Como uma criança dos EUA se torna atleta

Será que o sonho e uma criança dos EUA em se tornar atleta profissional é mais próximo do que, por exemplo, de um jovem brasileiro? É só uma questão de investimento? Este post pertence à série “Guia do Esporte Profissional nos EUA”. O objetivo deste especial é mostrar como o país produz tanto material humano para muitas modalidades, suprindo diversos campeonatos pelo mundo.  No primeiro capítulo analisaremos a criação dessa cultura esportiva.

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Parte 1 – O esporte integrado à escola

Desde a escola básica e infantil (elementary school por lá) as aulas de educação física se integram ao currículo das escolas com o intuito de ensinar a importância da atividade física às crianças. As modalidades aprendidas são as mais diversas, não se resumindo apenas à “tetrarquia” (futsal, vôlei, basquete e handebol – este último praticamente inexistente por lá) que existe na maioria das instituições aqui do Brasil, por exemplo.

Assim o aluno tem contato com a natação (em alguns casos, saltos ornamentais), diferentes provas de atletismo, tênis, badminton, hóquei, beisebol, softbol, futebol americano, vôlei ou qualquer outra atividade escolhida pelo educador. A estrutura dos colégios (ou do distrito educacional) ajuda em muito, não só pelo espaço físico, mas também com o material utilizado. E mesmo com esse fácil acesso a diversas modalidades, é incomum que se organize qualquer tipo de competição na faixa de idade entre 6 e 10 anos.

O fenômeno das “Ligas Pequenas”

Contudo, isso não impede que muitas crianças façam parte de equipes que competirão em torneios locais ou regionais. Como maior exemplo está a “Little League Baseball”, uma organização que já está espalhada pelo mundo todo e que tem contrato de quase $8 milhões anuais com a ESPN para exibir as finais. São diversas divisões, com crianças praticando a partir dos 5 anos, tipicamente no período de primavera e verão (as férias).

Ainda existem campeonatos de futebol americano (geralmente chamados de midget football – futebol anão, em uma tradução livre) e também de futebol (já ouviu falar do termo soccer mom?) na época do outono. No inverno há o hóquei sobre o gelo (Minor Hockey a partir dos 7 anos) e o basquete (youth basketball).

Essas “escolinhas” são tipicamente organizadas por entidades sem fins lucrativos, pelos próprios pais ou, em alguns casos, pelos treinadores dos times de Middle e High School. Geralmente duram entre dois e três meses, com atividades diárias e partidas semanais (ou duas vezes por semana).

Especialização precoce

São inúmeros atletas famosos (seja no beisebol ou no futebol) que deram seus relatos sobre a prática esportiva nessa idade. LeBron James, aliás, já se destacava antes mesmo de chegar ao middle school. E na NFL não faltam exemplos de jogadores que praticavam futebol americano, com capacete e tudo, desde pequenos.

O problema é que começar cedo e focar em uma modalidade não significa sucesso em se tornar um atleta profissional.  Inclusive, pesquisas apontam que 70% das crianças que começam cedo abandonam os esportes a partir dos 13 anos.

Começando para valer

Com 10 ou 11 anos, a criança deixa o ensino infantil e ingressa na middle school. A partir de agora não há mais turmas ou matérias fixas. Há possibilidade de fazer disciplinas diferentes, a mais ou extra-curriculares. Os esportes estão incluídos aí. Cerca de 94% das escolas nessa faixa etária participam de ligas e competições (ainda que a variedade de esportes seja bem menor do que no high school).

Depois do turno regular (das 8h às 15h) o estudante fica na escola para treinar. Não é surpresa que a escolha da modalidade passe por aquelas com que já se teve contato. Entre dois e três meses o atleta irá dedicar uma ou duas horas, diariamente, aos treinos. Em dias de partidas fora de casa, o time viajará para a cidade vizinha com o ônibus do colégio.

Escolha qualquer filme ruim de esportes com crianças que você já assistiu. Retire toda a comédia pastelão e estereótipos e dá para ter uma ideia de como funcionam os esportes nesse estágio.

Estrutura e organização

Usando o exemplo do filme acima, um treinador pode ser um ex-atleta egresso, mas também o professor de educação física ou até mesmo outro professor da escola. Pais de alunos ou alguém da comunidade (geralmente com experiência como atleta ou como assistente técnico) também podem tentar a vaga. Basta cumprir os requisitos do estado (nos EUA, o esporte é regulado por associações estaduais), que incluem primeiros socorros, métodos pedagógicos e outros cursos específicos.

As regulações também são definidas individualmente em cada estado, ainda que todas sejam muito similares. De tempo e frequência de treinamento a calendário de jogos, tudo é estritamente controlado, procurando manter ao máximo a integridade física dos pequenos atletas. Tanto que a quantidade de jogos para cada modalidade é curta, indo no máximo a 12 jogos (ou encontros, no caso de esportes individuais) por temporada. É só procurar qualquer calendário na internet e você encontrará essa média.

“Mas pera aí… 12 jogos, só?” Sim, durante um ano. Isso porquê o calendário letivo é dividido em várias modalidades. Mas esta explicação fica para a Parte 2, quando falaremos sobre estrutura e o esporte no high school.

Crédito de capa: el_gallo via Visualhunt / CC BY-NC-SA

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