Rugby: antes de xingar a ideia de “árbitro de vídeo”…

…dê uma olhada no que o rugby faz em relação ao replay. Sim, rugby (ou rúgbi ou râguebi, tanto faz), em especial a modalidade union. Se por acaso não sabe do que estou falando, dê uma passada para ler o texto de Nicolas Quadro, que explica um pouco sobre a proposta da CBF para o Brasileirão 2016.

História do rugby

Mas por que falar de rugby em um texto de futebol? Você pode argumentar que “é uma modalidade que o Time de Fora ainda nem cobre” e — para minha tristeza — está certo, ao menos em partes. É importante saber que o rugby também é football, um irmão desse futebol tão idolatrado no Brasil. Para não perder muito tempo com explicações, vou contar a origem mais famosa (e não tão precisa): jogos com bola sempre existiram na história da humanidade, mas ali pelo século XIX surgiu um esporte nas escolas preparatórias (chamadas de colleges) da Inglaterra. O objetivo era simples: reunia dois times disputando uma bola, que marcavam pontos quando chegavam ao gol do adversário, não importando como.

Cada uma das escolas tinha suas próprias regras, por isso em 1863 diversas se reuniram para unificar o esporte e assim criar a Football Association (a mesma que existe até hoje e comanda o futebol inglês). A mudança mais significativa era de que a bola não poderia ser mais conduzida com as mãos, apenas com os pés. Esta alteração irritou as escolas e clubes que se inspiravam nas regras criadas na cidade do Rugby. Então, em 1871, surgiu a Rugby Football Union, que reunia aqueles que gostavam de jogar esse “futebol com as mãos”. Fato curioso: o termo soccer (usado nos EUA, por exemplo) nasceu nessa época, como uma corruptela da palavra association, se referindo ao “futebol com a bola nos pés”.

Cabeças duras

“Tá, beleza, legal a histórinha. Mas e daí?”. Daí que o rugby, assim como o futebol, é uma modalidade antiga e, até pouco tempo, também avessa a mudanças. Só olhar pro nascimento da modalidade “Rugby League”. Na região norte da Inglaterra, o esporte foi amplamente adotado pelos trabalhadores enquanto que no sul ficou mais popular entre a parcela mais abastada. Quando os jogadores do norte começaram a perder dias de trabalho para jogar (importante lembrar que nessa época a jornada poderia ser de 18 horas, seis dias por semana), resolveram solicitar compensações aos times. Ao saber dessa “profissionalização”, a RFU proibiu a prática e eventualmente expulsou os clubes e até escolas amadoras. Para combater esta imposição nasceu, em 1895, a Northern Union, que hoje se tornou a Rugby Football League, a modalidade profissional mais antiga.

E o profissionalismo no rugby union? Só 100 anos depois, em 1995, justamente pela ameaça de que o Rugby League poderia “roubar jogadores” em países como a Austrália, por exemplo. Até esta virada, outras mudanças de regras eram igualmente difíceis de serem implementadas. A substituição de jogadores machucados só foi permitida em 1968. As substituições técnicas em 1996. Os cartões amarelos e vermelhos foram testados em 1976 mas só em 1992 viraram regra. Essa teimosia lembra algum outro esporte?

Aplicando as novas regras e o replay

Contudo, depois de 1995, a International Rugby Board (entidade máxima do esporte, hoje conhecida como World Rugby) compreendeu que era necessário promover mudanças, atualizar o esporte para atrair popularidade. Pouco a pouco, o jogo se tornou mais dinâmico. Promoveu mais proteção aos jogadores, permitiu mais pontuação e outras mudanças seguem sendo propostas. Mas foi em 2001 que nasceu o TMO, Television Match Official. Ou seja, um árbitro de vídeo para ver a jogada no replay. A regra é simples: se tiver condições, permite a competição implementar um auxiliar. Este ficará responsável por analisar os lances cruciais da partida, por meio de imagens, quando solicitado pelo árbitro. E esta solicitação só pode ser feita se existir alguma dúvida na marcação de um try ou em algum lance de falta grave, agressão ou falta de fair play.

Esta “possibilidade de replay” gerou um certo estranhamento no início, mas hoje em dia é amplamente comum, especialmente em torneios de alto nível. Vários tries deixavam de ser marcados muitas vezes pela velocidade do jogo, mas hoje em dia, a própria World Rugby traz listas de lances que foram anulados pelo TMO, como este da última Copa do Mundo:

Polêmica

É claro que, como qualquer regra, ela não é unânime. É só procurar por “TMO rugby” no Google e achará diversos artigos a favor e outros tantos contra a regra. Uns defendem a ampliação do uso do replay e alguns preferem sua redução. Aliás, uma semifinal da Copa do Mundo de 2015 (entre Austrália e Escócia) foi o último estopim para este debate. O árbitro da partida marcou uma falta em um lineout (espécie de lançamento lateral), permitindo um chute de 3 pontos a favor da Austrália, virando o jogo. Se o árbitro pudesse olhar o replay deste lance, veria que não houve falta na jogada e a Escócia deveria ter vencido.

“Po, mas de que adianta olhar para uma regra que não é 100% certeira? De que adianta isso no futebol?” Talvez não adiante, não dá para saber. Não enquanto não for possível testá-la. E este talvez seja a maior barreira que o “árbitro de vídeo” irá enfrentar: a resistência dos envolvidos no futebol. Assim como era no rugby.

E aí, quer saber mais sobre como os replays podem funcionar no futebol? É só escutar a primeira edição do Esportecast com o tema Tecnologias no Esporte clicando aqui.

Foto principal: Thomé Granemann

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