 em Santa Catarina, em uma noite em que a equipe da casa cometeu muitos erros. Se o desfecho da era Gorbachev foi surpreendente, é melhor você leitor tirar sua conclusão. Mas a campanha do time de Rio do Sul foi, com certeza, uma das surpresas dessa temporada da Super Liga. E quais seriam os segredos pra isso?

Comecemos por um treinador tido como mito-barra-monstro pela torcida. Spencer Lee (na certidão de nascimento Spencer Lee Christian Fjos Driessen Van Dijk) é o atual líder do Equibrasil, equipe localizada na cidade catarinense de Rio do Sul, que tem quase 70 mil habitantes. Sua semelhança com Gorbachev? Uma mancha na careca, apenas. E o papel de responsável pelo que se pode chamar de modernização do vôlei na cidade do alto vale do rio Itajaí. Spencer é adorado pelos riossulenses. É um dos poucos a ter o nome gritado pelo público no ginásio Artenir Werner, ao lado da central argentina Mimi Sosa e da ponteira Helô. Até a chegada do treinador a equipe catarinense fazia campanhas pouco expressivas no torneio, e nesse ano conseguiu uma vaga nos playoffs e se destacou pelo voleibol jogado e pela competitividade perante os grandes.

Foto: Victor Hugo Bittencourt
Foto: Victor Hugo Bittencourt

Fora de quadra Spencer é praticamente um relações públicas da equipe, atende a fãs, à imprensa, sempre com muita simpatia. Dentro dela é treinador de verdade, em uma acepção mais pura da palavra. E já é conhecido por isso no mundo do vôlei. Na hora do tempo técnico, com ele não tem muito aquela história de: “Calma, paciência. Vamos virar. Capricha no passe. Passa na mão…”. Spencer Lee evita boa parte dos clichês do jargão voleibolístico. O pano de fundo está na falta do chamado apadrinhamento para entrar no esporte. Spencer é professor de educação física e trabalhou muito tempo com categorias de base do voleibol. Sua profissão é ensinar. E como isso reflete nos time que ele comanda? Entenda melhor ouvindo o macio sotaque desse mineiro de Passos.

Elenco + Potencial + Raça + Jogo coletivo = Destaques individuais

Foto: Clovis Eduardo Cuco/Divulgação
Foto: Clovis Eduardo Cuco/Divulgação

Mas só um comandante não basta, é preciso ter jogadoras capazes de formarem um grupo de qualidade. E a receita do Equibrasil/Rio do Sul não é das mais complicadas. A equipe sabe o seu tamanho no vôlei brasileiro, reconhece que não está entre os maiores investimentos do torneio, e que isso é predominante no esporte. Mas não é o único fator que leva ao sucesso. Guiado por Spencer, o time aposta na mescla entre jogadoras jovens e outras com um pouco mais de rodagem, mas que não têm o quilate – midiático e salarial – de estrelas da seleção brasileira. Entram nessa lista atletas que o treinador já conhece, com passagens por seleções de base ou por equipes de maior investimento. A esperança é que todas queiram ganhar para conseguir melhores posições de carreira no futuro. Bom para o presente e para o futuro das duas partes.

E para provar que o grupo montado por Spencer foi um dos destaques dessa edição da Superliga, abaixo estão alguns números. Tudo bem que são estatísticas individuais, como da ponteira Helô, maior pontuadora da primeira fase, mas isso certamente é reflexo do ajuste coletivo com o qual a equipe se apresentou na temporada. Outras duas jogadoras do Rio do Sul/Equibrasil figuraram entre as 10 melhores da primeira fase da Super Liga.

 

DESTAQUES INDIVIDUAIS RIO DO SUL/EQUIBRASIL – FASE CLASSIFICATÓRIA

JOGADORA QUESITO VALOR POSIÇÃO
Helô Total de pontos 337 1º – a frente de Natália (Rexona-Ades/RJ), Paula Pequeno (Terracap/Brasília), Fabiana(SESI/SP)
Helô Pontos de ataque 298 1º – a frente de Natália (Rexona-Ades/RJ), Paula Pequeno (Terracap/Brasília), Carcaces (Nestlé/Osasco)
Vanessa Eficiência de defesa 93,7% 3º – a frente de Gabi Guimarães (Nestlé/Osasco) e Natália (Rexona-Ades/RJ), atrás de Jaqueline (SESI/SP)
Giovana Eficiência de levantamento 15,6% 7º – próximo de Thompson (Rexona-Ades/RJ) -16,2% e Roberta (Rexona-Ades/RJ) – 16,9%

Não deixe o vôlei morrer

Foto: Clovis Eduardo Cuco/Divulgação
Foto: Clovis Eduardo Cuco/Divulgação

Outro segredo do sucesso do Rio do Sul/Equibrasil é uma diretoria formada por gente competente e apaixonada por vôlei. Gente que teve a coragem de tirar a partida contra o Nestlé/Osaco do time da casa e levar para a cidade de Lages, na região serrana de Santa Catarina. Isso porque a bilheteria é responsável por 18% do orçamento do time, mas os 1300 ingressos do Artenir Werner só acabam sendo totalmente vendidos nas partidas contra o time paulista e o Rexona-Ades/RJ, o time do Bernardinho. Jogando em Lages foram quase 4500 ingressos vendidos, e mesmo descontando os custos, sobrou um dinheiro a mais. Mas com a eliminação nas quartas-de-final o projeto de Rio do Sul volta praticamente à estaca zero. Infelizmente é assim no vôlei com equipes que dependem de projetos de marketing esportivo ocasionais e, muitas vezes, regionais (deu saudades da Cimed/Florianópolis ao ler isso? Pois é…). A torcida riossulense espera que diretoria e empresários da região não deixem o projeto de vôlei morrer na cidade. E se der pra manter Spencer Lee e suas pupilas por lá, melhor ainda.

Aula de vôlei

E só pra encerrar, deixo você leitor com mais trechos de áudio da entrevista exclusiva de Spencer Lee Christian Fjos Driessen Van Dijk Gorbachev para o Time de Fora. É uma pequena aula de voleibol, dentro e fora das quadras.

Foto Gorbachev: veni markovski via VisualHunt.com / CC BY

Foto principal: Clovis Eduardo Cuco/Divulgação

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