Dicas para entender o calendário internacional de rugby

O rugby union é um esporte que já está caminhando para os seus 150 anos de existência. Mas como a profissionalização só começou a partir de 1995, o momento ainda é de transição e adaptação, inclusive no calendário internacional de rugby. Para alguém que desconhece a modalidade, há questões básicas que precisam ser apresentadas. Já para os apaixonados pelo rugby, a preocupação está no futuro após o mundial do Japão, em 2019. Vamos tentar achar um meio termo por aqui.

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Antes do calendário internacional de rugby…

Como já falamos no post sobre os tetos salariais no rugby em 2017, não existem muitas competições profissionais pelo mundo. Isto não é só por conta do recente abandono do status amador mas também pela influência e importância que as Uniões (no caso, as federações e confederações de rugby) exercem sobre a prática do esporte. Cabe a elas, em grande maioria, definir como a modalidade se organiza, se será profissional e como o fará.

Mas antes que você esbraveje um “é óbvio que é a União que decide!”, é importante lembrar dos casos no basquete, beisebol ou hóquei sobre o gelo, por exemplo. Quem manda mesmo são as ligas (os times ou as franquias). A FIBA, Federação Internacional de Basquete, acabou de mudar seu sistema de competições e vai fazer a ‘nova’ Copa do Mundo em 2019. Os qualificatórios serão realizados em seis janelas durante o ano, com quatro datas justamente dentro do calendário da NBA e Euroleague. Boa sorte às federações que tentarão liberar seus jogadores para os jogos.

No caso do beisebol, a então IBAF (Federação Internacional de Beisebol) acabou encerrando sua Copa do Mundo em 2011 (que existia desde 1938) para dar lugar ao World Baseball Classic. O torneio, realizado a cada quatro anos, é organizado pela MLB com apoio da associação dos jogadores, NPB e outras ligas profissionais. No hóquei sobre o gelo, a NHL decidiu este ano que não irá liberar seus jogadores para as Olimpíadas de Inverno de 2018. Já imaginou como serão os Jogos sem as principais estrelas e, no caso de EUA e Canadá, praticamente sem nenhum grande nome? No futebol também não faltam exemplos de má comunicação entre federações e ligas.

1 – Seleções sempre em primeiro lugar

Se a seleção era o nível mais alto que um jogador de rugby poderia alcançar, nos primeiros 120 anos de história amadora, muito pouco mudou nos últimos 20 anos de profissional. Ao menos em termos de mentalidade. Não à toa, um dos campeonatos mais antigos e mais importantes, o Six Nations, é realizado anualmente pouco antes do fim da temporada europeia. Ou seja, há chances do melhor jogador do time estar fora da reta final do campeonato. E é muito difícil um jogador convocado abrir mão da oportunidade e seguir jogando pelo clube.

calendário internacional de rugby union 2017
Campeonatos e competições internacionais do rugby union em 2017 (Arte por Thomé Granemann)

No hemisfério sul, com as Uniões tendo maior controle sobre os times profissionais, o calendário do rugby é mais adaptado ao cronograma dos selecionados nacionais. É possível observar isso na arte, com o período de amistosos de junho. O Super Rugby tem praticamente uma pausa de quatro semanas, com poucos jogos realizados para não interferir nas seleções. Isso tem permitido a Argentina criar, por exemplo, uma estrutura profissional sem nunca alterar seu campeonato nacional do nível amador.

2 – Copa do Mundo, tours, internationals, test matches e outras little things

Se o profissionalismo chegou há pouco mais de 20 anos no rugby, a Copa do Mundo não fica muito longe. Sua primeira edição foi realizada em 1987 e também acontece a cada quatro anos. Mas como as seleções faziam para jogar antes? Além do já citado Six Nations (que existe desde 1883), os times viajavam para outros continentes e disputavam amistosos (chamados de internationals ou test matches). Entram aí as tours, que aconteciam no meio e no final do ano.

Pra entender melhor, vamos citar dois casos: na final de 1997, a NZRU (União da Nova Zelândia) levou sua seleção para um tour pelas ilhas britânicas. Entre novembro e dezembro, os All Blacks disputaram nove jogos. Além de enfrentar os times principais da Inglaterra, País de Gales e Irlanda, jogou também contra times locais. Na próxima janela de amistosos de junho de 1998, a RFU (União inglesa) convocou sua seleção para um tour pelo hemisfério sul. Nas semanas seguintes, os ingleses enfrentaram a Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e também o selecionado Maori.

Com a criação da Copa do Mundo e outras competições internacionais, estes amistosos foram perdendo espaço entre o final dos anos 90 e início dos 2000. Havia também uma crescente reclamação dos clubes profissionais em ceder seus atletas. Para evitar o fim das tradicionais tours, em 2010 a entidade máxima do rugby cravou duas janelas oficiais. Na primeira, em junho, os países do norte do globo viajam para o sul. A lógica é invertida na segunda janela, em novembro. Era o início de um calendário global do esporte, um feito inédito, com o período definido entre 2012 e 2019.

