Colocar o desafio no vôlei foi um erro

Em 2014, o vôlei resolveu se modernizar. Tirando um peso das costas da arbitragem, a FIVB, órgão que comanda o esporte no mundo, resolveu adotar o recurso de câmeras para revisar jogadas dentro de quadra que poderiam gerar, digamos assim, polêmica. Toque de um atleta na rede, toque da bola no bloqueio, invasão de quadra no saque, ou da linha de três por um jogador de fundo, ou da quadra adversária por um atleta na rede, além do clássico bola dentro ou fora.

Decisões que ficavam sobre os ombros de apenas um, do árbitro de cadeira, passariam a ser contestadas pelos técnicos, que poderiam desafiar as chamadas feitas nestes lances. Bom, né? O jogo fica mais justo. Porém, não foi a mil maravilhas que essa mudança aconteceu.

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Tal novidade, que ainda passou por testes na época, tomou corpo e passou a ser rotina em 2015. Com o Pan Americano de Toronto no calendário, as seleções tiveram que se adaptar a este novo recurso, que, diga-se de passagem, chegou com críticas positivas. Como você pode ouvir no podcast de Tecnologias no Esporte, a entrada de tal opção muda a cara do jogo, o desafio no vôlei passa a ser mais uma arma que pode influenciar o andamento da partida, talvez não o confronto em si (apesar de que ganhar um ponto que é dado como perdido pode significar a derrota ou a vitória), mas alterar muito o status psicológico e moral do jogo.

Porém — sempre há um porém —, o investimento exigido por tais recursos tecnológicos se mostrou alto, como toda nova criação é. O replay não é novo, muito menos são os meios de captura de vídeo, porém todo aparato de câmeras, computadores, além de pessoal treinado para disponibilizar com qualidade o desafio dentro do jogo não é algo que pode ser colocado no interbairros de Joaçaba. Ou na Superliga. Ou, aparentemente, no Grand Prix.

Acontecendo simultaneamente ao Pan Americano, o torneio anual de mais prestígio no vôlei feminino acabou perdendo seu peso, muitas seleções dividiram atenção entre as competições (o Brasil chegou a montar duas equipes para as disputas) e até mesmo a sede da fase final, nos EUA, não possuía tanto prestígio. Claro, as americanas são potência no esporte, mas o CenturyLink Center Omaha, localizado na cidade de Omaha, não é uma opção de grande nível, apesar da boa estrutura, que até foi elogiada ao fim do torneio.

O principal problema foi justamente na tecnologia do desafio. As imagens que seriam visualizadas pela arbitragem eram de péssima qualidade, em preto e branco, dificultando a tomada de decisão que deveria ser facilitada pelo uso do replay. Reclamações foram feitas à época sobre as condições do ginásio de Omaha para receber a competição, mas a verdade é que o erro está na concepção.

Como levantou o colega Nicolas Quadro, o futebol passa por uma situação parecida, de transição, e o medo de que tecnologias aplicadas com pressa ou desorganização podem ser prejudiciais, no vôlei se mostra como um fato. Não que eu acredite que desfrutar da revisão seja ruim para o esporte, jamais, mas que seja então introduzido tal recurso de uma forma coerente e acessível. Tudo bem a Superliga não possuir o desafio, isso tem impacto nacional e não chega a prejudicar o jogo. Quando o Grand Prix falha em entregar esta tecnologia, é porque ela já não deveria ter sido inserida para começo de conversa.

Podcast

Você pode ouvir mais sobre este assunto envolvendo outros esportes além do vôlei e do futebol no episódio do nosso podcast, o EsporteCast, sobre Tecnologias no Esporte clicando no link abaixo.

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Photo credit: JeepersMedia via Visualhunt / CC BY

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