O Brasil que aprendeu com o vôlei, agora vai ensinar

Para os grandes entendedores de vôlei, esse texto pode parecer um pouco óbvio, uma discussão que não leva a lugar nenhum. Mas para você que está chegando agora, é o início de um debate que vale a pena. Como falei anteriormente em um texto sobre os homens e em um EsporteCast, o vôlei vem mudando e entre os barbados não somos mais lá aquela potência. Só que o mundo é das mulheres e esse texto também, e dentro do voleibol feminino o verde e amarelo dá medo. Quem nos enfrenta sabe do poder de fogo que o Brasil mostrou nos últimos campeonatos e, para entender como chegamos nesse lugar, precisamos – claro – voltar um pouco na história.

Quem me conhece, ou lê meus textos aqui no Time de Fora, sabe que adoro olhar para o passado, entender como o esporte se desenvolve e que, normalmente, padrões podem ser traçados. A linha comum aqui é com o vôlei masculino, mas não com a equipe atual, e sim aquela dos anos 2000. Aquela que iniciou a carreira multicampeã. Nosso ponto atual de desenvolvimento entre as meninas lembra muito aquele time, não no estilo, mas sim no perfil.

Mas estou me adiantando, vamos voltar pra os anos 2000. A chegada de Zé Roberto foi em 2003, depois da geração de 90, que vinha de dois bronzes olímpicos (1996 e 2000), três títulos do Grand Prix em cinco finais, um ouro de Pan-Americano. No geral, uma seleção vitoriosa. Nem de longe uma referência. Sem menosprezar, cresci vendo Virna e Leila, sou fã eterno daquela geração, mas ela não mudou o esporte, não influenciou o estilo do esporte. Cuba, EUA e Rússia fizeram isso, eram as atletas para quem se olhava quando se pensava: como se joga voleibol?

Entendam bem, nós éramos bons. Muito bons! Desde o início do Grand Prix de vôlei, em 1993, até 2001, nós não estivemos entre os três melhores times apenas duas vezes . O que digo é que nós não ditávamos um estilo, nós seguíamos as tendências. Sim, é bem como eu falei do masculino atualmente. Dominamos um estilo, lá nos anos 90, que não era nosso, que nós apenas copiamos – mas levamos à quase perfeição.

gráfico medalhas vôlei feminino
Arte: Vinicius Schmidt

E então, veio Zé Roberto Guimarães

Chegamos então a 2003, fatídica data em que José Roberto Lages Guimarães assumiu a Seleção brasileira feminina de vôlei, determinado a nos tornar protagonistas. Tinha um trabalho árduo nas mãos, mas Zé Roberto foi de muitas maneiras o cara certo, na hora certa, com as jogadoras certas. Ele chegou em 2016 depois de afirmar sua coragem dupla. Destaquei para mim mesmo, ao escrever este texto, que renovar traz riscos – e o Zé se arriscou duas vezes. Quando assumiu o comando das meninas do vôlei, estávamos bem estabelecidos e num processo de transição. Algumas veteranas miravam a aposentadoria, outras queriam dar mais sangue e suor. Zé não teve perdão. Havia vencido uma olimpíada com os homens em 1992 e estava destinado a trazer o ouro feminino, e para isso queria mudanças.

Foi neste momento de transição que se iniciou nosso atual posto de liderança. Foi lá, um ano antes das olimpíadas de Atenas, que teve início a ascensão. Nossa seleção vinha de uma crise, o técnico Marco Aurelio Motta se viu frente a jogadoras que pediram para se afastar da equipe. Nomes “fracos”: Fofão, Walewska, Érika. Problemas de relação, unidos a um sexto lugar nas olimpíadas de 2000, abalaram as estruturas do nosso voleibol. Zé Roberto, então, resolveu trazer novos nomes. Hoje, para quem lê sobre elas, dirá que não são novas. Lá em 2003, Paula Pequeno, Valeskinha, Mari assumiram o protagonismo, com Sheilla, Jaqueline, Fabiana, Fabi chegando de mansinho. Acredite, era um timão!

Ainda estávamos num caminho próximo do que vinha sendo jogado. Veja no vídeo abaixo como o jogo era mais lento: as ponteiras são a referência, elas quem recebem a maioria das bolas da levantadora, com as centrais sendo um alívio, a oposta uma surpresa e o foco estando na defesa, no tempo de jogo.

Perdão pelo áudio em russo, mas vale a pena ver

Tudo bem, foi uma derrota aqui, mas é um bom exemplo. Ainda assim, nossas centrais não eram assim tão coadjuvantes. Quando Fofão e Walewska voltaram, Zé começou a experimentar. A famosa jogada da seleção chinesa, a “china atrás”, começou a ganhar força no mundo e o Brasil saiu na frente, o que destacou Thaisa em 2005 e nos levou a mais um título de Grand Prix.

