Até aonde vai a paixão pelo futebol americano

Um pontinho branco em meio a multidão vestida de preto e branco cruz-maltino. A única torcedora do Timbó Rex no meio dos milhares de vascaínos grudados na grade da arquibancada da final do Torneio Touchdown de 2014, no dia 13 de dezembro. “Mas eu não ia, nunca, jamais, em tempo algum, assistir ao jogo lá em cima isolada. Não tem cabimento!”, conta Gleice De Moura, provavelmente uma das maiores torcedoras de futebol americano do Brasil.

“Eles trouxeram a camiseta de Santa Catarina pra mim e avisaram que só tinha sobrado a M, que era enorme. Aí eu coloquei uma tesoura na bolsa, rezei pra que não me pegassem e depois cortei a blusa. Ficou bonitinha, com ombrinho de fora”, ela dá risada da aventura, que começou bem antes do dia 13. Gleice mora em Manaus e é apaixonada pelo Manaus Cavaliers, mas guarda também um carinho especial pelo São José Istepôs – passou dois meses em Florianópolis acompanhando os treinos e assistindo aos jogos – e pelo Timbó Rex, ambas equipes de Santa Catarina. Aliás, a paixão mesmo é pelo esporte. Essa foi apenas uma das viagens que fez por causa do futebol americano: saiu do Amazonas, foi até São José dos Campos (SP) onde mora a irmã e passou a noite em um ônibus para amanhecer na cidade do Rio de Janeiro e ver a final. “O ônibus saiu meia noite. Cheguei na rodoviária às cinco da manhã, fiquei lá tomando água e comendo pão de queijo até as 10h e depois pedi informacão pra ir até o estádio onde aconteceu o jogo. Acabou a partida, voltei pra rodoviária e fiz o caminho de volta, saindo do Rio a meia noite e chegando em São José cinco da manhã. Só aí deu pra descansar mesmo, mas me realizei”.

O futebol americano existe em Manaus há cerca de dez anos, mas faz um pouco menos que Gleice acompanha o Cavaliers. “Um amigo meu era professor e me convidou pra assistir a um jogo que uns alunos dele estavam participando. Lembro até hoje: era Manaus Cavaliers contra Amazonas Blackhawks. Nesse dia foi paixão, bati o olho e me apaixonei pelo time. Desde então nunca perdi uma partida, isso foi seis anos atrás. Eu ia sozinha e ficava na beira do campo acompanhando tudo, correndo pela lateral junto com a bola. No começo as mulheres ficavam olhando com ciúmes, porque o público aqui ainda é muito de família e amigos. Então se você não tá com ninguém isso quer dizer que tá atrás dos caras. Com o tempo elas foram me conhecendo e vendo que eu tava lá pelo esporte mesmo, mas no início foi assim”.

A paixão foi tanta que a torcedora acabou por ficar dois meses em Florianópolis assistindo a jogos e treinos do São José Istepôs. “Em 2014 fui assistir a Vasco e Flamengo pelo TTD (Torneio Touchdown) e convidei um amigo pra assistir. Ele ia jogar no Istepôs e acabei indo pra Floripa conhecer o time. Fiquei na casa com esse e mais dois amigos que estavam na equipe. Ia a todos os treinos. Terça, quinta, sábado e eu tava lá. Foi uma experiência que eu vou levar pro resto da vida, conviver com caras dos quais eu era fã e já conhecia por causa do desempenho no esporte foi incrível. Ver jogadores que eu assistia em vídeos jogando e treinando ao vivo foi demais. Pra mim não tem obstáculo. Dizem pra pegar e viajar, ir pra praia, mas é isso o que eu gosto, é isso que me dá prazer”.

“Tinha dia que tava um frio (em Manaus a média é 40 graus todo dia). Seis graus com chuva e vento e sem ter levado roupa de frio, porque eu não tinha, aí eu ficava com aqueles agasalhos dos meninos o tempo todo, aquele negócio que fede pra caramba, meses sem lavar. Dois meses em Floripa. Imersão no futebol americano. Esse tempo que passei convivendo com eles foram dois meses perfeitos. Viajei junto, acompanhei a preparação, eles colocando os equipamentos, me arrepio só de falar. Não sou aquela fã de televisão, tenho meu time na NFL (o San Francisco 49ers), mas os meus times são daqui, tô lá todo jogo. Cavs, depois Istepôs, a torcida, os atletas, amo, sinto um carinho tão grande… Voltei lá (no segundo semestre de 2015 Gleice foi a Florianópolis assistir ao Istepôs em uma partida do campeonato brasileiro) só pra ver eles e abraçar eles, me sentir bem de novo. Cheguei, conversei, abracei, pedi pra tirar foto. Lembranças que volta e meia fico olhando.”

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Na torcida pelo Timbó Rex, time de Santa Catarina campeão do Torneio Touchdown de 2015

Depois de acompanhar o esporte por tanto tempo, Gleice entrou no time feminino de flag (modalidade praticada sem equipamento) do Manaus Cavaliers. A equipe da qual faz parte joga 5×5 – com cinco jogadoras no ataque e cinco na defesa. Os treinos acontecem terças e quintas das 20h às 22h e sábados das 16h às 19h e ela está lá sempre. Antes ia assistir ao treino masculino, hoje também pratica com seu time. Ela também é uma das integrantes da torcida organizada do Cavs, composta por cerca de quarenta mulheres. “Somos uma torcida de vanguarda no futebol americano. Fazemos camiseta, faixa e uma série de músicas pra animar não só os jogadores como a gente. Também fazemos trabalhos voluntários, como a campanha no Dia das Crianças que a gente arrecadou brinquedos e fez visitas e brincadeiras com crianças carentes. É da alma da torcida, tem gente que gosta de ajudar e nós fazemos isso juntas. É sempre a torcida mais animada e mais preparada”.

Domingo é dia de NFL. A partir das 14h (horário em que começa a transmissão no Amazonas) começa e termina jogo e ninguém pode falar com a Gleice. Ela assiste a qualquer jogo. “Confesso que sou fã do quarteto de ataque Brady, Edelman, Amendola e Gronk”, ela ri. Mas se você perguntar se ela gosta mais de futebol americano brasileiro ou do americano ela nem pisca antes de responder. “Do brasileiro, claro. Sou muito envolvida com os nossos times. Se você me perguntar da NFL eu vou te dizer as coisas, vou te falar os QBs das franquias e dos desempenhos dos times. De quem ganhou e quem perdeu na última rodada, vou falar. Mas acompanhar mesmo, de assistir a todos os vídeos, acompanhar as notícias, saber do esporte, é o futebol americano brasileiro. Nós temos uma aptidão pro futebol americano, só falta ele chegar até as pessoas pra que elas se identifiquem com isso. Nós, brasileiros, temos isso”.

Fotos: Arquivo pessoal/Facebook

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