3 – Seleções que não são bem seleções…

Um fator curioso do rugby union é que, como não havia um campeonato global até 1987, os jogos entre os países sempre tinham um caráter de exibição. Não que não houvesse competição e jogos de qualidade, nada disso. Mas montar um selecionado e levar para jogar em outro continente trazia um peso diferente. Com o status amador ainda presente, era uma questão de comparar estilos de jogo. Não só jogar país contra país por um título.

Por causa disso, se tornaram muito comuns seleções combinadas ou times de convite. Por que não juntar os melhores jogadores de determinada região da Europa e testar contra um país da Oceania? Ou convidar os melhores jogadores da França (não necessariamente franceses) para jogarem juntos contra a seleção da África do Sul, que virá para um tour? Entre as equipes independentes, os times mais famosos são os Barbarians, em especial o inglês. Dos combinados, pode-se citar a seleção da África Ocidental (Uganda, Tanzânia e Quênia), passando pelos Jaguares Sul-Americanos (Argentina, Uruguai e Chile) até os Pacific Islanders (Fiji, Samoa e Tonga).

Contudo, o mais famoso deles é o British and Irish Lions. Formado pelos jogadores da ilhas britânicas, consideradas as originais do esporte, o time dos Leões visita Nova Zelândia, África do Sul e Austrália alternadamente, a cada quatro anos. Por conta deste espaço de tempo e da quantidade de craques reunidos, as tours se tornam espetáculos de público e atenção. Na próxima janela, em junho de 2017, os British and Irish visitam os All Blacks.

4 – A nobreza, a burguesia e o povão

Ao longo do texto talvez você não tenha percebido, mas as nações citadas para explicar o calendário internacional do rugby são as mesmas. E não é só por escolha. Existem “castas” de países no rugby union e elas ainda vão levar um tempo até desaparecerem. Lembra do calendário criado entre 2012 e 2019? Ele foi inédito também para que muitos países com pouca tradição pudessem ter mais oportunidades e crescer. Mais rápido que o normal.

A classificação, chamada de Tier, não é simplesmente excludente. A diferença técnica entre o País de Gales e o Chile é de fato grande, por exemplo. Mas as possibilidades de encurtar este cenário sempre foram demoradas. O “clubinho Top 10” do Tier 1 era ‘Top 8’ até pouco tempo. A Itália demorou 15 anos só para entrar no então Five Nations em 2000. Hoje ainda batalha para se manter competitiva. Já a Argentina viveu um processo de 30 anos até alcançar a semifinal da Copa do Mundo de 2007. Em 2012 passou integrar o então Tri-Nations.

classificações dos países que ajuda a definir o calendário internacional de rugby union
Divisão de níveis entre as nações do rugby union. (Arte por Thomé Granemann)

5 – E o futuro?

Com o calendário internacional do World Rugby, vimos o Brasil ter EUA e Canadá como adversários anuais, na Americas Rugby Championship. Os Tupis ainda enfrentaram Portugal e Alemanha em amistosos pela primeira vez, a partir de 2013. E no final de 2016 fizeram a primeira viagem à Europa. Uma grande evolução para quem praticamente só enfrentava times sul-americanos nos últimos 50 anos.

Porém, as nações da chamada Tier 2 por enquanto não tem a oportunidade que os brasileiros e outros Tier 3 tem tido. A Geórgia está acima da Itália no ranking mundial, mas não há indícios que o país poderá participar do Six Nations. O Japão será sede da Copa do Mundo em 2019 (pela primeira vez o torneio será realizado fora do “clubinho”). E este ano introduziu seu time no Super Rugby. Ainda assim não está sendo considerado para participar do Rugby Championship.

A esperança agora recai sobre o novo calendário, anunciado em março deste ano. Após a Copa de 2019, o rugby viverá uma nova fase entre 2020 e 2032. Além das mudanças da janela do meio do ano (trocando de junho para julho), estão programados diversos amistosos entre nações Tier 1 e Tier 2. Encurtar as distâncias é o maior objetivo. Mas por enquanto, vamos ter que esperar. E se você quiser assistir algum amistoso na próxima janela de junho, já sabe o que procurar. Fica a dica.

Foto de capa: Sum_of_Marc via Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

3 comentários em “Dicas para entender o calendário internacional de rugby

  • 30 de maio de 2017 em 14:29
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    Artigo fantástico! Explica muito bem o calendário do esporte. Continuem com o ótimo trabalho que vem sendo feito pro Rugby com seus artigos!

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    • 30 de maio de 2017 em 15:07
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      Olá novamente Arthur. Que bom que você gostou de mais uma! Fique a vontade para comentar e também nos questionar sobre outros conteúdos. Não publicamos notícias, então ficamos focados em assuntos que podem servir de porta de entrada para àqueles que desconhecem as modalidades.

      grande abraço

      Resposta
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