Perceba, não é no estilo ou no material humano que está a renovação. É nos dois elementos juntos! Construímos nossa seleção com peças-chave desde o início: Fofão já era figura carimbada, foi a base para dar espaço a Sheilla e Jaque; Walewska assumiu a responsa, e ensinou Thaísa a ser uma arma incontrolável; com muita visão, Zé Roberto colocou peso nas costas de Fabi, um grande acerto. Essas então “aprendizes”, hoje são nossas referências para mais um ciclo.

Mulher no comando

Assim, por volta de 2010 nós tomamos as rédeas. Já éramos campeãs olímpicas em 2008, na casa das poderosas chinesas, tínhamos cinco títulos de Grand Prix em seis anos, além de duas finais de Mundial. Já começávamos a dar uma nova cara ao nosso estilo de jogo, nos braços da torcida. Certo? Não, as meninas sofriam um problema social mascarado no esporte.


“Fraqueza”? Nada, a Russia jogou muito mesmo!

Uma equipe que se mostrava inconstante em certos momentos tinha na “fraqueza feminina” o motivo para, por exemplo, perdermos para a Rússia na final do Mundial de 2006, ou no de 2010 (vídeo acima). Se reforçava esta ideia de “elas não têm controle emocional, sempre pipocam”, um fato que se rebatia a cada grande jogo vencido. Não éramos como a seleção masculina? Claro, esse tempo ainda está por vir, mas eu já falo mais disso.


Zé Roberto deixa clara essa história de “pipocar”

A verdade é que estes resultados eram normais, passávamos por mudanças, iríamos variar muito o rendimento. Sheilla mostrou talento e passou a protagonizar o ataque, Thaísa e Fabiana se estabilizaram como segurança ofensiva, mas ainda sem serem referência, e Zé Roberto buscava compreender qual era o caminho a se seguir. E era um caminho muito bom. Como eu sei? Quatro finais de Grand Prix e dois títulos. Ouro olímpico novamente, em 2012, onde o ponto de virada desta ideia de “fraqueza mental” aconteceu, com a vitória histórica contra a Rússia nas quartas-de-final.


Se você tem coração forte, acompanhe de novo aquele tie break

Mais recentemente, disputamos em alto nível um Grand Prix e um Pan-Americano. Simultaneamente. Com times divididos. Esta é a demonstração de nossa força atual e, mais ainda, de nosso estilo. Fomos bronze no Grand Prix e prata no Pan-Americano jogando com o mesmo estilo, com uma cara de Brasil bem definida.

Deixa eu te mostrar como se joga

O desenvolvimento físico é geral nos esportes. Destaquei como isso afetou – e atrapalhou – o voleibol masculino, mas no feminino é a nossa marca. Criamos jogadoras que, hoje, são fortes, rápidas e imponentes. Definem, assim, nosso novo estilo. Qual é esse estilo? Veja abaixo.

Nosso jogo se baseia em centrais controladoras, que dominam o bloqueio. Este é o foco, tocar em todas as bolas, como faz Juciely no vídeo. Assim, temos um passe muito mais facilitado, podendo a levantadora escolher quem vai virar. Natália faz o papel de ponteira viradora, mas a principal atacante é a oposta. Neste caso, Gabi fez as vezes de viradora, mesmo sendo ponteira – mas o cargo ficará para Sheilla. Ambas, Natalhão e Gabizinha, possuem uma virada muito forte, mas não tão segura, sendo um poder de fogo inconstante e, se bem trabalhado, destruidor. As centrais, além de bloqueadoras insanas são viradoras seguras, tornam-se a primeira opção se o passe não for ideal – e até algumas vezes quando ele é. O resto do time defende. “Só” defende.

Este modo de jogo é um reflexo total do material humano. Na última convocação de Zé Roberto, temos: Jucy, Fabiana, Carol, Thaísa e Adenízia – qualquer grupo montado da combinação destas atletas será o melhor conjunto de centrais do mundo; Jaqueline, Natália, Gabi e Fê Garay também como um dos melhores elencos de ponteiras do mundo. Temos Sheilla, talvez a melhor jogadora do mundo. Temos muita força e o elemento da “surpresa”. Somos novidade pois estamos, de certa forma, reinventando o vôlei.

Jogo com centrais, ponteiras fortes, oposta máquina de virar bolas. Já viu isso antes? Quando uma seleção brasileira implementou e aperfeiçoou este estilo, foi com Bernardinho, resultando no melhor time que o vôlei mundial já viu. Acredito que nosso futuro com as meninas será dourado, a começar por Rio 2016.

Foto destaque: Divulgação/Facebook

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