A comunidade do futebol americano e o ódio aos modinhas da NFL no Brasil

Há um tempo atrás, em um projeto pessoal que alimentei por um tempo, escrevi um texto sobre o fenômeno de “ódio aos modinhas da NFL”. Se você acompanha o futebol americano e está minimamente inserido na comunidade brasileira de fãs do esporte, sabe do que estou falando. Basicamente, existe e se perpetua uma cultura muito forte no Brasil de diminuir e hostilizar novos torcedores que acabaram de conhecer o esporte ou que escolheram um time de sucesso para torcer.

Mas, se o futebol americano está em plena ascensão e pretende crescer mais ainda, por que a sua comunidade se autossabota dessa maneira?

Leia mais: Por que há diferenças nas transmissões do futebol americano no Brasil e nos EUA?

Popularização do futebol americano no Brasil

Para entender como funciona a comunidade do futebol americano no Brasil, é preciso entender como ela se formou. Até meados dos anos 2000, só conheciam a NFL aqueles que tiveram chances de viajar para os Estados Unidos ou tiveram contato com a cultura do esporte através de amigos estrangeiros.

Como viajar para o exterior é algo que exige bastante dinheiro para a maioria das pessoas, esse conhecimentos sobre futebol americano se tornou quase que exclusivo para quem tinha poder aquisitivo alto. Claro, existiram as transmissões em TV aberta (TV Tupi e Bandeirantes) nas décadas de 70, 80 e 90, mas não representavam de maneira significativa o início da popularização do esporte.Torcedor do Oakland Raiders, time de futebol americano da NFL

Em um segundo momento, a NFL chegou aos canais por assinatura e aí surgiram sim os primeiros fãs engajados. Veja bem, não que antes não houvessem torcedores fiéis aos seus times, mas foi só com a presença fixa, constante e dedicada do futebol americano na grade da TV a cabo que uma pessoa poderia ficar 100% imersa no campeonato, situação dos times e principais jogadores. Outro fator que foi determinante para essa época é a chegada da internet: quanto mais informações disponíveis, mais pessoas interessadas e dispostas a disseminar a cultura do esporte.

Até este ponto da história, a comunidade do futebol americano não funcionava exatamente como um grande fenômeno social. Sem lugares dedicados para a troca de informações e opiniões sobre a NFL, os torcedores “pioneiros” até este momento se sentiam ilhados em uma “mar de ignorância” e especiais por terem descoberto algo tão maravilhoso e que poucas pessoas sabiam opinar sobre. Essas características foram fundamentais para o choque de gerações que viria depois.

Passada  uma década do século XXI, a tecnologia das redes sociais se tornou um elemento constante em nossas vidas e a ESPN deu cada vez mais espaço para o esporte da bola oval em sua grade de programação. As comunidades de Orkut sediaram as primeiras discussões “Brady x Manning” e os primeiros comentários satirizando os que usavam roupas do Oakland Raiders também surgiram.

Assim, aqueles torcedores pioneiros e solitários de antes encontraram outras diversas pessoas que eram exatamente iguais a eles e começaram a construção de uma comunidade online com fortes resquícios da cultura brasileira de futebol – seja através das rivalidades agressivas, ofensas preconceituosas e aversão aos torcedores “modinhas”.

Em menos de cinco anos, a NFL se tornou uma das maiores audiências da ESPN, os grupos de Facebook decolaram com cada vez mais integrantes, as primeiras páginas e veículos independentes de cobertura do futebol americano foram criadas e a rixa entre os antigos e os novos torcedores pautou ou contribuiu em praticamente todas as discussões online.

Comecei a acompanhar NFL, para qual time torcer?

Essa é a pergunta que passa pela cabeça de diversos novos torcedores após entenderem a beleza do futebol americano. A verdade é que o esporte tem a dose certa de talento, plasticidade, tradição e drama que tanto fascinaram o brasileiro em jogos de futebol desde os tempos de Pelé. Por isso, o processo natural foi o de transferir toda a cultura existente do futebol (soccer) para o futebol americano.

