As semelhanças entre a Seleção Brasileira de 87 e o small ball do Golden State Warriors

O ano de 2017 é marcante para a história do basquete brasileiro. Primeiro, Oscar Schmidt foi devidamente homenageado pela NBA, ganhando os holofotes do basquete mais uma vez e cravando seu nome como um dos maiores de todos os tempos. Segundo, agosto marcará 30 anos da conquista do Pan-Americano de Indianápolis, com a famosa vitória do Brasil de 1987 sobre os EUA na final, no jogo que mudou o basquete brasileiro para sempre.

Oscar deu inúmeras entrevistas em fevereiro e em várias delas falou sobre como aquela seleção histórica já jogava no estilo dominado pelo Golden State Warriors atualmente: “o jogo do Golden State Warriors, hoje, é exatamente o jeito que jogava a seleção brasileira da minha geração com o Ary Vidal”. Nós ficamos curiosos e resolvemos botar isso a prova: será que o Brasil jogava no small ball antes de ser moda?

Visitamos o passado e levantamos as estatísticas daquele famoso 23 de agosto de 1987. Depois, comparamos os números com o último jogo das finais da NBA de 2015, quando o Golden State Warriors dominou e venceu o Cleveland Cavaliers por 4 a 2 e eis a semelhança:

Arte: Vinicius Schmidt

As diferenças

É inegável que existem pontos muto próximos entre as duas equipes, mas primeiro vamos focar no diferente. Há uma clara distância de gerações, já que o basquete dos anos 1980 não exigia tanto do físico dos atletas como hoje. Os jogadores eram mais magros, porém ágeis, o que colaborou para o estilo da seleção brasileira. Assim, quando o objetivo era ser rápido nas ofensivas, o perfil dos nossos pivôs permitia despovoar o garrafão e forçar o jogo de perímetro.

Israel e Gérson tinham estilos clássicos das posições 4 e 5. Eram acostumados a se aproximar do aro para disputar rebotes, faziam pick-and-roll e jogavam de costas para a cesta quando as opções do ataque se fechavam. Diferente do que faz Draymond Green, por exemplo, que possui precisão no perímetro e a habilidade para infiltrar quase como um ala. Mesmo assim, nossos pivôs arriscavam uma ou outra bola de três e dominavam o fundamento essencial para o estilo de jogo, fazer o corta luz no perímetro, dando espaço para os chutes de média e longa distância.

Mesmo com o jogo sendo aberto no garrafão (como visto abaixo), eram poucas as opções de jogadas, já que somente nossos alas que dominavam os chutes de três. Também se limitavam as jogadas de garrafão, já que os pivôs estavam sempre distantes da área pintada. Talvez daí venha a dificuldade de gerações seguintes da seleção brasileira (como a de Marcelinho Machado e Alex, ou até a mais recente de Leandrinho, Nenê e Splitter) de aplicarem tal estilo. Muito da possibilidade de se jogar o small ball vem da qualidade dos arremessos dos jogadores – ou seja, só funcionou em 87 por causa de Marcel e Oscar.

Outra grande diferença entre seleção brasileira e Golden State Warriors está na armação. Guerrinha, que começou de titular, e Cadum, que veio do banco e jogou a maior parte da partida, são armadores clássicos, que pensam o jogo e distribuem a bola (imagem acima), sem a tendência a forçar infiltrações e arremessos, como vemos hoje na NBA. Era um estilo diferente de Stephen Curry, e até mesmo do reserva Shaun Livingston, o que dava um ritmo bem mais lento ao jogo.

O basquete jogado naquela época buscava gastar todo o relógio (na época de 30 segundos por ataque) a cada posse, mas ainda assim sem aplicar uma movimentação recorrente de todos os jogadores. Era um jogo muito mais estático, com alas abertos e pivôs fazendo corta-luz, com quase nenhuma presença de zona morta. Isso afunilava os ataques, tornando as ofensivas muito óbvias.

De certa forma, o Brasil de 1987 era programado para jogar assim, e em grande parte do primeiro tempo atacou dessa forma, batendo de frente com o estilos dos EUA. A mudança surgiu somente no segundo tempo, quando o tiroteio do perímetro teve início.

As semelhanças

Se o jogo ficava mais lento quando a bola passava pela armação, ele acelerava quando a bola caía nas mãos de Oscar e Marcel. Os dois alas arremessavam o tempo todo (48 dos 71 arremessos do Brasil no jogo) e, consequentemente, acabavam as partidas com um aproveitamento baixo. A lógica era treinar muito o fundamento, chegar no jogo e bola no aro até não poder mais que alguma vai entrar. Lembra alguém?