Torcedor do Seattle Seahawks, time de futebol americano da NFLOs motivos que levam um torcedor a escolher um time são os mais diversos: primeira partida que assistiu, time da cidade que você gosta, time de um personagem da cultura pop, time de uma personalidade famosa, time com símbolo bonito, time com tradição, time sem tradição… enfim, motivo é o que não falta. O que aconteceu, porém, é que como não existe um fator geograficamente implícito (a não ser que alguém tenho visitado uma das 32 franquias da NFL), os torcedores que estavam há mais tempo nessa comunidade do futebol americano se sentiram no direito de questionar a autoridade dos que haviam acabado de ingressar.

O termo “modinha” – constantemente repetido e até reproduzido através de variações como “geração Nutella” – serve apenas para a autoafirmação dos que conhecem o futebol americano há um determinado tempo e  que não conseguem aceitar que uma pessoa possa aprender, gostar e opinar se tiver experiência menor do que ele. Ruim, não? A situação fica ainda pior quando este questionamento de autoridade baseado em tempo de contato com a cultura torna-se motivo para ofensas preconceituosas e homofóbicas.

Afinal de contas, é uma prática comum para a torcida brasileira acostumada aos gritos de “bicha” para o tiro de meta no futebol hostilizar um torcedor do Patriots por gostar e conhecer Tom Brady através da sua esposa Gisele Bündchen. Bom, aqui vai uma novidade para você que costuma fazer isso: gostar ou conhecer o Patriots por causa da Gisele não é sinônimo de falta de conhecimento do futebol americano, mas sim um fator de aproximação cultural e identificação com uma personalidade mundialmente conhecida e brasileira e, de maneira nenhuma, isso é motivo para comentários preconceituosos em redes sociais.

O que podemos concluir com tudo isso?

A cultura do futebol americano no Brasil é algo extremamente singular, já que mistura elementos da cultura dos EUA com o jeito de torcer brasileiro. Porém, não é muito inteligente por parte da comunidade do esporte hostilizar novos torcedores. O objetivo não é crescer? Não é fazer o esporte ser mais conhecido e elevar o nível dos times daqui? Vocês não gostariam que o Brasil fosse uma opção viável para partidas internacionais da NFL?Torcedor do New Orleans Saints, time de futebol americano da NFL

Entender que o crescimento e popularização do futebol americano é diretamente responsável pelas pessoas que já o conhecem, e não pelas que têm potencial de conhecer, é parte fundamental para entender o fenômeno do “ódio aos modinhas”. Quem já está há mais tempo neste barco não pode criar o sentimento de exclusividade para algo que por muito tempo foi um alívio social por dar sensação de pertencimento.

Acabar com os julgamentos sobre motivação de torcida é o primeiro passo nesse caminho de fortalecimento da comunidade do futebol americano. Não importa quais os motivos para alguém torcer para uma equipe, todos temos o direito de torcer para quem quiser e não sermos questionados sobre isso ou diminuídos em debates públicos por conta desses motivos.

Por fim, vale lembrar que não é do interesse da grande mídia tradicional divulgar e popularizar o futebol americano. Isso geraria concorrência de audiência e também de mercado para o futebol – principal esporte divulgado e que detém ainda os patrocínios das principais empresas. Logo, é fundamental que a comunidade do futebol americano entenda: o futebol americano PRECISA ser uma modinha se vocês querem que o Brasil seja relevante para a modalidade.

Foto de capa: Johnny Silvercloud via Visualhunt.com /  CC BY-SA

2 comentários em “A comunidade do futebol americano e o ódio aos modinhas da NFL no Brasil

  • 30 de maio de 2017 em 11:19
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    Exagero.
    Baita exemplo de uma super importância dada a algo banal.
    Torcer para um time que ‘só ganha’ não tem nada de errado, mas será zoado (dentro do grupo de amigos) assim como os que torcem para os times que perdem.
    Agora os modistas querem torcer fácil e ainda por cima serem imunes as zoeiras? hahaha

    Próxima matéria pode usar o seguinte título “Cartas de um modista ressentido”.

    hahaha
    Abraço modista.

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