É este o elemento que aproxima tanto o Brasil de 87 ao Golden State Warriors, a sede por cestas. Numa lógica contrária a da história do próprio basquete, essas duas equipes não buscavam o melhor aproveitamento de quadra possível, mas sim vencer na matemática. Por exemplo: se um jogador acabar a partida com 40% de aproveitamento da linha de três, arremessando 15 bolas, isso me dá seis acertos, ou seja, 18 pontos. Se este mesmo jogador acertar mais seis arremessos próximos do garrafão, terá acumulado 30 pontos, uma ótima marca. Então veja os números de Oscar e Curry nas respectivas partidas.

No gráfico acima, destacamos os números das duas estrelas e dos dois melhores depois deles, no caso Oscar, Curry, Marcel e Iguodala (que foi o MVP daquelas finais). Tanto nos arremessos gerais como da linha dos três, o Mão Santa beirou os 50% de aproveitamento, o que não é nada espetacular. Tudo bem, acertar metade dos chutes de três pontos é ótimo, mas não era o que se queria de um jogador de basquete naquela época. Se buscava a regularidade, só que Oscar arremessou tantas bolas de longe que acabou como cestinha da partida com 46 pontos.  Na verdade, esses números estão dentro das expectativas para um jogador atual, principalmente caras como Stephen Curry, Russell Westbrook e James Harden.

Os EUA, naquela final de Pan-Americano, abriram uma vantagem de 14 pontos no primeiro tempo, mas a artilharia brasileira recuperou isso com os tiros de longe de Oscar e Marcel, da mesma forma que Curry e Thompson (recentemente reforçados por Durant) fazem até hoje. Parece não haver vantagem que garanta vitória contra um estilo tão desapegado e ao mesmo tempo coordenado.

Cada atleta sabe a sua função, do armador ao pivô, mas se não tiver talento, o tal small ball não funciona. Na verdade, o Brasil de 87 não seguia exatamente o mesmo estilo, não era uma correria de ataques frenéticos, mas buscava se aproveitar do potencial absurdo dos seus dois melhores jogadores. Foi muito por ter o Mão Santa que aquela seleção resolveu jogar como franco-atiradora, pois defensivamente o time ainda jogava de forma tradicional, preenchendo o garrafão e sempre mantendo dois pivôs na quadra para segurar David Robinson e companhia. Assim, a maior semelhança que podemos ver é entre os estilos de jogo de Oscar e Curry.

Para quem assiste o jogo de 1987, é realmente assustadora a semelhança entre os craques. Oscar possuía aquele instinto matador de quem sabe quando a bola vai cair sem nem mesmo pensar. Às vezes você chega a pensar “ah tá bom que essa bola vai… *SPLASH*”. Assim como Curry, sua principal arma era a precisão, independente de ter um marcador ou não a sua frente, e um elemento fundamental para o sucesso de Oscar Schmidt foi o posicionamento. Sempre muito bem colocado em quadra, ele sabia exatamente sua distância da cesta e dali ele arriscava. Não acredita? Então olha como os dois craques fizeram:


Confiança talvez seja a palavra mais correta. Oscar e Curry exalam a certeza de que sabem o que fazem. Podem não conseguir roubar a bola, ou pegar o rebote, ou driblar (a gente sabe que eles conseguiam fazer tudo isso, é claro), mas com a bola na mão e os dois pés plantados, pode ter certeza que a bola uma hora ia cair.

Para ir além de comparar os times, é mais palpável pensar que o Brasil de 87 inspirou o Golden State Warriors. É difícil cravar quem “inventou” esse estilo, até porque Larry Bird também arriscava chutes de todos os cantos da quadra naquela época. Só que essas duas equipes se assemelham em terem encontrado talentos tão únicos que, se o time jogasse ao redor deles, a vitória provavelmente viria.

É até válido admitir que essa matéria começou com um certo ceticismo: “vai ser bem diferente o estilo, com certeza”, nós pensamos. Aí veio esse lance abaixo, e os queixos caíram. Existem ainda muitas avaliações mais profundas a serem feitas, que podem afastar ou aproximar as duas equipes, mas de forma geral é inegável dizer como são parecidos Curry e Oscar. Como são semelhantes o Brasil de 87 e o Golden State Warriors.


Foto destaque:  Divulgação / Instagram e Divulgação / CBB

Deixe seu comentário: